Beti Timm
primeiro ato em dó menor
durmo com a nudez dos gatos
a esconder pincéis, cores e arestas
sob a tela da tua porta
a luz ainda acamada
porque há presenças abismadas
no retrato das palavras
que acariciam o beijo.
e encanto-me diante da tinta
encanto-me diante do mote
como se as fadas fizessem miragens
com as tuas mãos
e em cada pintura soubesse
mais do que uma vidra.
durmo com a mudez dos gatos
a esconder papéis, cartas e promessas
sob o tapete da tua porta.
a luz ainda apagada
porque há presenças adivinhadas
no rasto das palavras
que anunciam o beijo.
e espanto-me diante da vida
espanto-me diante da morte
como se as fadas fizessem milagres
com as tuas mãos
e em cada poema coubesse
mais do que uma vida.
segundo ato em si maior
encosto o rosto ao lençol vazio
e ao desabitado da minha cabeça
acesa entre as folhagens
e todo eu sou ramos,
e todo eu sou raios,
árvores em crepitação
a arfar debaixo da respiração sem raízes
enquanto a terra transpira seus vernizes
como se as engrenagens do amor
fossem eternas pelo tempo fora
na desforra dos arvorados instantes
não, não são,
apenas duas ervas daninhas a enlouquecer
ao parecer que se alinham
em cada palmo de palavra
na trincheira dos amantes.
enquanto a poesia se move da noite prò dia
as paredes permanecem brancas e frias.
(Cris de Souza & Jorge Pimenta)
http://tremdalira.blogspot.pt/2012/05/nona-sinfonia.html
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