terça-feira, 29 de junho de 2010

sobras

às vezes pergunto-me:
o que fica das pessoas?
(há rostos a quem perdemos o leito…)
o que sobeja dos livros?
(há páginas que asfixiam no peito…)

se a carne apodrece nos ossos
e os pássaros morrem nos versos
porquê esperar pela primavera do corpo?

Fotografia de José Figueira

42 comentários:

  1. Pássaros que morrem nos versos...que beleza isso, diz-me agora muito: bela imagem!
    Abraços,
    Tânia

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  2. tânia, temo-nos cruzado por aí, nos blogues da "turma" (como vocês dizem :-)); finalmente encontramo-nos nos nossos próprios espaços.
    fico muito contente por te ter por aqui.
    um beijo!

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  3. a imagem é bem bonita. e as palavras vao de encontro ao coração. parabéns professor bem haja neste mundo em que ser professor é um desafio. kis :)

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  4. ...porque é um começar de novo! se até nas plantas, renascem novas flores na serena primavera...
    Beijinho amigo!
    Belo poema e a imagem...um eterno viajante!

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  5. Verdade, Jorge, nos cruzamos por aí sempre, de modo que eu já estava na sua mira..rsr. Que bom cheguei aqui, e tudo tem o seu tempo, como dizemos: o tempo chegou e seu espaço é, de fato, tudo de bom que disseram dele! Muito bom nos visitarmos...

    Abraços,
    Tânia

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  6. ah, jorge, porque primaverar é nosso destino, nossa sina...as outras estações são apenas preparação para esta chegada...o verão que aquece os corpos, o outono que os interioriza, o inverno que os incuba para, então, os fazer brotar...

    lembrei de uma passagem de ítaca (minha favorita)
    "Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
    Το φθάσιμον εκεί ειν' ο προορισμός σου.
    Αλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου."

    na tradução de Haroldo de Campos:
    "Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
    Tua sina te assina esse destino,
    mas não busques apressar sua viagem."

    um beijo, tão querido poeta!

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  7. Porque temos sempre que esperar por alguma coisa. Sem a espera, a vida perde o sentido.

    E já que assim é, que esperemos então pela primavera, com a certeza que o futuro será florido.

    Abraço grande meu poeta.

    Cid@

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  8. sobram imagens construídas no labor da poesia, palavras marejadas de soluços e também lampejos de alegria,

    abração

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  9. Não sei viu !!?
    Tão sem sentido tudo :S

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  10. Sobram de tudo as sobras de mim? Sobretudo sobrará o meu fim.

    Caminho com a perplexidade de uma vida que se sabe impermanente, mas se sente permanente. Sabemos inverno sentindo primavera. Por quê?

    Muito bom, Jorge. Só cabem mesmo perguntas.

    Grande abraço.

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  11. Jorge belissimo...

    Creio q sempre deixamos marca, boas ou ruins, mas as lembranças de de que somos é isso - marcas

    um grande beijo

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  12. AVOGI, neste mundo nosso cada vez as coisas são menos nítidas e definitivas, pelo que a imagem se sobrepõe à referência. além do mais, é nas imagens que conseguimos desmultiplicar o que caleidoscopicamente vai ardendo dentro de nós...
    um beijo e obrigado pela visita!

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  13. é afinal o que somos, querida amiga andy: eternos viajantes... de difententes viagens... dentro e fora do corpo... mesmo que depois da sua primavera...
    um beijo!

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  14. há dias falava em cadeia aberta com elos de pele e sangue destemperado (jamais de aço temperado), lá no blogue do roberto. é isso mesmo que somos: uma espiral aberta e alargada onde as sinergias que nos aproximam são mais que infinitas. a poesia? tão-somente a pedra-angular de todo o processo!
    um beijo, tânia!

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  15. Ah, mas de algumas pessoas há algo que fica para todo sempre, amizade!
    Hasta siempre!
    Bejos

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  16. Jorge, a pergunta que fazes também podia ser minha, o que fica das pessoas? o que resta de tudo? Em tempos dizias que fica guardado para todo o sempre, num baú, e nós continuamos pelos nossos caminhos.

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  17. Mais uma vez a excelência.

    Andamos permanentemente enredados na teia do tempo e da palavra com que o habitamos. Vivemos (n)o tempo e nele permaneceremos enquanto a memória de nós se alimentar. É esse, creio, o sentido da primavera: iluminar a memória com a luz perfumada da borboleta e do arco-íris, ambos belos, ambos etéreos, ambos efémeros. Como o tempo. Como o sonho.

    Abraço, sempre.

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  18. Bonitas as imagens que você faz saltarem aos olhos, Jorge. que possamos renascer sempre, botar e florescer além-de.

    Beijoca

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  19. querida andrea, um texto para ti jamais permanece fechado. tu constróis textos sobre textos, como se escrever e poetar fossem diálogos em permanente escalada intelectual e emocional... e não são mesmo?
    gostei especialmente da frase com que fechas a citação escolhida: "mas não busques apressar sua viagem". essa é, tantas vezes, não a tarefa mais difícil, mas a verdadeira tarefa...
    um beijinho, poeta amiga!

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  20. cid@, é sempre tão bom sentir o carinho que brota de todas as palavras que aqui vais depositando... e se não é verdade que a vida é feita de esperas, pausas, inflexões, na crença absoluta de que o que nem sempre os olhos alcançam está ali, por detrás do desejo e da vontade, também eles à espera... de serem agarrados. porfiemos, pois...
    um beijinho, doce amiga!

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  21. no teu comentário, a síntese genológica deste blogue: "palavras marejadas de soluços e também lampejos de alegria". as eternas luzes e sombras, amigo assis... nas imagens, aquém e além delas...
    um abraço!

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  22. não sei, também, sara, não sei mesmo... se tivesse certezas não escreveria poesia; seria padre...
    a relativização pelo ser é a única forma de garantir a sua evolução e rejeitar a estagnação. agora que isso tem custos... ainda assim, espero que na relação com os benefícios, valha a pena. e essa é talvez a única certeza que tenho: a de que vale mesmo a pena.
    um beijo!

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  23. lara, fico profundamente contente por teres gostado. um beijinho!

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  24. duas questões que deixas implícitas no teu comentário, amigo marcantónio: em tudo o que sobeja, as sobras maiores são o que sobra de nós... ou seremos nós o que sobra dos outros? sei lá... seguramente sobrará o fim, mesmo que os solstícios e os equinócios tropecem nos meridianos e espalhem o calor e o frio nas regiões erradas... nunca tive bússola, também, por que razão me hei-de agora, preocupar?...
    um abraço imenso!

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  25. quero acreditar nisso, sim, thabata: nos percursos existenciais, guardamos e deixamos marcas... mesmo que algumas bebam mercurocromo e comam algodão embebido em água oxigenada... ai, a pele é um órgão tão frágil... quase tanto quanto o coração...
    um beijinho!

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  26. fica sim, laurita. fica muito de algumas pessoas, para todo o sempre (aquele que veio e o que ainda há-de vir).
    um beijo!

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  27. ah, e a propósito, se não ficasse, seríamos apenas figuras de papel bailando para o lado que sopra o vento... o que nos torna diferentes e únicos aos olhos do outro é justamente essa capacidade de guardar, acarinhar e trazer permanentemente no peito o seu sorriso... mesmo que na ausência... mesmo que nas memórias passadas... e futuras...
    um beijinho, amiga laura!
    p.s. ah, e viva o facebook! :-)

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  28. jad, palavras para quê? li e reli o teu comentário apenas para sentir como no que escreves é possível perceber esse "iluminar da memória com a luz perfumada da borboleta e do arco-íris". olha, e acredita que a sua efemeridade é caminho para a nossa fatal imortalidade... (com e sem a palavra).
    um abraço!

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  29. sylvia, é essa permanente primavera, de renovação de brotos e gravetos emocionais, que torna a demanda, mais que justificada, absolutamente imprescindível. mesmo que, por vezes, tenhamos de nos cruzar com as demais estações... a verdade é que só o conhecimento delas torna a primavera tão indispensável, verdade?
    obrigado pelo teu carinho.
    um abraço!

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  30. ah, jorgíssimo,...
    a primavera do corpo e suas flores que, às vezes, cheiram mal.
    o que sobra?
    sobra o abstrato. a lembrança. a visão enganosa e falsa de uma trajetória (vento).
    todo o resto é matéria.
    sem poesia,
    não cremados, viramos pasto de vermes.

    belo poema, o seu.

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  31. sabes uma das coisas que mais me preocupam, amigo brasileiro-norte-americano? é perder a capacidade de cheirar... o corpo e os seus matizes, na primavera ou no inverno, mesmo que cheirando a tempos que não deixamos retornar, mesmo que à revelia do coração e do desejo... é que me custa tanto conceber a existência se apenas baseada naquilo que, reconhecidamente, é essencial e etério (a lembrança, a memória, a impressão - mesmo que apócrifa - de uma trajectória...).
    pior que "virar o pasto dos vermes" é acordarmos com baba na boca e rastejarmos pelo quarto, fugindo do chinelo...
    um abracílimo!

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  32. O ritmo das sobras embalam as nódoas, em qualquer estação.
    (Que dance a primavera dos dentes...)

    Beijos, Jorgíssimo!

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  33. o desatino das nódoas no desalinho das dobras é o berço mínimo das sobras...
    (soltem o choro sobre o romper virgem dos dentes, lá onde a primavera é eterna menina...)
    beijos, cris(tal)!

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  34. Seu texto esta em sintonia perfeita com a imagem.

    bjs
    Insana

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  35. Na abstração
    alumbramento e tormento
    ...

    Assaz sina!

    Forte e belo poema, caro Jorge! Imagem sedutora.

    Beijos

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  36. as fotografias do josé figueira são, elas mesmas, textos valiosíssimos e poesia do mais fino quilate, insana.
    um beijinho!

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  37. lou, as tuas apreciações são sempre tão sagazes e certeiras. como em três palavras, apenas, consegues a síntese primordial...
    um beijinho!

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  38. Às vezes também eu me pergunto o que fica das pessoas. A resposta não deve ser muito evidente porque ainda não a descobri. Na verdade não perdi alguém que fizesse tanto o meu peito chorar o vazio.

    Lindíssimo Jorge. =)

    Beijos!

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  39. e por sobrar é que escrevemos sobre isso, verdade, vanessa? aqueles que se cruzam connosco jamais serão inócuos... mesmo que no inv/ferno do corpo...
    um beijo!

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  40. obrigado pelas palavras, kenia.
    acabo de passar no teu blogue, espaço de bom gosto e palavras que movem até corações de pedra...
    um abraço!

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