sábado, 6 de novembro de 2010

voracidades [por laura alberto & jorge pimenta]

zbigniew reszka

manifesto anti-figurões [e figurinhas]

há-os aos montes os figurões
[já ouviste falar dos figurinhas?]
colam-se na sola dos sapatos, mal-cheirosos
[não sabem andar descalços]
sobem pelas caleiras dos lares
espreitam nas janelas, das casas
[deitam-se no chão
à espera da respiração das rosas]
fervilham em caldeirões gastos
em sangue brando, fedendo.
[ah, druidas do fogo
já nem as rosas sabem que são rosas].

há-os aos montes os figurões
espeto-lhes o garfo, o tridente
deixá-los berrar na noite
[já ouviste falar dos figurinhas?
perderam a coluna vertebral
e passaram a viver em hortos sem luar]

felizmente a morte
escorre sempre pelo tecto.
[e aquece a terra
já com as flores desmentidas].

(laura alberto & jorge Pimenta)


david bowye, the heart's filthy lesson


três escarros

– olha aquele coração que ali vai.
– sabes, passei a odiar esses gajos, caretas previsíveis, sempre com bocejos nas palavras. uma vez tentei agarrar um deles, gritar-lhe para lhe suster o passo. o gajo olhou com desdém e prosseguiu. Não tem noção da grandeza e que só por ela se pode afastar os mortos. filho-da-puta!
– acorda, não estarás a sonhar? espera, não o digas já, acabaste de adormecer. não é o sonho que aparece, são só dentes podres que te sorriem. acorda.
– já acordei. e sabes porquê? porque quanto mais perto do sonho, mais longe da utopia. e eu que sempre acreditei na leveza que escorre da im.possibilidade…

– sou o teu despertador, não te esqueças de lhe dar corda.
– sou a tua corda. de que te serve teres os ponteiros se a máquina não funciona?

– ouvi dizer que há o silêncio, nesse teu cemitério de estátuas.
– o silêncio?... schiu.

(laura alberto & jorge pimenta)


einstürzende neubauten, sabrina

46 comentários:

  1. Nossa, Jorge! Adorei... tristes tempos em que nem as rosas se sabem rosas.

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  2. UAU! Que combinação bombástica! rs Amei os duetos... vcs são perfeitos juntos!

    Beijos aos dois. :)

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  3. mesmo sem se saber rosa, uma rosa será sempre uma rosa. eu espero... :) bom ler vocês. abraços.

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  4. já disse à Laura, isto fez-me bem, quase como uma terapia, um dia tenho de experimentar!
    ...e apanhei umas barrigadas de riso.
    decididamente há coisas que jamais poderão apodrecer na boca, há que libertá-las!
    tenho de fazer o mesmo.

    Beijinhos aos dois
    ah e os videos...

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  5. "Parceria é par, é divisão irmã
    É mais que dois colóquios, incestos ou manhãs
    É mais que dois abraços em pedras esculpidas
    Estranhos confidentes ou feras escondidas"
    Zé Ramalho

    a canção diz tudo


    abraço

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  6. ana,
    há quem espere as rosas; há quem nem delas se recorde. tristes dias, estes, de facto.
    um beijinho com pétalas vivas!

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  7. coleccionadora de silêncios,
    cada parceria com a laura é mais do que escrita; é a amizade a romper a pele e os dedos. a escrita flui para onde a loucura aponta e os rostos, desprendendo sorrisos, disparam contra monstros de nevoeiro e ninfas que anunciam a claridade.
    um beijo!

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  8. nydia,
    "uma rosa será sempre uma rosa", do mesmo modo que as coisas são o que são (quando queremos que o sejam). e quantas são as vezes em que distintos olhares sobre o mesmo objecto originam partos diferentes?... não sei... por vezes as flores outrora anunciadas são desmentidas. reinventem-se as rosas e os seus tratadores.
    um beijinho!

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  9. amiga andy,
    é mesmo isso: terapia, libertação, catarse sobre a esfera que ameaça fartar-se com o pus dos dias e estourar logo após o primeiro grito. daí que tudo soe a apocalíptico, pareça caótico, desorganizado e desestruturado, sobre uma linha quase invisível de ordem, um código imperceptível que respira fundo após a explosão dos contrários. bowie e neubauten, em vídeos que considero do melhor alguma vez feito, dão o toque final.
    um abraço!

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  10. e nós, aqui, a cantá-la em rotação contínua, assis...
    um abraço, poeta!

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  11. magníficos!..
    e os vídeos,perfeitos.
    são voracidades e contestações existentes..
    Gostas de Rammstein?
    beijos.

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  12. ingrid,
    se gosto de rammstein? na fase voraz, como resistir-lhes? (confesso que nas demais também, hehe).
    beijos!

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  13. A beleza da rosa é tão fascinante que, mesmo ela não sabendo que é rosa, será sempre rosa e sempre fascinara alguém.

    Bjossss

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  14. jorge e laura,

    fico daqui, olhos de contemplaçação, vendo-os brincar com as palavras.

    aplaudo, orgulhoso, os amigos que tenho.


    beijao,

    r.

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  15. há lanças que precisam retalhar as visceras

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  16. há sangue que precisa de sangrar, sangue podre

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  17. Vocês me tomaram aqui da sala e me fizerem mergulhar nas palavras. Tudo parou e docemente me rendi. Tenho andado angustiada também com o fazer e executar, muitos remetem estranhamento e recusa, qual é o lugar do ser e do estar?

    Beijinhos para você e para Laura, ficou lindo!

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  18. giomara,
    quantas vezes somos nós, rosas, que nos vemos apenas espinhos ou raiz sem terra?... e, no entanto, continuamos a ser nós, rosas...
    um beijinho sem espinhos!

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  19. querido amigo roberto,
    acaso haverá jogo maior que o de palavras? brincar com os signos, recriar referentes, esconder significados, trocar e renovar significantes, construir e destruir ao som da esfera de tinta que só sabe perder-se no final (da carga, que não do papel). e tu o sabes melhor que ninguém, cronista de apolo, verdade?
    um abraço!

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  20. em síntese, laura:
    há coisas que precisam de ser feitas
    há lanças que precisam de retalhar as vísceras
    há sangue podre para sangrar
    há mortes por morrer
    e enquanto o caos só couber na ordem do poema, convoco os tambores e o seu rufar felino: tum tum tum. haja poesia, pois!
    um abraço!

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  21. Parceria perfeita!
    Princípio e fim: entre os dois, a trilha, por onde caminham os maravilhosos, e oportunos versos...
    Encantei-me com estes escritos!
    Parabéns, meu amigo Jorge!
    Parabéns, Laura!
    Abraços

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  22. Jorge e Laura,
    parabéns pela parceria.
    Pois é....tantos andam adormecidos.
    Cegos. Não conseguem enxergar a beleza
    das rosas.
    De vez em quando, é preciso acordá-los com a
    sutileza da poesia.
    Beijos

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  23. Jorge, meu querido.

    Compartilhar signos e ainda esses, tão vorazes, os tornam luz aos olhos de contemplação.
    Parabéns ao dois!

    Bjs e boa semana, meu poeta

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  24. "e eu que sempre acreditei na leveza que escorre da im.possibilidade…"

    Hmmm. Impossibilidade rende alta literatura. Para além dos livros, rende noites a olhar o teto, nó na garganta, um gosto amargo de: E SE?

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  25. Olá Jorge,
    ótimas parcerias que fazem, e que delas surgem versos cheios de sentidos,
    o tempo, as rosas, os sangues, manifestos, sonhos,...
    Parabéns pra você e pra Laura
    e que venha sempre mais
    abraços

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  26. Se dúvidas houvesse...

    Contudo, nunca estamos sós no silêncio e o sonho, aquela força que nos projecta além do tempo, é o chão em que semeamos as utopias que somos capazes de inventar.

    Abraço

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  27. Parabéns aos dois, muito apreciei!

    Beijos.

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  28. que estranha mania, a dos inquietos, esta: procurar as linhas das mãos nas palavras, como se os carrosséis existenciais girassem (apenas) em torno da escrita... ainda assim, é seguro que os fantasmas, através dela, se afastem, fazendo-nos ganhar tempo. mas... ainda falta tanto caminho para se ganhar o tempo...
    um beijinho com lábios de utopia, lívia!

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  29. zelita,
    são trilhos espontâneos e de pouca preparação, estes. escrever com a laura é justamente isso: exercício não controlado por imperativo de espécie nenhuma. por isso é tão gratificante para mim.
    um beijinho!

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  30. celamar,
    no dia em que as flores regressarem ao solo com a corola voltada para a terra, a utopia sairá vergada à sua maior derrota: deixar de nos guiar. por mim, cá estarei, "no meu posto a lutar" (manuel da fonseca)
    beijinho!

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  31. ira, querida amiga e poeta,
    tocaste na palavra-chave: signo.
    não são apenas palavras; são-no na sua significância, significado, mas, sobretudo, referente (aquele que as justifica e pelo qual todos os escritos sabem morrer).
    um beijinho com ternura!

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  32. vanessa,
    a im.possibilidade é, tão-somente, as duas faces do ser humano. o pior é quando ele as cristaliza num dos rostos, apenas...
    um beijo!

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  33. vais, amiga,
    é verdade. admito que este escrito é assim meio cru, como as sensações que lhe deram a gestação primeira...
    um beijinho!

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  34. jad, amigo,
    ah, a utopia!
    e é justamente esse território umas vezes desenhado nos dedos, outras vezes bem longe dos dedos, que nos tornam vivos antes e após todas as quedas. mesmo que com o corpo exangue e os membros quebrados sobre a flacidez serôdia dos músculos. por dentro, a neve há-de continuar a cobrir os mantos (mitos) existenciais.
    um abraço, poeta-filósofo!

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  35. larinha,
    um obrigado dos dois :)
    dois beijos!

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  36. Adorei Parabéns!!

    boa semana pra vc!!

    se cuida bjo

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  37. " cemitério de estátuas..."
    essa imagem é tão sonora!

    nem pisquei os olhos ao ler...
    bela parceria!

    beijo, estimado.

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  38. Algo que pudesse me concretizar, e foi andando, dei a volta, parei como estátua tentando te decifrar, neste decifrar, foi então que me perdi. Como saber quem era eu? Pois eu finjo tantas coisas para te amar? Já não sei?

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  39. ju,
    obrigado!
    um beijo e uma óptima semana para ti, também!

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  40. cris, amiga e parceira,
    sempre grande na gentileza!
    um abraço!

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  41. michelle,
    os textos nunca ficam órfãos de mãos e olhos que os desejem. é do entrecruzar das linhas (da mãos) com os horizontes (do olhar) que os textos se erguem, estendem os braços e tocam renovadas emoções, em tinta e em fibra, bem para lá do papel que lhes serviu de berço.
    um beijinho!

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  42. Dose dupla em todos os sentidos... do lado de lá e do de cá... Emocionei-me duas vezes...

    Abraço, poeta!

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  43. ana de luz,
    são assim, as rosas; não deixam cair nunca uma só pétala.
    um beijinho de veludo!

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