sexta-feira, 11 de junho de 2010

a casa

dentro,
suspende o seu movimento
privado da nudez
que embriagou o umbigo do medo.
está fria
devoluta
e até as metáforas
encardem na sujidade do passado.

fora,
pássaros de veludo
e cães embalsamados
afogam a ilusão
de um deus presente nos versos.

a meio caminho
tu e eu
perdidos no endereço e na chave
acabámos por envelhecer fora do tempo
(e este temporal que não cessa…).

38 comentários:

  1. "perdidos no endereço e na chave"

    Lindo poema! Vejo uma casa que guarda mistérios, e lá fora o horizonte não parece ser tão mais claro, nem menos desafiador. Além de tudo, ainda há o meio do caminho.

    Obrigada pelos comentários, o último me fez sorrir =).

    Beijos.

    ResponderEliminar
  2. Hoje, escrevi sobre o que nos abocanha e alonga... - Seu poema é um desses casos. ;)

    Beijos

    ResponderEliminar
  3. Os números também não são o meu forte, amigo.
    Então, você vai ter que voltar lá no mosaicos prá ver que não tem nada de número naquele desafio...:)

    Quanto ao seu poema, Jorge, achei belíssimo.
    Parece mesmo que estamos sempre a "meio caminho" de tudo, e é por isso que às vezes nos perdemos.
    Afinal, o que é o tempo???
    Como é na verdade a passagem do tempo???
    Acho, que nós passamos por ele, mas ele na verdade, está sempre fixo, para todo o sempre.
    Já parei de me preocupar com ele (assim, quem sabe, ele me esquece...rs)

    Tenha um excelente final de semana, meu amigo.
    E que este temporal cesse finalmente...;)

    Cid@

    ResponderEliminar
  4. e esse temporal que não cessa, poeta?
    envelhecemos com a chuva, a casa às escuras... envelhecemos apesar do poema bonito e dos dias de sol que ainda hão de vir.

    abraço deste que tanto te admira,
    o
    roberto.

    ResponderEliminar
  5. envelhecer fora do tempo,
    fico criando a imagem dentro de um vácuo, e é como se houvesse um hiato entre as sensações, um gesto paralisado, e uma chuva que sempre se renova,

    abração

    ResponderEliminar
  6. Jorge,
    "Metáforas encardem na sujidade do passado."
    Gosto das tuas metáforas, oras.

    Abraço metafísico,
    Pedro Ramúcio.

    ResponderEliminar
  7. Que beleza isso! O interior, o exterior e entre eles uma outra face onde prossegue o temporal. Envelhecer fora do tempo? Sina da maioridade.
    Eu diria, Jorge, que você é um tradutor de atmosferas densas, que se pretendem refratárias às palavras, mas que acabam por se render.

    Abraço!

    ResponderEliminar
  8. Essas casas que nos habitam e não que habitamos. Havemos de tocá-las, reconhecê-las, quem sabe, redimi-las. A música é especial, abre-nos os poros da alma para a leitura.

    Um beijo..

    ResponderEliminar
  9. sem dúvida, vanessa: a casa somos nós. por isso tem interior, exterior e trilho de comunicação entre ambos os espaços. apenas falta o reconhecimento do endereço e ter a chave... torna-se inútil, assim...
    um beijinho!

    ResponderEliminar
  10. estive lá, li e confirmo, lou. nas pulgas do concreto que abocanham e alongam bem para além da pele. eis a única certeza: nem sempre estamos completos nem somos só metades (inteiros ou desertos, no teu dizer); nem sempre somos a casa nem só o caminho. feliz ou infelizmente (sei lá...).
    um beijo, lou!

    ResponderEliminar
  11. olá, cais de poeta! :-)
    não há casa nenhuma que não guarde segredos, porque ora está desabitada (e nada mais misterioso que o vazio...), ora acolhe o maior mistério da existência: o ser humano. tantas vezes é no caminho que estes são desvendados (mesmo que na ausência da chave e da morada...).
    um beijinho, lara!

    ResponderEliminar
  12. tens razão, cid@: talvez o tempo seja uma montanha estática e nós a caravana que a atravessa... pelo menos na poesia podemos iludi-lo...
    um abraço!

    ResponderEliminar
  13. entre a chuva e os dias de sol, entre a casa às escuras e o poema, uma só certeza: a de que há caminho e pernas para iluminar!
    as tuas palavras são sempre tónicos de vida e luz, querido amigo roberto!
    um abraço desde braga (onde o temporal já deu tréguas e o sol espreita, tímido, por detrás do bom jesus).

    ResponderEliminar
  14. fora do tempo... lá onde tudo se torna possível e desejável, verdade assis?
    um abraço, amigo!

    ResponderEliminar
  15. e eu da tua presença (sobre a tua poesia nem vale a pena falar; grande, como tu, pedro!).
    um abraço (meta)físico!

    ResponderEliminar
  16. tudo muda, aryane... aqui e aí, agora e fora do tempo...
    um abraço!

    ResponderEliminar
  17. marcantónio, as atmosferas densas são cabos eléctricos que mergulham nas águas que lavam o ser... esta é a epilepsia que nos fita, toca, agarra, contorce e apenas não destrói porque a poesia vive para lá desta trincheira. um abraço, poeta!

    ResponderEliminar
  18. creio bem teres tocado na chave do texto, ana: a inversão das lógicas que atinge o seu paroxismo nesta casa que perde o seu sentido genesíaco deixando de ser habitada e passando a habitar. habita-nos, mesmo que apenas desejemos o céu como tecto e o sol como luz...
    um beijinho!
    ah, esta música... stuart staples... tindersticks... são, para mim, bálsamo único!

    ResponderEliminar
  19. "...acabámos por envelhecer fora do tempo"

    palavras tecidas a fio de veludo... como sempre belas, amigo!
    A música não conhecia, adorei, e as imagens são lindas.
    Beijinho!

    ResponderEliminar
  20. que bom ter-te por aqui, andy! este blogue é teu, também, e sei que o sentes assim.
    um beijinho!

    ResponderEliminar
  21. Gosto das metáforas que constróis,
    e o verso final foi de mestre.
    beijinho

    ResponderEliminar
  22. Jorge, fiquei aqui pensando no que te dizer sobre a casa, o envelhecer fora do tempo, o temporal que não cessa...
    essa casa que é nossa e não habitamos, a casa que nos habita...
    como pode ser assim? encontrar um lar que mora dentro de nós e onde não conseguimos morar?
    não entendo. não acho que tenha que entender.
    e esse temporal que assola os sentidos...
    mas há momentos em que ele acalma, e sabemos que o sol ainda está lá...vai sempre estar, e cedo ou tarde, há de fazer céu azul

    teus versos são belos e me tocam como se os tivesses dito olhando para o que me há por dentro

    (estes dias tenho estado deveras cansada, fragilizada, nem sei bem por que motivo...tudo me toca com muito mais intensidade)

    um beijo pra ti, querido amigo poeta!

    ResponderEliminar
  23. olá, em@!
    a metáfora carrega todos os mundos vividos, sentidos, ditos, sugeridos, suspirados, desejados, exorcizados... a minha relação com a metáfora é justamente essa: a de tornar possível o que de outra forma o não seria.
    obrigado pelo carinho das tuas palavras.
    um beijinho!

    ResponderEliminar
  24. querida andrea,
    tantas são as casas que nos habitam sem serem habitadas... é a velha relação conteúdo/continente que, em si mesma, se torna injusta e desequilibrada. por que tem de haver sempre esta relação desproporcionada entre um que faz e outro que se deixa fazer, entre um que vê e outro que é visto, entre um que escreve e o outro que lê, entre um que ama e o outro que se deixa (ou não) amar...
    talvez a casa esteja a rebelar-se contra séculos de uma tradição em que foi habitada sem que nos deixássemos por ela habitar...
    ainda assim, e como bem dizes, quero acreditar que há vida para lá das suas paredes e que entre o lado de dentro e o de fora ainda é possível estendermo-nos na relva ou caminharmos a passos soltos no caminho que se estende entre a montanha e a foz, sem que uma pretenda ser mais valiosa que a outra.
    um beijinho, doce amiga-poeta!

    ResponderEliminar
  25. Dentro, fora, no meio; teus poemas são um prato cheio pro anseios...

    Beijo-te!

    ResponderEliminar
  26. e as tuas palavras, cris, o sorpo que percorre os pulmões, impregnando os poemas de vida.
    um beijo!

    ResponderEliminar
  27. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  28. O que há por dentro... Um mundo, um abismo, uma "casa"... Que nos prende , e nos afasta de todo externo !

    *-*

    ResponderEliminar
  29. e neste balanço de proximidade/afastamento, a casa penetra dentro de nós, alastrando-se nas veias cada vez mais hirtas e rígidas, incapazes de suster o vulcão de pedra que as injecta... o sangue? há muito seco nas paredes...
    um beijinho, sara!

    ResponderEliminar
  30. Jorge, meu querido
    Ontem saí a passeio, empunhando câmera fotográfica. O que mais queria mesmo, era imagens de casas. Fui, então, ao campo, onde proliferam construções antigas. A cada foto, eu fazia uma reflexão acerca da vida já transcorrida ali...
    Casa é um tema fascinante para mim, e você, expert, com pinceladas precisas e harmoniosas, desenha um quadro mais do que instigante neste teu maravilhoso poema...
    Jorge Pimenta, num de seus melhores momentos!!!
    Parabéns, meu especial amigo!
    Beijinhos...

    ResponderEliminar
  31. Ola
    Parabéns pelo seu blog!
    Abcs
    Alexandre Taleb
    Consultor de Imagem/Personal Stylist
    AICI - USA member - association of image consultants international
    Blog: http://ataleb.wordpress.com
    Site: www.alexandretaleb.com.br

    ResponderEliminar
  32. zélia, a tua doçura é sentida por mim de modo sempre muito especial. obrigado, querida amiga e poeta!
    um beijinho enorme!

    p.s. poderei ver algumas dessas fotos? :-)

    ResponderEliminar
  33. obrigado, alexandre! seja bem-vindo!
    um abraço!

    ResponderEliminar
  34. Jorge, nãoi te tinha dito que o album de Tindersticks é espetacular?? :D!!!
    Quanto à casa, coloca-lhe o letreiro VENDE-SE ou então DÁ-SE!!! :D!
    Beijos
    Laura

    ResponderEliminar