sexta-feira, 6 de abril de 2012

amor triste II


seguro o teu olhar numa mão
e a tristeza na outra
[etiquetas XVII, polos e extravios, de 06.01.2012]

fotografia de jorge pimenta


procuro o beijo
o pólen sem gretas
e a janela que abre
carícias ao corpo

mas o amor triste
balança gomos de primavera
em cabos elétricos
arrancando a luz ao quarto
e as engrenagens ao coração.

já reparaste como esta noite
as cerejas perderam a cor
nos versos da tua boca?


the joker’s daughter, lucid

[segunda versão do texto amor triste, de 2008]

sexta-feira, 30 de março de 2012

a humanidade no singular – ou todos os plurais de um só homem


Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que avança para deter-me…
José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos


fotografia de jorge pimenta


são eles, os objetos, e talvez a sua alma
quem o persegue
em todas as madrugadas.
às escuras,
mordem-lhe os dedos
com cerejas e pão
e cospem a terra
com que alimenta cada escalada e precipício.

são eles, os objetos, e talvez a sua alma
quem sobe as escadas,
com fome de cães.
passo sobre passo,
atiram sílabas imundas ao chão
enquanto o olhar verga
sobre as vértebras
de sonhos e sonos sem corpo.

detêm-se à cabeceira da cama
a devorar o tempo de cada fotografia,
roída,
a acariciar gavetas,
por entre alfazema e roupa interior mal dobrada.

do lado de dentro,
o animal louco
sonha com árvores estreitas
de pétalas nas raízes
para cada uma das suas máscaras iluminadas.

do lado de fora
são eles, os objetos, e toda a sua alma
a arrotar em cada gomo arrancado
à romã da sua boca.

mais tarde – tarde de mais:
já nem o nome lhe cabe no beijo.

laura veirs, wrecking

sexta-feira, 23 de março de 2012

panorâmica sob dois efeitos


Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso

Miguel Torga, Letreiro [in Orfeu Rebelde]

Fotografia de Jorge Pimenta


o dia punge temores
diante da opulência
da poesia

apenas loucuras
intermitentes
como se o velho que esqueceu o nome
ainda desejasse o olhar da medusa.

jurei incendiar a voz
e cobrir de fogo os lábios
mas o beijo lírico acaba sempre
mirrado na boca do tempo
nas divisas da voz e do silêncio

ressuscitei orfeu
adivinhei-me horizonte e lira
mas perdi-me em covas vazias
porque só a palavra acentua a mudez
e reinventa a eternidade:

que morte dispensa
a mão-milagre?
que fotografia
alonga o rosto para além do tempo?
que imagem vaza
pela borda da moldura?

tanto eu quis… 
quis ser poeta
poema
palavra
quis colher o tempo
e acordar o corpo
quis que as raízes do meu sangue
fossem pena e tinta
quis que nos delírios do verso principal
toda imagística
fosse máquina sem tempo

afinal só aos poetas nascem miradouros no olhar.

(Joelma B. & J. Pimenta)

http://transfiguracoes.blogspot.pt/ 

lissie's heart murmur, warpaint

sexta-feira, 16 de março de 2012

estante de papel: bocas e lábios para glossários átonos


Klaus tinha os lábios pretos, como se falasse outra língua. […].
São palavras pretas. Queimam os lábios.
Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump


fotografia de jorge pimenta


uma a uma,
as palavras da boca
esquecem os lábios
e adormecem no precipício
átono do glossário

uma a uma,
secas, pálidas, quase indiferentes
apenas papel
à nascente dos olhares
e ao poente dos amores

é assim a bússola do corpo:
aponta ao fim do mundo
mas perde-se no fundo

é assim o corpo sem bússola:
pressente o tempo
e todas as orquídeas cortadas,
repete as estações das árvores
mas nunca viu as raízes na terra,
cala os nomes e os rostos
quando a pele sangra

são assim o corpo e a bússola:
na solidão dos fins de tarde
inauguram a sombra
e os versos onde nos caíram as mãos

portishead, the rip

sexta-feira, 9 de março de 2012

o fim da rua *

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto
[...]
ó rodas, ó engrenagem r-r-r-r-r-r eterno!
[...]
Ah, poder exprimir-me todo como uma máquina se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último modelo!

Poder ao menos penetrar-me de tudo isto...

Álvaro de Campos, Ode Triunfal


fotografia de jorge pimenta [battersea power station]


hoje há gritos que agitam as árvores,
gritos cinzentos metálicos
em rebentação.
são bocas de fumo a cuspir nevoeiro
enquanto nos portos
barcos de madeira apodrecem em águas
que deixaram de refletir as estrelas.

hoje o homem apaga a voz
enquanto as bocas urbanas
lhe rasgam os ouvidos
em penetrações lascivas
que rebentam os tímpanos e a inocência.
e os gemidos espalham-se pela cidade
cobrindo de gozo sexual
as máquinas de dedos longos sobre o peito.
fala-se baixo
mas as gargantas rangem sempre contra
fuselagens de asas negras
em colisão vírica com a lua sem pão:

camiões sem nome
estátuas de bronze
travagens sem estrada
[o pão caiu ao chão de vez]
cortadores de relva
lâminas acesas
relâmpagos a jato
[demónios incendiários lambem os homens em sevícias escuras]
comboios sanguíneos
automóveis subterrâneos
navios eléctricos
[o inferno mostra-lhes a sua cabeça]
lança-chamas
elevadores a arder
sirenes nubladas
[os grilhões amarram o homem]
o mundo das engrenagens corrupia sobre o palco
arrancando os aplausos a uma cidade
perdida no seu silêncio.
[fim do capítulo].

hoje é o dia:
o girassol menstruado
troca de mundo,
o homem castrado
permanece mudo,
e a cidade em orgia mal iluminada
assiste indiferente
às árvores que nos caem das mãos,
hoje.

* texto revisto e modificado, inédito no viagens de luz e sombra [anteriormente publicado em entre marés, de suzana martins]

fotografia de jorge pimenta [battersea power station]

david bowie, the heart's filthy lesson

sexta-feira, 2 de março de 2012

etiquetas XIX


fotografia de jorge pimenta


I. nudez
há segredos que não desvendamos;
desvendam-nos.


II. utensílio de troca
o [desa]linho da vida:
ser fósforo e lixa em combustão lenta
nos invernos de rosto magro.


III. rastos
silêncio vertical
deitado num pedaço de solidão
com o meu nome gravado nos bolsos.


IV. memória e olvido
1.
entre o corpo e a palavra
habita tudo o que não esqueceremos.

2.
todas as flores murcham
nas mãos que se desprendem do seu passado.


V. como no cinema
[dedicado à minha amiga da poesia [e] da vida laura alberto
http://lauraalbertopossiveldiario.blogspot.com/, a propósito do seu texto balada XIII]

acerta em cheio.
vira o estendal e esmurra o nariz.
sabes que a cor do sangue também salva?



nina simone, wild is the wind

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ode para quereres e olvidos [e outros tantos desassossegos]


Se um dia pudesse adquirir um rasgo tão grande de expressão, que concentrasse toda a arte em mim, escreveria uma apoteose do sono. Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.
Fernando Pessoa [Bernardo Soares], O Livro do Desassossego

fotografia de jorge pimenta


é este o peito que respira
a roupa suja
os olhos tristes,
e porque cada madrugada o acorda três vezes
o número basta para detestar a matemática
das coisas
dos nomes
e de tudo o que deseja.

adormeceu um dia com as pálpebras
sobre um olhar de amêndoa
e nada em si conseguiu ser mais amarelo
no trajeto de uma noite
no aroma do poente
no estrebuchar da borboleta em círculos
no mapa do seu sangue.
acordou viúvo,
num céu de rede, crinas negras
pelas bocas que sonham com cometas
e apodrecem nas vias lácteas da deceção.

ofereceu-se a insónia
e hoje respira assim
lentamente, como todos os comboios
que suspiram pela ferrugem das chaminés
[o único brilho que exibem
por entre as galerias de fumo e poeira da viagem],
e hoje respira assim
intermitente, como o corpo
entre os dias em que desperta
e aqueles em que morre,
sempre apoiados nas pernas,
de face macilenta,
o olho direito nas suas ruas vazias
e o esquerdo no movimento da multidão
que não lhe pertence
que não para nem o vê
que esqueceu as feições daqueles
que não gravou no seu rosto.

começou a escrever
sobre o noturno espaço do seu silêncio
e a cada cigarro de bruma
um girassol morria a grande velocidade
diluindo-se no tempo que lhe violou a semente
e lhe roubou o astro do nome.
passou a estremecer nas folhas
na sombra da tinta
e em todos os mundos que inventava
imitando a fórmula com que amava,
já mal iluminado,
pelas entranhas do seu edifício,
algures nos intervalos das telhas
e dos socos do poema,

ali, onde já nem o pó faz morada.

radiohead, true love waits

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

prantos, voos de asa branca e outros atrevimentos sobre o [uni]verso dos instantes


A certa altura disse-me: “Não basta viver a dor, ainda ter de a escrever”
e percebi que tínhamos voltado ao começo
Pedro Paixão, Amor Portátil

Porto, Piolho [fotografia de Jorge Pimenta]


há uma estrada incompleta em cada manhã.
não sei se chove, se faz frio
mas nela tudo respira
ao longo do alcatrão de imagens
onde até as flores de berma
têm os braços abertos para os dias simples.
procurei reler o tempo e os teus segredos
mas a morte passou de mão em mão
sem qualquer ruído
com nenhuma aragem
nem um vulto de vento
em aproximação noturna;
apenas manhãs
e as suas estradas incompletas.

houve um dia em que me juraste todas as janelas
como se o céu morasse na tua boca
e as certezas fossem a parte líquida do teu mundo,
houve um tempo em que acreditei
em pequenas lâmpadas, pontos de luz
íris e retinas de lírios
a escorrer pelas frestas dos muros.
só que esquecemos que os espelhos refletem imagens
murchas vagas quase esquecidas
em delírios de febre sobre discretas imperfeições.
e a palavra sabe-o.
tu sabe-lo, mesmo que o não digas.
eu adivinho-o,
porque as certezas passaram a ser impulso
de fórmula indefinida
como aquela canção que nos incendeia o jato da melancolia.

sento-me junto à risca do teu nome:
a estrada cospe a minha loucura
e todas as ilhas do teu silêncio.
chamam por mim as pálpebras do adormecer
contudo espero,
cansado,
neste canto de mundo
pelo refrão da canção.

finges morrer
enquanto sonho com as mãos que escavaram o ventre.

radiohead, how to disappear completely

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Entrevista no Roxo Violeta


Meus queridos amigos,
Esta semana o viagens de luz e sombras mudou-se temporariamente para o roxo violeta: http://roxo-violeta.blogspot.com/.
Na sequência do que vem fazendo há já algum tempo, a Tânia Contreras voltou a reunir um conjunto de amigos que, pela palavra, prosseguem na sua implacável missão de desnudar alguns poetas, escritores e escreventes [incluo-me nesta derradeira categoria] da blogosfera.
Confesso que se tratou de uma experiência extraordinária, ainda que exigente, uma vez que nada me é mais duro do que olhar para o interior do agora não "poeta", não versejador, mas homem, responsável pela escrita de alguma coisa. Os jogos de máscaras, os espelhos e demais subterfúgios retórico-enunciativos caem por terra quando, de olhar frontal, nos atiram de rajada com perguntas do tipo “e tu…?”.
O desafio levou-me a encetar diferentes viagens pelas luzes, pelas sombras, já não num sujeito poético, mas na poesia do próprio sujeito: “só reconhece as sombras quem já viajou pela luz”.
O resultado está lá, sempre guiado pela mão de experimentadíssimos artífices do verbo: Joelma Bittencourt, Dani Delias, Tânia Contreras, Mirze Souza, Dade Amorim, Celso Mendes, Marcelo Novaes, Tuca Zamagna, Assis Freitas, Lelena Camargo, Wilden Barreiro, Andrea Godoy, Cris de Souza, Marcantónio e Roberto Lima.
A introdução é um verdadeiro manual de bem escrever e está a cargo do imenso Assis; a ilustração é novo exercício de génio do Tuca; a responsabilidade desta “maldade” é da Tânia.

Um abraço!

ode descontínua e remota para flauta e oboé, canção VIII, olívia byington; música de zeca baleiro  [poemas de hilda hist]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

etiquetas XVIII


fotografia de jorge pimenta


I. os aromas do tempo

para a assíria,
[http://soprodevidasemmargens.blogspot.com]
a propósito do seu texto …excluído das horas


uva negra
grainha serôdia
em lábios gretados por todos os verões interiores
[aqueles que nunca explodem
senão do lado de fora do calendário].


II. apelo
não me deixes só em cada um dos meus morreres…


III. [in]confidência
são assim as estrelas:
luz sobre todos os lugares onde o corpo aprende a morrer.


IV. a linguagem e [os] nós
saber remexer a treva
pelo reverso dos signos.


V. transfusão
o que muda primeiro:
este inverno ou a tua estação?


VI. floresta: a árvore e o homem
há tantas raízes finas, delicadas, que nos trepam pelo corpo
agitando oceanos de lava e sangue.


VII. errância [ou a segunda vida de prometeu]
continua a fugir e não sabe se alguma vez se encontrará.
[prometeu que não se deixaria apanhar].

canto de ariana, canção IV [poemas de hilda hilst; música de zeca baleiro]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

assimetria vocal: o tempo e a fotografia na geometria do poema


vai ser  preciso sangrar as palavras
vai ser bom ver correr o vidro das palavras
a palavra partir a palavra chegar
Mário Cesariny

fotografia de jorge pimenta


escavo os versos devagar
outrora visões de futuro,
hoje dicionário dos corpos
que desintegram bocas e desprendem memórias
na aridez da palavra listada.

talvez agora não saiba as suas sementes,
talvez já não adivinhe a terra e o sol
ou a germinação da cal 
porque a geada queima os dedos e seca a tinta.
e a mão, vazia de gente,
esqueceu o lugar das palavras
lascou o verso
e quebrou a estrofe,
numa obra inacabada, injuriosa, quase falsa.

Na cela da escrita,
flores de papel libertam pétalas
com toda a linguagem
como se o poema fosse apenas
um corpo fotográfico
despido de verbo
sintaxe nua de frutos sépia
quase murmúrio
a empurrar-nos para o início do tempo,
onde as árvores tinham raízes de alfazema
a explodir na seiva das coisas
em rotação e translação de braços:
a nossa primeira pele
deitada na noite-beijo que sabe morder os lábios:
o silêncio de todas as coisas.

no poema incompleto ainda somos respiração infinita.
é assim o tempo das fotografias
e de todos os nossos versos lentos.

toranja, quebrámos os dois

sábado, 21 de janeiro de 2012

dos lugares [in]acessíveis: geografia e poesia

A amiga Ira Buscacio escreveu um texto-arrepio [assim é toda a sua poesia] no seu Faces do Poeta e teve a gentileza de associar-lhe o meu nome. Para os que já conhecem a sua obra, desnecessária se torna esta referência; para os demais, valerá a pena a visita: http://irabuscacio.blogspot.com/2012/01/carta-para-um-amor-triste.html


A certa altura, dei-me conta de que o tempo passava tão depressa que me sentia a correr para fora da vida. […] Mas o pior é o corpo que começa a revelar o seu cansaço, a recusar acompanhar-me nos meus sonhos que persistem.
Alçada Baptista, O Tecido do Outono

porto: ponte d. luís [fotografia de jorge pimenta]


cada lugar meu imita todas as promessas
mas hoje sou apenas alguns lugares
e o que remanesce da fome e da sede
em taças voltadas
talheres sem prato
e garrafas quebradas.

onde é que ficam os teus ramos exatos,
as aves azuis
e todo o céu que se desdobra
em voo picado
umas vezes aprendido, outras esquecido?
onde guardas a água
e todos os objetos astrais
que acendem a candeia do corpo
e agitam a galáxia dos olhos?
onde está a labareda dos teus lábios
que ascende pelas pernas
volteia no vórtice do mundo
assentando a argila e o desejo
em cada poro incandescente
como carícias de sangue tóxico
a explodir nas ancas do poema?

onde?

cada lugar meu imita todas as promessas.

quinta do bill, se te amo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

notícias do tempo

fotografia de jorge pimenta



Ana Cecília Romeu & Jorge Pimenta

Colocou a mão sobre o pedaço de jornal rasgado pelo homem. Sentiu-se arranhada pela tinta negra que se afogava nas digitais. Arabescos gravados em fibras de algodão com aroma de doce caseiro. A retina colheu grifos desordenados no que restara do papel areia. Nele, uma breve notícia sobre o tempo. Nos escritos da mulher, os tempos de outrora.

são assim as viagens do corpo
em cada dia de amores tristes:
envelhecem retinas
em polaroids sem negativo,
algures nos recortes sépia das notícias
dos homens
dos jornais de vida
dos olhares pretéritos.

Fragmentos colados nos pulsos cantam como pássaro livre, mas ali, secos e inertes, no que se transformaram: pontos de tinta em papel.

sabem que um dia foram frutos da verdade
das suas meias mentiras
e dos segmentos de respiração
que aceleram o peito
e agitam alvoroços
no encontro das palavras com os dedos.

Notícias breves a saltar somente em sonhos.

um só homem,
uma só mulher,
e tantos tecidos por remendar
em linha cor de precipício
comprimento de vendaval
num único compasso de tempo
[não o que rasga nomes com a tinta dos dedos
mas o verdadeiro,
aquele que se confunde com a respiração],
o tempo que inventa o mecanismo perfeito do
silêncio:
desce pelas paredes
rebola pelo chão
penetra os objetos
engole conversas
engravida o ar
para, no olhar seguinte,
o coração ser apenas promessa:
talvez uma hora depois…
talvez depois do calendário…
talvez nunca mais…

Tempo instável com muita nebulosidade, previsão de chuvas para as próximas horas, temperatura máxima em torno de 15 graus, com mínimas de 8 graus à noite.

Colocou a mão sobre o pedaço de jornal rasgado pelo homem. Nele, uma breve notícia sobre o tempo. Nos escritos da mulher, os tempos de outrora.

Ana Cecília Romeu & Jorge Pimenta

Marisa Monte & Paulinho da Viola, Dança da Solidão

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

etiquetas XVII

bill brandt

I. mil e uma íris para a contemplação da aurora

[dedicado ao poeta Assis de Freitas]

és tu a voz
de todos os animais-escravos
que respiram no interior das palavras.
entre ausências
sementes nos horizontes
e sílabas de urgências:
é sempre pelos dedos que costuras o coração.


II. imagens fixas: rostos e versos
debaixo das estrelas
escondem-se todas as noites:
apascentam códigos
acariciam palavras
idolatram bocas,
sempre em voz seca
porque a tinta marca mais o rosto do homem
do que os contornos do poema.


III. poeta
olhos líquidos
incêndios mudos
e nas veias perdidas, já sem fôlego,
todos os poemas coagulados.

são assim os corpos à tona da morte.


IV. polos e extravios
seguro o teu olhar numa mão
e a tristeza na outra.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

o circo


pedra pão
vidro fogo
sombra luz
vida vida

fotografia de José Figueira


olhaste por cima do ombro
e adivinhaste os nomes nas cadeiras,
na hora em que o sangue se torna mais rápido
e interrompe a linha que preenche o tempo.

é a hora.
esqueces a pele das palavras
e toda a vulgaridade da linguagem
como a tela suja que sacode o orvalho
para debaixo dos pés.
música vozes aplausos
respiração suspensa,
gritos mudos,
suspiros vozeados,
aplausos
assobios
aplausos
embalados pela vida que inaugura instantes,
os mesmos que esquecem
o frio da cama
o colchão sem molas
a frieza do chicote
ou a itinerância dos passos.
a ilusão
[não dessa que os poetas gastam nos seus versos,
mas da outra,
da verdadeira,
da que transforma o chão de vidros e ácido
em leite e pão],
a ilusão é sonâmbula.

são duas horas
um tempo que o relógio não contou
um tempo suspenso
um tempo em que o mundo girou em torno das tuas mãos,
nesse erguer de pernas
naquele vómito de fogo
no salto acrobático sem rede,
por entre respirações incompletas
arremessos de risos
e disparos de gargalhadas.
são duas horas
que apagam a casa movediça
e escalam precipícios com as pontas dos dedos
enquanto a cabeça estoura entre os dentes das feras.

Texto publicado na rubrica Amigo Oculto, no blogue Trem da Lira (http://tremdalira.blogspot.com/), da Cris de Souza, em 23 de dezembro de 2011, sob o pseudónimo Eurico Portugal.

marillion, out of this world