domingo, 17 de outubro de 2010

odisseia

pavese, falling leaf girl

procuro a casa e os epigramas
que dividem toda a esfera
alimento-me de morangos e neve
que crescem na ficção das coisas
até porque o diamante duro
nem sempre rasga a superfície do ser.

o caminho?
a certeza
que nem todos os dias sabem apagar
talvez por isso as estrelas cadentes
ainda batam à tua porta.

procuro a casa e os criptogramas
que distinguem todo o emblema
alimento-me de mascavo e pele
que cravam na fracção das coisas
até porque o destino duro
nem sempre rende a artífice do ser.

o carimbo?
a clareira
quem nem todos os dias sabem afagar
talvez por isso as estrelas carentes
ainda beijem a tua porta.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)



Björk, pagan poetry

58 comentários:

  1. Ah Jorge! Fiquei encantada com a introspecção dos versos lidos, relidos e perdidos. Divaguei ainda mais ao toque suave e instrumental da música e vozes.

    “Um código secreto esculpido
    ...
    É poesia pagã”

    Um beijo!

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  2. só uma frase:
    amo nossas viagens!

    beijo, parceiro de primeira classe.

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  3. As estrelas, não sei; mas sua poesia nos beija, nos deixa a alma repleta de matéria indecifrável, e bela, e terna, e...

    Beijo doce.

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  4. lívia,
    tropecei nesta faixa da bjork acidentalmente no fim-de-semana e confesso que a escutei dezenas de vezes desde então até agora. é, sem dúvida, "uma poesia pagã" que nos toca profundamente.
    um beijo!

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  5. amiga cris,
    cada viagem poética na nau do teu dizer é uma experiência marcante que se repete.
    um beijo, marujo de voz afinada!

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  6. larinha,
    revi, ontem, "o carteiro de pablo neruda" (para aí pela quinta vez :)), uma das obras-primas do cinema contemporâneo. recordo uma réplica de mario ruopollo a propósito da leitura de um poema do amigo neruda, pelo próprio, quando ambos estavam defronte do mar, em conversa amena, sobre a relação do mundo com as metáforas e, por inerência, com a própria poesia; confessava-lhe o espontâneo carteiro: "é estranho. não o que o texto diz, mas o modo como o sinto".
    é justamente aí que reside a verdadeira questão em poesia, verdade? mais do que a mensagem, agarramo-nos aos efeitos que suscita no tecido sensitivo que nos cobre aquilo a que chamamos de corpo.
    um beijinho doce!

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  7. A estrela que beijou a porta deste poema entrou na clareira mais azul e alimentou-se, desafiando o paladar do verso num púrpura tão intenso e sensual que "raga a superfície do ser.
    Não sei de onde cresceu este "diamante", por lapidar, que está para lá/cá desse sabor-poema... talvez o brilho de uma estrela carente avistada na fracção de um afago; talvez o brilho de uma estrela carente refugiada na candura de uma neve fria... que importa, desde que vislumbre a sua luz numa qualquer porta! (e a tua, jorge, continua entreaberta!:))

    Morangos, adoro! A neve, o delírio dos meus sentidos! Por isso é deliciosa esta contrução poética!
    Parabéns dupla poética!

    Beijinhos

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  8. Cris e Jorge: corda e caçamba.
    Café com leite.
    Queijo com goiabada.
    Pão com manteiga.
    Morango com chantili.
    O cravo e a rosa...
    Sigam com esse consórcio vida afora, para nosso gáudio!
    Abraços para os dois queridos!

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  9. Embriagar-se de duas almas
    (o oceano é uma ponte)
    é um deleite.

    Cada palavra
    é o trigo

    (porque bela a pureza
    dos pensamentos) .

    Cris de Souza
    e Jorge Pimenta

    sabem beber vinho
    com as conchas das mãos
    (dentro as palavras) .

    Cris de Souza
    beijo-te, carinhosamente

    Jorge Pimenta
    abraço-te, fortemente.

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  10. Poeta
    Estou chegando e em silêncio ouvi o murmurar de bela poesia.
    desculpe ir entrando assim, mas gostei de ficar.

    Sonhadora

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  11. Essa é uma parceria afinadíssima. Estrelas cadentes que batem e beijam a porta...Não sei, vi uma alma masculina e uma alma feminina versejando com as estrelas. Lindooooooo poema! Muito belo...
    Beijos,

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  12. Realmente, essa é uma dupla imbatível!
    Amo!
    Sabem por que?
    Porque a receita sempre da certo.
    Não tem erro...:)
    Fui lendo, e antes de chegar aos nomes, já sabia (sentia), que havia sido feito pelos dois.
    Estrelas cadentes... carentes... lindo demais!

    Abraço bem grande, para enlaçar a dupla.

    Cid@

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  13. Lindíssimo texto! há dias e palavras que não se apagam...

    Parabéns à dupla!

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  14. jb,
    lendo o teu texto não vejo uma dupla, mas uma tripla de escrita, tal é a maestria da tua leitura que inscreve o texto não na sua explicação, mas refundição. é esta a magia maior da poesia: salta de mão em mão e, camaleonicamente, chama a si os rostos que deixamos viver dentro de cada um de nós. e há neve e fogo... morangos e raízes... luzes e sombras... mas, não será sempre assim?...
    um beijinho!

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  15. zelita,
    a tua grandeza não está nas palavras que escreves; está nas palavras com que bordas o teu coração. como isso se nota tanto na maioridade da tua poesia como na singeleza de um depoimento/comentário.
    um beijo com admiração!

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  16. amigo domingos,
    a poesia não tem pátria, raça, nome ou filiação política; a poesia é o tal oceano que abre pontes entre nós, ora quando escrevemos, ora quando lemos. e nesta dialética de sentires, erguemos as mãos em concha clamando pelo vinho maior que as inebrie: o papiro dos afectos.
    um forte abraço, amigo-poeta!

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  17. olá, sonhadora,
    não pares diante da soleira, não espreites, não batas à porta... entra. esta sebenta de rosas e cardos é de quem a queira tocar.
    sê sempre bem-vinda!
    um beijo!

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  18. tania, querida,
    as estrelas, por mais cadentes ou carentes que sejam, sempre nos rondam a porta. umas vezes ousam entrar; outras vezes limitam-se a olhar, em rasgo lascivo, e a desaparecer com rastos líquidos, tornando a sua peugada quase impossível de garantir. e de novo caem, batem e fogem. pobre daquele que vem à porta, para as receber; é que cai, quebra-se... e permanece...
    um abraço!

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  19. cid@, amig@,
    é curioso como te referes a mim e à cris associando cada uma das mãos a dois leitmotf da composição: as estrelas cadentes e as estrelas carentes. na mouche, doce amiga; uma é da lavra da cris; a outra é da minha. qual é qual? :)
    um beijinho imenso!

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  20. ai o colesterol... ai ai... :)
    um abraço, laurita!

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  21. ana f.,
    "há dias e palavras que não se apagam"... como gostaria de ter escrito isso...
    um beijo e um sorriso!

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  22. Jorge, meu querido poeta, vc sempre me surpreende com belíssimas paisagens!

    A sua poesia inspira sonhos e me presenteia com metáforas belíssimas!

    É uma passeio sinestésico pelos sentimentos que pulsam dentro de mim...

    ADORO ler-te!
    Beijos

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  23. coleccionadora de sonhos,
    e por falares de metáforas:
    há dias, revendo "o carteiro de pablo neruda", recordei uma frase do inocente mário ruopullo quando conversava com mestre pablo: "será o mundo uma metáfora das coisas?". neruda não foi capaz de lhe responder... tão mais fácil se fosse, verdade?
    um beijinho e um agradecimento sincero pelas tuas palavras-carinho!

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  24. Diálogo poético com peito aberto, espalha poesia (e levo comigo).

    parceria encantadora.

    abraços

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  25. mai,
    a poesia a duas vozes ganha eco nas demais que aqui pousam, elevando os textos a "poliálogos" permanentes e de sentidos e sensações renovados.
    um abraço!

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  26. Jorge, você me perguntou qual é qual, e eu vou tentar responder no acerto, okey? =)

    Acho que as estrelas cadentes são suas, e as carentes são da Cris.
    Não me pergunte por que acho isso, pois não saberia explicar... Eu acho, e pronto!...hehehe

    Acertei??? ;P

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  27. Nossa, vocês tem muita sintonia!
    Harmonizam as palavras,
    os sentimentos
    na poesia.
    E é sempre com alegria
    que eu leio vocês.
    Com carinho
    Fátima

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  28. Adorei completamente este vosso duo de palavras.
    entre morangos e neves, estrelas cadentes e carentes, vi a meus olhos passar tanto que em mim, também sinto.

    Obg pela beleza.
    Jorge, e a ilustração...um encanto!

    Beijinho aos dois

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  29. cid@,
    isso não é pontaria afinada; é proficiência leitora. na mouche :)
    um beijinho!

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  30. fátima,
    e o mais curioso é que as coisas com a cris surgem com grande espontaneidade. há uma troca de rascunhos e raramente afinações. quero crer que o grande aferidor seja mesmo o oceano que leva e traz os garatujos da sebenta :)
    um beijinho e grato pela simpatia das palavras!

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  31. andy, amiga,
    só quem tem morangos na voz e neve nos dedos consegue tocá-los sob a máscara das palavras. tu, nisso, és modelar!
    um beijinho!

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  32. Bom dia, Jorge e Cris

    Que a palavra se faz no confronto de modos diferentes de pensar e sentir é uma evidência também na vossa parceria, no vosso poetar a dois olhares que se encontram num horizonte comum que nós frequentamos também espreitando as estrelas cadentes afagando nossas moradas carentes de sentido e de afecto.

    Abraço apara ambos

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  33. amigo jad,
    que melhor diluidor da diferença do que a poesia? ela não escolhe gostos, preferências, afinidades ou tendências; ela simplesmente é. como nós, afinal (embora para o caso humano retirasse o advérbio de modo, que atrapalha e muito). :)
    um abraço!

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  34. Jorge, meu doce poeta amigo,

    Essa dupla rasga, sim, a superfície do ser e adentra.

    Sinto-me estrela cadente/carente a beijar-lhes os versos que habitam nessa casa.

    Bravo!
    Bjs, de brilho intenso

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  35. jorgíssimo,
    acho muito interessante o experimentalismo da partilha e tento, em vão, descobrir quem é quem, escondido detrás de cada palavra.

    é uma delícia retornar ao seu quintal... e ver que tudo continua lindo.

    deixo um abraço dos meus.

    r.

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  36. olívia,
    grato pela presença e especiamente satisfeito por teres gostado.
    um abraço!

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  37. Teu espaço me cala...

    Abraço, poeta!

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  38. ira, amiga,
    por mais que a casa se encontre perdida por entre mapas com tojo e musgo, a verdade é que ela existe e a demanda por si é a demanda por cada um de nós. cuidado com as estrelas cadentes/carentes que pré-anunciam a sua rota; tantas vezes o belo ilude e engana... mesmo que ulisses, tenhamos, pelo menos, um ouvido protegido com cera. o outro? que seja até rasgar.
    um beijinho!

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  39. querido amigo roberto,
    nem tudo permanece igual; com a tua chegada, até a árvore mais indolente se agita só de escutar o nome do vento. É um gosto ter-te por cá.
    um abraço!
    a propósito, desejo que o reencontro com valadares, as suas gentes e as nossas gentes tenha sido um pouco mais que memorável!

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  40. ana luz,
    acabo de passar no teu espaço, também. como tu, sou almocreve da luz mas peregrino das sombras, algures num limbo que aponta a viagem como porto em si mesma.
    tocou-me especialmente aquilo que escreveste no último post. genesíaco, no mínimo; e a felicidade ali, a erguer-se por entre ilusões, sentimentos e lágrimas (à esquina da maçã).
    um beijo!

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  41. A carencia apaga se...ao ler as tuas palavras...
    Beijo d'anjo

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  42. acerca de estrelas cadentes e carentes que tu, sonho, aqui recuperas:
    a carência pode apagar-se, mas permanece... a queda...
    um beijinho e um sorriso!

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  43. Olá, Poeta!

    Vim deixar-lhe um abraço, pelo seu dia...
    Hoje é o Dia Nacional do Poeta! (Se isso vale só no Brasil, não importa! rs)

    Deixo o meu carinho e admiração pelo seu belíssimo poetar que ressoa do lado de cá do Atlântico.

    Beijos, querido!

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  44. Lindo... Quanto mais carentes são as estrelas, mais brilho possuem.

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  45. olá, almocreve do silêncio,
    que gesto bonito, o teu! em portugal, não estou seguro de que tenhamos um dia para homenagear os poetas, de modo directo; temos, sim, para a poesia, curiosamente numa data distinta da assinalada no brasil: o 21 de março. senti, ainda assim, o carinho de modo bem vivo. agradeço-to e devolvo-te, ou não fosses tu, também, homenageada neste dia!
    um beijinho com versos nos lábios, poeta!

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  46. janaina,
    absolutamente de acordo contigo: quanto mais carentes, as estrelas, mais brilho possuem; quanto mais cadentes... provavelmente, mais sombrias e frias...
    um abraço!

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  47. Oi, Jorge!

    Obrigada, querido! Fico feliz com as suas palavras!

    Eu gostaria de fazer uma retificação ao meu comentário a este poema... (um tanto envergonhada aqui... rs)

    Acredita que eu não percebi que se tratava de um dueto seu e da Cris? Afff! Perdoem-me! Cris, vc principalmente! Perdão, Flor!

    É que o poema de vcs está tão unificado... vcs são tão integrados, que eu sequer percebi onde começa um e termina o outro! rs

    Por isso, ao comentá-lo, fiz menção apenas a vc Jorge. Peço desculpas e agora sim, dou o meu aplauso em dobro a esses dois lindos poetas que praticamente já são um só na arte de versar!

    Beijos aos dois! :)

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  48. menina dos sonhos,
    não te preocupes. nem a cris nem eu sabemos exactamente onde começa a mão de um e a de outro :)
    um beijinho renovado!

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  49. quanto mais não seja, vanessa, para nos recordar de como são duros os silêncios, as sombras e a ausência :)
    que bom que levas tudo isso contigo um pouco pelos blogues aonde vais.
    um beijo!

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  50. E assim somos capazes de mudar o mundo e transfigurá-lo à luz de estrelas cadentes.
    Belíssimo, Jorge e Cris.

    Beijos.

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  51. em cada gesto, em cada passo, em cada movimento, em cada decisão, em cada sorriso, em cada lágrima, o mundo muda: envelhece, conquista, perde, cai, levanta-se... mas, entre o céu e o inferno, reafirma a sua condição. como nós, afinal.
    um abraço. dade!

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  52. eterna procura existencial!
    um beijo, celamar!

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  53. a pareceria com a Cris é um campo fértil, mãos que vivificam o verbo em solene (ou insolente) odisséia,


    abraço

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  54. assis,
    o verbo solene... o verso insolente... a tua voz jamais dormente.
    um forte abraço!

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