sábado, 9 de julho de 2011

retórica incandescente para tecido de sustentação corporal

aljezur

sim,
atira-me ao fundo do mar
como quem beija,
todo o tecido pede violência
para medir a resistência.

quero os teus pulsos
de guelras temperadas em sangue negro,
um dia, cordão de açúcar,
no outro, lábio de voo plano.
desejo as tuas mãos
de óleo com escamas na pele
a escorrer precipícios trágicos
sobre a trajectória dos peixes.

sim,
ata-me às rochas do mar
como quem ama
prende-me com algas
mesmo que a eternidade se escreva com cinzas
dispersas pelo vento
algures entre os trilhos de sangue aceso por dentro
e os pés que tropeçaram nas botas e no caminho.

se todo o amor fica incompleto
na estreiteza do corpo
e os lábios adormecem
na contracapa da noite
para quê recordar as cartas recebidas?
as palavras são apenas ossos brancos
a apodrecer no negativo fotográfico
com que um dia ousamos
fotografar a melancolia dos rostos.



einsturzende neubauten, blume

46 comentários:

  1. Nada como as palavras para fotografarem a melancolia, lê-las e relê-las é como visitar sempre esse calabouço onde mantem-se a poesia.

    Excelente, Jorge!

    ResponderEliminar
  2. ...olá meu querido!

    em um dia, mais um dia daqueles
    em que a alma do poeta brincava
    com as palavras, elas lhe disseram
    assim:

    "No osso da fala dos loucos têm lírios."

    e este poeta, nada mais era
    o poeta das coisas da terra.

    Manoel de Barros

    adooooooro!!

    bjs, alma linda!

    Vivi/Infoco/Almanua

    ResponderEliminar
  3. a incandescência nos tomou conta, sinto a vibração da chama, o crepitar dos ossos e o verbo que se incendeia,

    grande abraço poeta irmão

    ResponderEliminar
  4. Jorginho, Poeta que é Poeta provoca delírio...faz a pele da alma arder em febre implacável... Delirante te ler, inquietante pensar no que posso enxergar na...contracapa da noite!!! Amei...
    Beijos,

    ResponderEliminar
  5. Muito lindo, a impressão dos ossos brancos a apodrecer nas fotografias... Imagem perfeita!!! É sempre um prazer te visitar, pois entro um e saio sempre outro... Aqui é o verdadeiro rio de Heráclito... Abraço, amigo!!!!

    ResponderEliminar
  6. Mas essas palavras, essas cartas, esse passado, não se consomem no amarelado de fotos, mesmo que as destruamos.
    Fazem parte da vida. Fazem parte do ser que passou pelo caminho que descreveste de forma tão bela.

    Bjs.

    ResponderEliminar
  7. «as palavras são apenas ossos brancos
    a apodrecer no negativo fotográfico
    com que um dia ousamos
    fotografar a melancolia dos rostos.»

    Que imagem, esta! Que poema fantástico!
    Passar por cá, não é apenas sinónimo de ler excelentes textos, conhecer iniciativas de louvas, etc., mas também, e acima de tudo, morrer e renascer. Até porque li algures por aí que «nada morre para simplesmente terminar»! :)

    Beijinhos!

    ResponderEliminar
  8. Acho que me escapou uma vírgula a mais... Ups!

    ResponderEliminar
  9. Antes de apodrecerem, as palavras eternizam suas essências naqueles que seguem a bússola do peito e não se recusam a ouvir a voz da poesia...

    Beijinho emocionado, poeta amigo!

    ResponderEliminar
  10. Sabe, Jorge, certamente, e, sem nenhuma sombra de dúvida, penso ter sido esse, o mais belo poema que já li aqui no seu espaço.
    E olha que já li muitos!!! :)
    A começar pelo título, achei-o todo belíssimo!

    E hoje foi engraçado, pois o blogger estava completamente maluco, e eu tive que vir diversas vezes aqui, até que, finalmente, conseguisse deixar meu comentário (será que agora vai?)rsss
    Enfim...mesmo assim, eu não me chateei, pois cada vez que aqui voltava, eu tinha oportunidade de lê-lo novamente.

    Jorge, quando eu crescer, quero saber escrever como você ;-)

    Beijo enorme, e tenha uma linda e feliz semana junto aos seus.

    Cid@

    ResponderEliminar
  11. olá querido!

    Deliciosamente apaixonante!
    o passado é o fruto do que
    um dia existiu.
    um abraço!

    ResponderEliminar
  12. Querido amigo de-além-mar,
    Jorge, que poema divino!

    O amor fica incompleto quando nos sobra o ar.

    Poucas experiências são tão maravilhosas na vida, como perdermos o fôlego, uma sensação de termos subido escada de muitos degraus, apenas porque lemos as letras que compõem um nome; ou quando a imagem de alguém reflete em nossa retina, e parece que corremos maratona de mais de 40 km.

    Até o amor é transitório?
    Se o que nos resta são apenas cartas recebidas, com letras perfeitinhas como se fossem desenhadas em cadernos de caligrafia? Pois a deixemos por lá, na cesta junto com as lenhas a queimar na lareira. Somente assim, perderemos novamente o fôlego, até o arder da próxima fogueira.

    Meu amigo, pois não é que Deus lhe toca na ponta dos dedos?
    Bravo! Voltarei sempre!

    Grande beijo,
    Cecília.

    ResponderEliminar
  13. Não é fácil resistir ao enredo sedutor deste poema, mergulhado num tempero de pimentas negras e brancas e coberto de sangue, no aguardo de um beijo a valer por uma vida inteira [em instantes] de morte e ressurreição e outra vez morte e (re)vida e…
    Que viagem alucinante esta em que tudo vale. e o sangue jorra dos pulsos, a pele arde em combustão turbulenta e os ponteiros do relógio do olhar quebram para que a vida seja (e)terna em um dia de pasmo [na descoberta] e o outro de morte até à exaustão.
    E no mar a música nasceu com a criação do mundo, o nome no céu das bocas [secreto], os corpos num altar de flores, em oferenda...
    Obrigada por mais este momento magnifico de pasmo e de encanto!!!
    Beijo, poeta dos meus encantos.

    ResponderEliminar
  14. Grande poeta,
    logo no início os versos
    pregam-se dentro da alma
    e o cântico vai se estendendo
    cada vez mais profundo o arrebatamento
    ...

    forte abraço,
    meu amigo.

    ResponderEliminar
  15. Grande poema Jorge! Várias situações e imagens apareceram aqui na minha mente enquanto eu lia! Parabens!

    ResponderEliminar
  16. Pois sim, pareceu-me um MAR, sempre um MAR, a desenhar uma sereia que sempre mexe fundo com cada um de nós...
    O víseo é absolutamente belo!
    Adoro essas performances que nos faz viajar dentro de pensamentos insólitos.
    Abraços, Jorge!

    ResponderEliminar
  17. Jorge poeta querido,
    amor incandescente,que se dissolve em pó de lembranças..
    mais uma vez me transportei em tuas palavras..
    beijo de carinho..

    ResponderEliminar
  18. Meu querido amigo, Jorge,

    Que poema maravilhoso...!!

    Para aqueles que conhecem o amor, sabem o quanto este sentimento nos rejuvenesce e nos fortalece. Só o amor possui o poder de nos remodelar. Só o amor nos consome, só o amor é capaz de nos fazer pensarmos ser pequeninos diante da vida, quando por ele sofremos, mas, na verdade, é porque o amor está nos transformando, quebrando as nossas misérias [dor que quase nos apaga e até pode nos fazer pensar estar tudo errado]. Afinal, esse poder todo se condiz ao fato do amor encontrar-se acima de qualquer vício, mau, defeito, doença, mania, apego, trejeito, estigma, parâmetro, conceito, máculas na alma e no coração etc... Ele, o amor, é sublime, está um patamar acima de nossas razões. Nenhum homem é o mesmo, depois de amar...

    Tocou-me: "...as palavras são apenas ossos brancos a apodrecer no negativo fotográfico..."

    Beijos grandes,
    Como é bom passar por aqui...
    Ana.

    ResponderEliminar
  19. Sem palavras para este (A) Mar!
    beijinho poeta maior

    ResponderEliminar
  20. Hoje eu sei quem luta pode vencer,
    Ousar é a melhor maneira de vencer
    SE VOU VENCER SO DEUS SABE MAS DESISTIR NUNCA.
    Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança
    a mim interessa sómente o
    futuro onde vou morar.
    Sei que parada não posso ficar
    nem ter medo do futuro chegar.
    Não posso passar todo tempo murmurando
    e desanimando meus amigos e amigas.
    E sim passando coragem e dizendo
    lute pela vida..Vale a Pena Viver..
    Um lindo final de Domingo
    beijos no coração ,,Evanir.
    Morre a tristeza nasce a esperança.

    ResponderEliminar
  21. sim, continuas com a pena afiadíssima a nos tocar na alma. tô aqui aplaudindo...

    beijo, meu queridíssimo!

    (ainda que em silêncio não perco uma linha sua)

    ResponderEliminar
  22. Quando uma incandecesnente retórica sustenta a memória da pele e atiça o desejo, as palavras podem se tornar dispensáveis no sentir, mas continuarão lá, registradas, até que se apodreça sua sustentação.
    Neste agora preferiram estar aqui, num mundo virtual, como testemunho genial de um um grande poeta.

    Grande abraço, meu amigo!

    ResponderEliminar
  23. Olá passeando pelos blogs encontrei o seu.. linda poesia, me deu vontade de me atirar no fundo do mar tb..

    ResponderEliminar
  24. sim,
    atira-me ao fundo do mar
    como quem beija,
    todo o tecido pede violência
    para medir a resistência.
    APAIXONANTE...
    Beijo d'anjo

    ResponderEliminar
  25. Olá Jorge, o poema é muito belo, mas sinto nele uma grande luta de sentires. Acalma a fúria dessa tempestade e liberta-te. Beijos com carinho

    Ser poeta é uma corrente
    Que nos amarra à saudade
    Que prende a alma da gente
    E não nos deixa liberdade.

    ResponderEliminar
  26. Jorge, não sei porque diferencio amor de amar, o primeiro enquanto essência, perfeição, e sua existência anterior a nossa. Amar, refere-se aos nossos contornos em relação ao amor. E aqui, senti ambos.
    Mas ainda sinto uma dor, algo que fala, mas não é entendido.
    Vai saber, devo estar presa no fundo de algum poço, em busca das águas do mar.
    Bj,
    K.

    ResponderEliminar
  27. Jorge, quanta carga em tuas palavras, fico aqui, absorta em teus poemas...

    Um abraço c/carinho
    oa.s

    ResponderEliminar
  28. Querido Jorge,
    Tu tens um caso de amor com as linhas, já tens cordões de algodão-doce ou aço, não na estreiteza do corpo da palavra, sim onde o corpo do amor é a vastidão dos sentidos, infinita - que não pede nem exige prova de resistência - como flores de Sharon e cristais da Bohemia aos amantes de vinho e arte.
    Sob sustentação e sobre completude, no caminho das flores de Aljezur, ruína com sede de maravilha natural. E, em torno de voz e letra, dentro da bola, envolvente Blume em significado e gesto - ritmo de gol.
    Mas que linda postagem, um abração.

    ResponderEliminar
  29. Jorge, já li e reli. E toda vez que eu leio, mais encantada eu fico. Ao sabor da sua caneta deslizando no cordão de açúcar, me delicio com essa doce poesia.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  30. O mar sempre causou-me medo e espanto, mas a quase infinitude do mesmo me faz sonhar...

    Jorge, como disse antes: Fiz o post com a inspiração que uma de suas poesias me provocou...rs

    Abraços

    ResponderEliminar
  31. Jorge, meu amigo de-além-mar,
    vim para te agradecer pela presença no blog da Má Ferreira, pela tua consideração com nosso trabalho.
    Obrigada, mesmo!

    E também aproveitei a pausa para o cafezinho e ler mais umas 10 vezes este poema.
    Que maravilhoso!
    Quebrar a rotina do trabalho com a leitura de um poema desses... é indescritível!
    Parabéns!

    Ótima semana, Jorge!
    Beijos,
    Cecília.

    ResponderEliminar
  32. Transmite desejo tão intenso e corajoso
    capaz de mergulhar no mais profundo dos oceanos
    e planar nas mais fortes ventanias do azul do céu
    o pulsar do sangue é incandescente feito asas neon
    que ao voar é capaz de roubar o olhar de quem o vê

    Beijo!

    ResponderEliminar
  33. Quando o mar devolver meus sonhos, eu sonharei com teus poemas...mas ele os levou embora, e agora vivo acordada até quando durmo, e não sonho mais.
    Bjos achocolatados

    ResponderEliminar
  34. Jorginho,
    "Um bom poema é aquele que nos dá a impressão
    de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!" Foi o moço dos Quintanares que escreveu esses versos tão sábios.
    É assim que me sinto sempre que venho aqui.

    Beijinhos...

    ResponderEliminar
  35. Personalidade e palavras fortes...Gostei muito, Jorge. Abraços!

    ResponderEliminar
  36. Gosto de poema...que extraí faíscas da sorção dos sentimentos. Para quê recordar as cartas recebidas?
    as palavras são apenas ossos brancos
    a apodrecer no negativo fotográfico
    com que um dia ousamos
    fotografar a melancolia dos rostos. Abç!

    ResponderEliminar
  37. a poesia tem endereço certo...maravilhoso amigo, sempre diz tudo na medida certa, encantas, desapontas, encontras sempre os fios e sabe conectá-los, e em nos acende uma enorme alegria, euforia dos dias com tanto encanto, melodia que canta dentro da alma.
    beijinhos querido e uma super semana...

    ResponderEliminar
  38. Só posso confessar que hoje me senti diante de um espelho feito de águas do mar... ai ai ai

    bacio

    ResponderEliminar
  39. Palavras são as fotografias mais fiéis.

    Adorei, Jorge.

    Um beijo!

    ResponderEliminar
  40. Eita que texto forte, Jorge! Uma paulada mesmo...muuito bom!!

    []s

    ResponderEliminar
  41. Gostei bastante do Blog.
    Muito interessante !

    É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
    http://bolgdoano.blogspot.com/

    Muito Obrigada, desde já !

    ResponderEliminar
  42. Jorge,
    tão bonito!
    adoro a intensidade como sentes/escreves.

    Beijinho, amigo.

    ResponderEliminar
  43. Meu querido Poeta

    Como sempre...deixas-me sem palavras.
    Os teus poemas são o alimento da alma de quem te visita...eu vou sempre extasiada...e admirando-te cada vez mais.


    O poeta beija a noite...chora e canta os amores
    Em prosa e em versos...grita aos céus as suas mágoas
    Uma prece em silêncio...chora em segredo todas as dores
    O vento açoita-lhe a alma...o mar guarda-lhe as lágrimas

    Beijinho com carinho
    Sonhadora

    ResponderEliminar
  44. Carinhosamente venho desejar
    um feliz final de semana.
    beijos no coração,Evanir.

    ResponderEliminar
  45. "Ata-me às rochas do mar como quem ama...". Que bela fotografia tiraste, meu amigo! Como é bom te ler... bjinhos!!!

    ResponderEliminar
  46. Fiquei sem fôlego, despi-me nestes versos contidos... Lusco-Fusco do lumbargo!
    Michelle Crístal
    escrivaninhadamichellecristal.blogspot.com

    ResponderEliminar