há momentos em que temos de perder
para sabermos o que não podemos deixar de ganhar.
evan leavitt, packing, up, railroad, suitcase, trees
há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
é este vento, esta corrente de ar
ou todo o oxigénio gasto nas palavras
que idolatram silêncios e angústias?
recordo os corpos exaustos
[não tanto como a culpa que não tínhamos]
e a boca seca do bailado
a que atirávamos as nossas verdades.
e todas as respostas cegas nos pousaram nas mãos
com a violência da lucidez
e a nudez de uvas por fermentar no peito.
contaram-me depois
que guardaste as lágrimas na garganta
e atiraste o coração aos cabos de electricidade
que iluminam os passos e os pés,
mesmo que em estações brancas
a queimar os dedos
e a plagiar imagens à memória.
cicatrizei o tempo
e a cada perdão roubado
contrapunha um verso
cada vez mais sujo,
cada vez mais imperfeito
como os borrões de sangue que ousam escrever
todos os dias e todas as ruas que habitaste.
há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
hoje o dia deitou-se mais cedo
e a morte deu dois passos para diante,
bem ali, diante da cotovia que bebe,
sôfrega,
o suco aquecido das frutas
de toda uma estação.
audiomachine, an unfinished life
<>
ResponderEliminarConcordo em pleno, amigo poeta Jorge.
Uma boa semana para ti.
Nossa, Jorge, que texto mais lindo! É de uma profundidade e de uma familiaridade que assustam.
ResponderEliminar"...hoje o dia deitou-se mais cedo"
Quem já não teve essa sensação de abandono?
Parabéns, gostei muito, muito!
Um beijo.
Jorge, meu querido amigo, grande poeta!
ResponderEliminarQue maravilha vir aqui, sem pressa, e ficar deambulando daqui prali, dali praqui, por entre os seus versos...
Nunca fico saciada de seus poemas.
Quero ler mais uma vez, e outra, e mais outra, sempre com novas descobertas...
E sinto a inquietação, e varre-me os cabelos, o vento, e a garganta me sabe a lágrima, do jeitinho, mesmo, que dizes na poesia!
Dizes que o dia, hoje, deitou-se mais cedo, e, olha, também aqui, o sol já se mostra arredio, às dezesseis horas ...
Ambos, você e eu , em ritmo de despedida: parte o seu verão, vai-se o meu inverno, cruel, sim, neste ano atípico, mas tão familiar...
Bem, só sei que estou aqui, a ler mais uma vez, enquanto garimpo pedras preciosas para com elas tentar a tecitura de meu comentário, que, quem dera, fosse à altura do teu escrito...
Enorme abraço, Jorge!!!
Há um coração inquieto, em busca de uma antiga paixão...
ResponderEliminarBjos achocolatados
há uma inquietação em tuas palavras que cala o silêncio do que se queria ser para, antes, refletir, relembrar o perdido, abrir lentamente as asas e receber novas estações a soprar na porosidade da pele os presentes de novas estações.
ResponderEliminarimpecável poema.
grande abraço, amigo Jorge.
Jorge,
ResponderEliminartão inquietante quanto belo o suco destes versos que de pomares em flores ousei viajar.
arrancaram-me emoções ao som desta música que fez lugar em mim.
Beijo, amigo!
Jorge,
ResponderEliminarA inquietude na proximidade das mudanças de estações,
as cicatrizes que o tempo deixa nas coisas a nossa volta, em nós...
"hoje o dia deitou-se mais cedo
e a morte deu dois passos para diante,"
Certeza que cala nas profundezas, nos aproxima de um tempo sem volta: e bem a nossa frente!
Belo, poeta!
Beijos daqui!
Há uma ansiedade a aquitar-me nessa quase primavera. Há uma mudança de tempos e verbos soltos, há palavras que se distraem num café de saudades acumulando os primeiros suspiros do vento. Há também um emaranhado sentir nas colinas que aquecem as emoções sonoras de todas as palavras inventadas....
ResponderEliminarQue maravilha esse encantar de versos que se arrumam num verão de poesias escritas ao vento!!!
Perfeito!!
Beijos
Palavras inquietas, rememoráveis, fortes, profundas e que busca algo que se foi.
ResponderEliminarDá a idéia de sofrer pelo que se perdeu, uma busca que fica apenas na lembrança. E por estar sempre remexendo o passado o tempo parece gasto em vão...
"...hoje o dia deitou-se mais cedo".
"e a plagiar imagens à memória.
cicatrizei o tempo"
Lembranças, dizem que nos fazem viver novamente, mas elas também roubam-nos o tempo.
Beijokas doces
PS:Tive que fazer outro blog pq o outro desapareceu na blogosfera. É so clicar no meu nome e estará na minha nova casinha. E siga-me pleaseeeee.
Jorgito, meu querido, saudade de você, saudade de caminhar, sempre inquieta, pelas estações da sua poesia, onde me deleito com tanta humanidade. Sua força poética é a verdadeira eletricidade, que eletrocuta minhas sombras e da luz a minha alma incansável.
ResponderEliminarPassei por dias doridos demais, muito, por não poder escrever (minha paixão maior) e também passear pela arte dos amigos, mas o tempo me trouxe de volta e no momento perfeito, onde posso abraçar essa sua obra extraordinária (uma das coisas mais lindas que já li aqui), com todo meu espírito.
Retomo normalmente esse lugar que amo.
Beijo enorme
P.S. a imagem é devoradora : “Cicatrizei o tempo”
"...recordo os corpos exaustos
ResponderEliminar[não tanto como a culpa que não tínhamos]
e a boca seca do bailado
a que atirávamos as nossas verdades..."
Jorginho...isso é arrebatador!!!
Lindo demais o teu poema!
Um beijão, amigo!
Jorge, querido amigo de-além-mar.
ResponderEliminarMaravilhoso, intenso!
Ser testemunha única da partida de um trem,
é sentir a coluna latejando, o peito murcho como se fosse possível sobreviver sem ar,
ou sem as palavras..., como se as reticências fossem um eterno e silencioso grito à procura do nada,que ecoa nos trilhos, ecoa e ecoa..., na certeza de que alguém esteve na estação.
Grande beijo.
PS.: Jorge, a julgar por quantas e tantas Poesias cabem num único trem, a insensatez de uma nova espera é justificada, ao arriscar-se sobre os trilhos, reeditando reticências da partida, na espera, espera...
essa imagem final da cotovia é emblemática, há tanto que nos remete de encontro a esses horizontes descobertos,
ResponderEliminarabraço
é uma pressa de estar-se
ResponderEliminaré uma revelação plena
...
forte abraço,
grande poeta e amigo.
Não fosse o tempo a viabilizar descobertas, não fossem as relações a engendrarem crias dentro da gente, não fossem os poemas a fazer nascer toda semente, não fossem as vias de um coto, de um resto de vela - não fossem as cotovias - ah, uma vida inacabada, um lugar pra recomeçar!
ResponderEliminarEu brindo com a cotovia!
Boa noite, Jorge.A inquietação habita todo o coração que dá espaço para ela em algum momento de ansiedade, dor, esperas, sem mesmo saber o porquê.
ResponderEliminarMuitas vezes tentamos buscar respostas, e não a encontramos, vivendo numa expectativa em véus, e isso aflige ainda mais o nosso ser.
Sua poesia é brilhante, pois você é um poeta nato, que fala à nossa alma.
Um beijo grande, e obrigada pelo seu carinho com o meu blog, e comigo.
Você é responsável pelo crescimento do meu bebê!
Fique com Deus, e tudo de bom!
Roubar perdões deve torná-los ainda mais valiosos, não tanto quanto a perspicácia de cicatrizar o tempo.
ResponderEliminarUm beijo, Jorge querido.
Belíssimo, Jorginho...Salvando-te aqui no meu arquivo pessoal para reler. O tempo tem me impedido de estar mais presente nos blogues, mas seus poemas são pérolas que guardo para ler e reler desde que descobri esse universo!
ResponderEliminarBeijos, querido!
Ah, belíssima essa imagem final!
ResponderEliminarBeijos,
Incrivelmente incandescente!
ResponderEliminar"e a plagiar imagens à memória.
cicatrizei o tempo"
Uma intensidade de arder a alma.
Dentre as coisas inexplicáveis da vida (e que são tantas), existem pinturas tão lindas, que nos lembram um poema. Por outro lado, existem poemas tão lindos, que a gente praticamente consegue enxergar bem além das palavras, e que, como num passe de mágica, se transformam em uma belíssima pintura.
ResponderEliminarE só para que você fique ciente, esse é um deles.
Obrigada pelo poema/pintura :)
Super abraço,
Cid@
Lindíssimo, porém triste...de abandono, de perda. Tudo aqui me encanta, Jorge.
ResponderEliminarBj de Mangualde...de uma pequena concha...azul!
Muito profundo...
ResponderEliminarhá momentos em que temos de perder
para sabermos o que não podemos deixar de ganhar...
Beijo d'anjo
guardar lágrimas pode nos sufocar, e pode nos secar...
ResponderEliminarBom dia, Jorge.Obrigada pelo seu comentário que me fez rir, de tão interessante e bem humorado.
ResponderEliminarHoje vim aqui por outra razão também.
Nós sabemos que a sua foto não aparece em seguidores, somente o seu nome.
Clique novamente em participar que tudo se normaliza, foi o que uma amiga disse, pois com o blog dela está acontecendo a mesma coisa!
Beijo grande!
Querido amigo,
ResponderEliminarMe curvo diante do seu talento na sua arte da escrita.
Sempre que venho aqui fico assim..boquiaberta.
Não tenho o seu talento para comentar seus poemas com metáforas. Gostaria de te-los para fazer um comentário a altura.
Perdas fazem parte da vida..mas nada como o tempo para fazer secarem as cicatrizes e deixarem apenas as boas lembranças do que foi um dia!!
Com carinho...
"hoje o dia deitou-se mais cedo
ResponderEliminare a morte deu dois passos para diante,
bem ali, diante da cotovia que bebe,
sôfrega,
o suco aquecido das frutas
de toda uma estação."
hoje a fúria da manhã arrefeceu-se ante o canto melancólico da sabiá e a tarde principia-se embalada por tua voz acolhedora... belo dia!
beijinho carinhoso, poeta amigo!
"há momentos em que temos de perder
ResponderEliminarpara sabermos o que não podemos deixar de ganhar."
tu não perdes nada, nunca, encanto.
nem que seja apenas porque a tua capacidade de amar é infinita.
eu deixei o meu coração bordado com as franjas desse poema, canção que ferve ao ritmo acelerado do sangue que <> queima todos os caminhos.
"the suitecase", como gente, à espera do resgate. todas as árvores são vivas... quem sabe o dia tem insónia, a noite é imensa e a sombra uma cúmplice.
no fim um hino. emocionou-me, comoveu-me. de uma intensidade que me arrepiou, por dentro.
digamos que o som certo para um caminho redondo...
saudades eu tinha de ti, amigo dos meus encantos.
beijo vermelho, pela vitória das Águias! :)
"Contaram-me depois", disse você. Não presenciou as lágrimas contidas e os sentimentos outros que as acompanharam.
ResponderEliminarA lucidez não reduziu a inquietude de sua alma, no fim da estação... da partida.
Bjs.
Diz-me de que te serve essa garganta de lágrimas se o dia das conclusões d’hoje não são os dias das conlusões d’amanhã?
ResponderEliminarNão terás tu soluções dentro da lucidez desse fermentar meta-físico?
Anda, debruça-te nas imagens dessa memória branca e ordena ás pedras que te alunem os pés, nesse reversu d’um, particípio passado, talvez cada vez mais imperfeito mas que [te] tentam sentir esse suco aquecido das frutas de todas as estações…
Saravá Poeta!!
p-s...faço-te este comentário à luz de An Unfinished Life...
Passando pra desejar um feliz final de semana;
ResponderEliminarBjos achocolatados
Belas palavras Jorge.
ResponderEliminarExistem momentos em que temos de parar de ouvir o mundo para ouvirmos nosso interior.
Abraço.
Devemos perder o que não queremos perder para poder achar na inquietação do não-ter-mais, a verdade sobre o que cobrimos ao descobrir...
ResponderEliminarComo sempre, belíssimo poema. Imagens que nos nutrem e faz crescer o espírito!!!
Abração amigo poeta do além-mar!!!
Silêncios e angustias que se eternizam em lágrimas guardadas no tempo, feridas que cicatrizam mas deixam marca.
ResponderEliminarPerdemo-nos e viajamos em tuas palavras e nas melodias, como esta, que absorvem os sentidos.
Excelente!
Beijos amigo, bom fim de semana.
oa.s
Olá Jorge,
ResponderEliminarAqui chego pela primeira vez e já encontro este
festim de poesia. São versos fortes e conflituantes, mas belos e enriquecidos pela intensidade das verdades que nos deparamos na
vida. Adorei, amigo.
Gostaria de vê-lo em meu recanto, a seguir-me, se gostar e deixar um comentário em minha postagem.
Já o estou seguindo e será um grande prazer, vê-lo por lá.
Um grande abraço e ótimo findi para você.
Maria Paraguassu.
Meu querido Poeta
ResponderEliminarDentro de nós há uma voz que nos rasga...uma dor que nos açoita...uma névoa que nos cega...uma luz que não rompe a escuridão...uma sombra que dança uma triste melodia de amor e dor...um sopro de vida que se extingue em cada noite...em cada respirar...em cada espera...em cada mágoa que nos fustiga...em cada amanhecer.
Hoje meu querido Jorge o teu poema entrou dentro de mim...foi avassalador.
Deixo o meu beijinho carinhoso
Sonhadora
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarhá momentos em que temos que deixar
ResponderEliminardeixar ir
Beijo
Laura
Lindo, lindo texto! Parabens!
ResponderEliminarpassando para desejar-te uma linda semana. Bjos achocolatados
ResponderEliminarMuito bom o seu texto de verdade..
ResponderEliminar"contaram-me depois
que guardaste as lágrimas na garganta"
"cicatrizei o tempo" - adorei essa metafora.
Está de parabens! Escreve perfeitamente bem :)
Voltei...e reparei que também és de "português/Inglês"...Eu "funciono" no agrupamento de escolas de MANGUALDE.
ResponderEliminarMuito gosto, colega.
Jinhos
o título já é um poema...
ResponderEliminare todas essas respostas cegas que nos pousam nas mãos, pobres de nós, que surdos não as entendemos e sequer aprendemos a formular as perguntas...
sim, meu querido, há momentos em que perder talvez não seja ganhar, mas sobreviver.
beijos, amado amigo poeta!
Jorge querido,
ResponderEliminarganhar.. perder.. viver!
inquietação constante..
sempre perfeito poeta!
beijos perfumados..
saudades daqui..
Boa tarde, Jorge.Passei para te deixar um beijo, agradecer o seu carinho, e constatar o seu talento!
ResponderEliminarBeijos, e fique com Deus!
Obrigada pelas palavras, mas saiba que você merece constantes aplausos. Eu o admiro muito!
ResponderEliminarBjs.
Eu volto para restituir o comentario que ficou borrado por… eu não sé… ¿?
ResponderEliminarMil disculpas, Jorge.
Mesmo ganhando sempre há um temor latente ante a possibilidade de perder. Nesse segundo que separa o perdido e o que possivelmente ganhemos, tudo fica detido no tempo como calor de verão com perfume de pomares, nas noites em que todo o oxigénio é pouco para saciar-nos. Então, a nossa garganta muda numa armadilha para lágrimas esquecidas e ainda que fechemos a janela, chega até nós o perfume dos pomares e ouvimos o canto da cotovia.
Querido amigo,
Obrigado. Tuas palavras não são pequenas nem perdidas, ficam guardadas e valiosas. Sim, Prometeu roubo o fogo, mas ele esqueceu uma chispa na tua poesia.
Abraço grande.
JORGÍSSIMO
ResponderEliminarFiquei arrepiada de tanto encanto: a fusão da música , o poema e a imagem. BELÍSSIMO.
Seu verão aqui ilumina a primavera.
O dia deitou-se mais cedo. A noite deu mais dois passos adiante diante da cotovia que bebe o suco de toda estação. Encantei-me como me encanto com o canto da cotovia.
Jorge, hoje finalmente parece que consegui comentar.Não posso falar muito, senão.....
bjs
como é sentido o sentimento! pousam as desilusões no tempo, e sempre haveremos de partir e chegar!!
ResponderEliminarsurpreendente ler-te||
outro abrç Poeta
Que música.
ResponderEliminarEla poderia ser eleita como a trilha sonora de toda a essência deste blog.