sábado, 26 de junho de 2010

ofício




bebemos o sangue
no ofício de violinos
onde o pão e o vinho
são todo o livro
que balouça nas árvores do estio.

nas páginas rasas
chamámos deus às mãos
e inferno às águas
que incineraram as barcas
no derradeiro voo da mariposa.

nesta estação
o altar estremeceu
o culto emudeceu
e deus voltou-nos as costas
para se deitar a dormir.

por fim sós, nós, a voz.
mas, e agora?...

44 comentários:

  1. ..." e deus voltou-mos as costas para se deitar a dormir."

    Amigo Jorge

    Maravilhoso este teu Ofício!
    Leio, leio e releio, sendo ainda pouco...
    Quão extraordinária é tua capacidade de criação!
    Que deus não permaneça por muito tempo adormecido... Que acorde para proteger, sempre, para abençoar sempre, esta tua lavra...
    Porque preciamos muito dela!
    Enorme abraço, querido!

    ResponderEliminar
  2. Pois é amigo, quantas vezes na vida eu também me perguntei: e agora?...

    E a resposta (aprendemos à duras penas), está sempre dentro de nós.

    Um lindo ofício!

    Hoje, no meu mosaicos (por mera coincidência), também tenho pão e vinho...

    Brindemos então!...:)

    Bjs da Cid@

    ResponderEliminar
  3. Belíssimo... a princípio me pareceu uma daquelas canções que as bruxas poderiam entoar dançando em volta de uma fogueira. Gostei demais.

    Minha linha favorita também será "deus voltou-nos as costas para se deitar a dormir".

    Beijo carinhoso.

    ResponderEliminar
  4. querida amiga zélia, nem sei bem se deus tem costas e, tendo-as, se seria capaz de no-las voltar. seria contraditar todos os princípios lógicos que nos fizeram acreditar na sua existência. no fundo, quero acreditar que as costas são as minhas e que ao seu chamamento me hei-de voltar, de novo...
    um abraço!

    ResponderEliminar
  5. e agora, cid@? estarmos sós, nós, e com voz não seria, em si mesmo, a resposta à pergunta "e agora?". por que raramente chega?... porquê?... (quem sabe ainda não desci tão fundo de mim quanto seria necessário).
    um beijinho!

    ResponderEliminar
  6. o fogo e outros leitmotifs estão lá... apenas falta a poção capaz de dar respostas... ou de ajudar a saber colocar as questões certas...
    um abraço, kenia!

    ResponderEliminar
  7. E agora escreves poesia...e que maravilha a poesia que te sangra, querido Jorge.

    Olha, cuida que não te extinga, nunca, a voz, mesmo quando estancares o sangue, mesmo que de costas para si. E os porquês, as respostas, são sempre menos importantes do que as perguntas que nos abrem as portas.

    um beijinho, poeta!!

    ResponderEliminar
  8. se tens razão, andreia... as perguntas são sempre mais valiosas que as respostas. mas as perguntas certas... aquelas que nem sempre sabemos colocar...
    um beijinho, poeta querida!
    (enquanto houver leitores que sintam os textos como seus, valerá sempre a pena escrever...)

    ResponderEliminar
  9. Inverno, estação de hibernar. Deus mesmo nos dá as costas, estamos sós.

    Captas imagens poética tão impressionantes, Jorge. Tua poesia é dramática, forte.

    bjs.

    ResponderEliminar
  10. curioso que tenhas usado o verbo "hibernar". estive indeciso entre esse e "dormir", mas acabei por este último, por entender que há uma acção imprevista no estatuto de deus, fosse por cansaço da sua acção, fosse por saturação da minha. é como se não estivéssemos à espera do sono de deus, que deus nos voltasse as costas para dormir. obrigado por manteres vivo o texto nas tuas palavras; obrigado pelo que sentes quando lês os meus textos. julgo que essas reacções acabam por atingir um grupo alargado aqui no universo dos blogues quando nos lemos uns aos outros. e como isso é bom!!!
    um beijinho, ana!

    ResponderEliminar
  11. ola é só para te desejar um bom fim de semana estou de volta
    o transtorno acabou beijos

    ResponderEliminar
  12. O ter tudo e o perder... E, agora? Sem voz porque a vida deixou de me querer falar...

    bjinhos

    ResponderEliminar
  13. obrigado, anita! é bom saber-te de volta e, sobretudo, bem!
    um beijo e um óptimo fim-de-semana!

    ResponderEliminar
  14. sombra, as noções de tudo e nada, ganhar e perder são cada vez mais relativas e imponderáveis... como aquele deus que sempre acreditámos que ficaria junto a nós mas que, de repente, adormeceu, cansado sei lá de quê (julgo que nem ele mesmo saberá... de si, de mim, de nós?...).
    jordi villalonga diz: "nada nos pertence; tudo é de tudo o que passa" (citação não rigorosa; não sei onde tenho o livro que, apesar de só me ter custado 1,5€ é já uma preciosidade na minha biblioteca). tudo... até a voz e todos os pronomes pessoais.
    um beijinho! é bom saber-te por aqui, de vez em quando!

    ResponderEliminar
  15. Então agora,
    que aprendamos a ser independentes enquanto ele dorme. É A nossa hora! .

    ResponderEliminar
  16. Caro Jorge,
    Saudações fraternas do Brasil.
    Descobri este sítio por acaso e já estou me sentindo em casa! Belíssimos poemas, retrato de alguém impregnado de sensibilidades.
    Eu já estou seguindo seu blog e voltarei muitas outras vezes.
    Convido-a a conhecer o meu blog, dedicado à música, mas onde às vezes também publico alguns poemas meus. O nome é JAZZ + BOSSA + BARATOS OUTROS e o endereço é:

    www.ericocordeiro.blogspot.com

    ResponderEliminar
  17. é isso mesmo, sara. não a desperdicemos.
    um beijo!

    ResponderEliminar
  18. érico, sê bem-vindo!
    é claro que passo lá no teu blogue. adoro música e, sobretudo, gente simpática :-)
    um abraço!

    ResponderEliminar
  19. e quem saberá? gestamos enigmas e dúvidas desde a gênese, alías dessa matéria somos feitos,

    abração poeta

    ResponderEliminar
  20. Jorge,
    É mesmo difícil esse ofício fictício de versejar. Mas há um poeta em ti que Deus te disse, amigo do Minho...

    Abraço agora e sempre,
    Pedro Ramúcio.

    ResponderEliminar
  21. o tempo a que nos sujeitamos é, ele mesmo, um enigma. à medida que corre a nosso lado, maiores as dúvidas e mais escassas as respostas. talvez apenas a poesia saiba qual o caminho...
    um abraço, poeta assis!

    ResponderEliminar
  22. obrigado, pedro! o poeta de que falas é aquele que vive nas palavras e nos afectos e nisso nenhum é mais poeta que tu!
    um abraço imenso!

    ResponderEliminar
  23. Li num efeito hipnótico, e fiquei com aquela sensação de arrepio que parece haver alguém soprando-nos a nuca.

    Beijos.

    ResponderEliminar
  24. agradeço o teu friozinho na pele, lara.
    um beijo!

    ResponderEliminar
  25. Jorge,

    Sim, chegamos ao fundo Do silêncio...e o qua fazer com essa solidão..?
    Belo....Oficio....Parabéns!

    Grande beijo, grata pela visita...Boa Semana!

    Reggina Moon

    *Obrigada pela informação, bom saber...

    ResponderEliminar
  26. infelizmente, estamos quase sempre mais perto do fundo do silêncio do que à superfície do canto. uma amiga muito querida, a laura, relembra-me a toda a hora que mesmo quando se sobe um degrau se está sempre mais perto do fundo do que da superfície...
    p.s. no teu blogue encaixava bem um poema da obra de david mourão ferreira intitulada "música de cama". belíssima e altamente inspiradora.
    um beijo, reggina!

    ResponderEliminar
  27. O mistério, o sagrado e os elementos.
    Um texto intrigante e inspirador.

    beijo.

    ResponderEliminar
  28. o mistério, o sagrado e os elementos: a tríade que, em convergência triangular, elege o homem como sua mola vital.
    fico feliz por teres gostado e por te ter, de novo, por aqui, mai.
    um beijinho!

    ResponderEliminar
  29. Essência luz alma
    profundo o seu pensar seu oficio..

    parabens.

    bjs
    Insana

    ResponderEliminar
  30. obrigado, insana! feliz por te ter recebido nestas viagens com luz e sombra!
    um beijo!

    ResponderEliminar
  31. profundamente contente por teres gostado, grafite.
    um beijo!

    ResponderEliminar
  32. "Nesta vida morrer não é difícil.
    O difícil é a vida e seu ofício" (Maiakóvski)

    Belo escrito meu caro...aliás como sempre

    abraço

    ResponderEliminar
  33. jorgíssimo,
    ando meio luscofusco... mas ja to pensando em melhorar... perdoe-me a ausência.
    passa la no marcantonio, ele te construiu uma prenda.

    e deu brasil hoje, né?
    amanhã sou portugal desde criancinha...rs

    abração, poeta do minho.

    seu amigo,
    r.

    ResponderEliminar
  34. e lá vamos nós, com as mãos nuas, tacteando os seus trilhos... umas vezes, com suor, outras com a pele nívea, outras ainda com sangue ou carvão e sujidade... mas, ainda assim, e sempre, a vida.
    um abraço, juan!

    ResponderEliminar
  35. acabo de passar no marcantónio e fiquei sem reacção, amigão. putz (como vocês dizem)! homem do caraças, aquele, hein? :-). nem sei bem como replicar àquelas arrepiante homenagem (de todo imerecida, reconheça-se).
    ontem vi o teu/nosso brasil; ah, grande ramires! hoje temos o meu/nosso portugal. a ver se no final nos espera igual sorte. não sei se o emparelhamento o possibilita, mas diz lá se não era uma beleza a final luso-brasileira? e nós, de super bock e bhrama na mão, lado a lado, hihihhi.
    um abraço, robertílimo e sê sempre bem regressado!

    ResponderEliminar
  36. Boa tarde, Jorge.

    O teu poema é aquilo que um poema deve ser: a voz humana em busca da sua razão de ser no encontro com o silêncio primordial donde tudo brota e Deus mora. Felizmente há poetas e filósofos e músicos e pensadores para nos perturbarem o sono e nos despertarem como o moscardo socrático em busca do nós mesmos. E agora? Agora temos a palavra que dizemos na voz que temos. E assim nos fazemos.

    A este propósito mando-te este pequeno excerto de um texto que fiz há algum tempo sobre educação. É um pequeno contributo para a discussão à volta da voz e da fala como a identidade do humano:

    "Heidegger dizia que "o homem é aquele que fala” e que “a esfera inteira da presença está presente no dizer”; Gadamer que “não há nada que não seja acessível ao ouvir”; Wittgenstein que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”; Torga que “somos a voz que temos”; Pessoa que “a minha pátria é a minha língua”. Filósofos, linguistas, hermeneutas, neurobiólogos, pensadores de múltiplas áreas acentuam este carácter essencial do nosso modo humano de ser: tudo o que somos, pensamos, dizemos e fazemos é na e pela linguagem que se constrói".

    Abraço, poeta.

    ResponderEliminar
  37. caro amigo jad, pois se a linguagem (que não apenas a verbal) não é a nossa pele, aquela sobre a qual os nossos mundos se constroem e desabam.
    num registo mais coloquial (que não menos filosófico), temos a tese de que a linguagem é uma fonte de mal-entendidos (saint exupéry), que pode conduzir a um mero desentendimento ou, no limite, à morte (como sophia magistralmente o ilustra na estória de pero dias, no seu "cavaleiro da dinamarca").
    depois, ainda há o eugénio de andrade que nos fala das palavras como cristal e... punhal...
    e tantos outros exemplos... (já nem me atrevo a chamar o herculano de carvalho ou o chomsky...).
    de tudo, importa perceber que é pela linguagem que o melhor e o pior de nós mesmos emerge. dominar a linguagem e os seus (des)mandos é procurar a nossa própria essência.
    um abraço e um agradecimento sincero pelos teus contributos sempre tão valiosos!

    ResponderEliminar
  38. Assim me furta a fala, enquanto a voz não se cala a sós.

    Brindo-te!

    ResponderEliminar
  39. tantas são as vezes e ainda mais as vozes que o silêncio estala por dentro... acabam os teus olhos acabam por agarrar o que a minha mão oferece: gotículas esparsas de chuva miudinha neste estio a arder na bandeira que desfralfámos na janela do poema...
    um beijinho, cris!

    ResponderEliminar
  40. E agora? quantos de nós já fez essa pergunta em vários momentos da vida. e nunca a deixaremos de fazer porque todos os dias vida nos reserva surpresas que nos faz meditar na pergunta: e agora?

    ResponderEliminar
  41. Muito bem, Jorge.
    Apreço redobrado pelo que escreves.
    Mantendo o tom coloquial (como dizes) são muitas as formas de dizer o que somos e pensamos. É verdade. O corpo fala mesmo quando está calado. É verdade também. Mas o que de fato nos distingue de todos os outros seres é a fala na e pela palavra. É aqui que todo o esforço tem sido feito ao longo do nosso caminhar humano para aceder ao mais fundo de nós, para responder à pergunta da esfinge: "O que é o homem?". Claro que paralelamente permaneceu sempre aquilo que está aquém e além da linguagem, melhor, da palavra. Esta inefável impossibilidade constitui o campo em que se semeiam todas as tentativas de dizer aquilo que (ainda) não é acessível ao dizer. A poesia (mais do que a filosofia, creio) será a voz que melhor traz ao dizer o som primordial que se confunde com o silêncio. Por isso, os "mestres" não escrevem e falam por símbolos e metáforas, portadores de sentido e de silêncio. Por isso, também os poetas o fazem. Ainda bem. Ficamos mais perto de nós na palavra que melhor diz o silêncio.

    Abraço.

    ResponderEliminar
  42. Que comentário disparatado o meu :)!!
    Cá vai outro:
    Viva o FACEBOOK!!!
    :D!
    ***

    ResponderEliminar