quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Intervalo de viagem: entre o princípio e o precipício do mundo


Pontevedra, Galiza [Espanha]

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente,
somos habitados por uma memória."
José Saramago [retirado de uma entrevista]

Caem-me das mãos as asas no que resta do avião com que aprendi a voar. São hoje pedaços de viagens distantes, exalando aromas em tons de laranja-menina e tessitura de primavera.
Olho-lhe as asas à distância do tempo e ainda vislumbro resquícios da cola com que lhe esculpi a ossatura. E a memória regressa aos gestos, aos espantos, aos risos por entre a farda de major alado e a calça coçada pelos pontapés na bola. Sente-se a dor a exalar daquele plástico carcomido pela espera de um regresso aos céus que um dia dele foram, assim ligeiro, quase altivo, fénix de orgulho inteiro bem acima do tempo que nos denuncia mortais. Viveu anos junto do pó, no sótão de tantas primaveras, beijos meios com a boneca preferida da minha irmã e um triciclo que suspirava por explodir desde a primeira vez que sentira os meus pés nos pedais.
Dobro os joelhos e ajusto-lhe os braços sobre aquele corpo em ferida mansa. Parecia sorrir, como todos os aviões que um dia inauguraram o ar. Ele e eu, por detrás dos buracos que prostituem débeis feixes de luz neste silêncio de loucura clara. Desejo, secretamente, que o tempo volte a unir e não a dispersar, por isso peço à mariposa que permanece sobre o orvalho das glicínias para humedecer a infância; será que ainda me cabe na algibeira?
É assim a saudade, uma linha do tamanho do olhar a incendiar todo o corpo, desde a copa até às raízes. Alguma vez o homem foi muito mais do que isso?



dilek kots, allspice, cinnamon and a kiss [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

canção para outonos sem estação e astrolábio

brejão, alentejo

os sonhos fazem-se combinando recordações
jorge luis borges

é sempre assim no outono:
há uma voz que canta
e me toca levemente no corpo
a exigir suspensão.
Nunca sei se planeia roubar a noite, as estrelas
ou mesmo a sombra dos homens
enquanto atravessa zéfiro
e semeia, rebenta, floresce
sobre a terra que me cobre as raízes.

acordo
[alguma vez estive a dormir?].
de repente
tudo se ilumina na lanterna do homem:
a porta
o quarto
a cama
e todos os nomes e rostos que ali respiram,
bem debaixo dos céus, quase acima dos olhos,
na melodia crepitante de uma rima.

espreito para dentro das veias
e para fora da roupa
mas já todo o tempo me habita
e os cavalos rubros anunciam abismos.

quem é que me procura?

a luz incandesce os caminhos
e os pés douram o sangue.
apenas a canção permanece fria.


sokratis sinopoulos, a the universe [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ode nocturna aos homens de meteorologia inexorável e previsão silenciosa


bill brandt

debaixo das estrelas
degladiam-se todos os homens
na sua existência de papel:
o cutelo transpira-lhes as mãos
como o sexo insone
a arder em labaredas e sismos,
ameaça a ameaça
espasmo a espasmo
gemido a gemido,
umas vezes com a leveza dos anjos,
outras em estrépito animal;
em ambas a respiração sanguínea a espreitar o ponto de ruptura:
estica range sua rebenta
tingindo de branco as duas pontas da corda,
agora estáticas frouxas vencidas.

mas até a vida acaba em anagrama.
escreve-se já não da esquerda para a direita,
mas com todos os nomes,
em caos e combustão,
aguardando pacatamente a hora
nos arquivos da memória do registo civil.

afinal a morte é o alicerce de todos os rostos.

lhasa de sela, rising




A propósito de livros e leituras, a Andy, amiga do blogue lua [http://andy-luaprateada.blogspot.com/], lançou um desafio a uns quantos bloguers, eu incluído.
Replico aqui com o maior gosto, agradecendo, desde já, a distinção.

1. Existe algum livro que lerias várias vezes?
Os livros são os momentos. Por isso há livros que li três e quatro vezes em momentos diferentes e que não sei se não voltarei a ler: Viagens na Minha Terra, de Garrett; Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano; O Medo, de Al berto; Ofício Cantante, de Herberto Hélder; O Retrato de Dorian Gray, de Óscar Wilde, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera…
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste mas nunca conseguiste levar até ao fim?
Todos aqueles em que me não perdi…
Mas também há aqueles que, num determinado momento, não me seduziram, tendo-o conseguido mais tarde, o que sugere que o leitor é mesmo uma construção para onde convergem conhecimento, maturidade linguística e cultural, mas, sobretudo, todas as experiências e vivências individuais e interindividuais. É o caso de Ulisses, de James Joyce, por exemplo; só uns anos depois da primeira investida consegui chegar a Ítaca.
3. Se escolhesses um livro para leres no resto da tua vida, qual seria?
Um só livro não vale toda uma vida, mas a vida vale todos os livros que nela caibam.
Pensando num título: O Livro em Branco. Tenho a certeza de que no resto da minha vida ele acabaria por se compor com o essencial: a vida nas palavras.
4. Que livro gostarias de ter lido, mas que por um qualquer motivo nunca leste?
Tudo o que quis ler, li. Até mesmo O Crime do Padre Amaro, do Eça, quando ainda menino, às escondidas ou debaixo dos lençóis, à noite, em absoluta transgressão, “por não ter idade suficiente para as questões nele suscitadas”, na opinião da minha mãe. Agora, tenho a certeza de que há muito que ainda não “quis” ler mas que está na hora de começar a querer… António Lobo Antunes é, talvez, um dos casos mais prementes.
5. Qual o livro lido cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Boa! Só agora percebo que nenhum final me arrebata mais do que a magia com que se constrói o alinhamento narrativo. Um final só é excepcional se for bem preparado, bem alimentado na sua própria antecâmara. Arriscando um livro todo ele surpreendente [sendo o final igualmente irresistível]: A Metamorfose, de Kafka.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual o tipo de leitura?
Cresci em redor de livros. Os meus pais têm uma excelente biblioteca e durante anos leram muitos e bons livros. Recordo-me de, na infância, ter lido aqueles livros que todos os miúdos do meu tempo liam (Os Cinco, Os Sete, ambas as colecções da Enid Blyton, O Diário de Anne Frank, Os Putos, de Altino tojal, muita BD – Astérix, Lucky Luke, Tintim, por exemplo), mas também clássicos, como as obras de Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco ou Soeiro Pereira Gomes.
7. Qual o livro que achaste “chato”, mas que, ainda sim, leste até final?
Todos os livros que li sob as instruções rígidas da escolaridade marcaram-me, num primeiro momento, negativamente. Alguns deles acabaram por ser recuperados, mais tarde, quando na sequência de leituras espontâneas ou de insistência. Presentemente leio/releio apenas aquilo que me agrada.
8.Indica alguns dos teus livros/autores preferidos.
Na poesia, toca-me particularmente a escrita de Al berto, Herberto Hélder, Nuno Júdice, Jorge Sousa Braga, Sophia de Mello Breyner, Rimbaud, T.S. Eliot, Pablo Neruda, Dylan Thomas, Ezra Pound…
Na prosa, sou um leitor indefectível de toda a obra de José Saramago, para além de ter um gosto especial (que me vem da juventude) pela obra dos neo-realistas (sobretudo Fernando Namora e Manuel da Fonseca). Num registo totalmente diferente, mas admirável (porque conhecedor do homem, mas sobretudo da mulher, das relações e dos afectos) é, ainda, a obra de Alçada Baptista (especialmente o Tecido de Outono). José Luís Peixoto é, para mim, hoje, um nome igualmente incontornável. Gabriel Garcia Marquez reveste-me na pele. Depois, ainda há os clássicos, com Eça à cabeça…
9. Que livros estás a ler?
Estou a terminar a segunda leitura [a primeira foi há quase 20 anos] de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Encontro-me na fase em que Ricardo Reis se confronta com todos os seus fantasmas, receios, delírios e até fantasias, projectados na indefinição em torno de questões como “regressar ao Brasil/montar consultório em Lisboa?”; prosseguir com os encontros fortuitos e carnais com Lídia/explorar os afectos quem sabe se com Marcenda?”. A funcionar como entidade sub/sobreconsciente, Fernando Pessoa, seu pai e criador, acabado de morrer, mas que continua a aparecer-lhe em imagem imaterial.
Leio, ainda, a poesia de Daniel Faria, em Os Líquidos, uma pechincha de 3€ numa feira de rua, em Lagos.
Depois, há todos aqueles que leio sempre que posso, nos blogues: Assis, Roberto de Lima, Rejane Martins, Cecília Romeu, Laura Alberto, Andy, Tânia Contreras, Cris de Souza, Outros Encantos, Analuz, Cid@, Ingrid, Dilso, Celso Mendes, Assíria, Lara Amaral, Suzana, Lívia Azzi, André, Priscila, Carla Diacov, Zélia, Sandra, Luíza, Vanessa, Ira Buscacio, Oceano Azul, Vivian, e tantos outros que ajudam a povoar o meu quotidiano leitor. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Festival Sudoeste 2011 – Interpol e The National [dia 07 de Agosto]


Tens menos de 30 anos, gostas de música discoteca e de beber até que a alma doa? Vem ao Festival Sudoeste!!!


Este poderia muito bem ser o slogan do festival de Verão mais conhecido do país, aquele que atrai quase 40.000 pessoas por dia ao imenso recinto da Herdade da Casa Branca, numa das zonas mais bonitas de Portugal: a Zambujeira do Mar.
Não precisei de conferir a minha data de nascimento no Bilhete de Identidade e muito menos de espreitar as faixas que guardo zelosamente no mp3 para ver [não a dobrar] e saber que estava deslocado do maléfico slogan que aqui engendrei.
Mas, o que me arrastou até lá, afinal? Loucura ou masoquismo? Nem uma coisa nem outra.
A verdade é que mesmo com tristes notícias de assaltos em tendas e histórias de violência e drogas, o SW tem algo de muito especial que me atrai desde há alguns anos (ainda que com presenças intermitentes): praia, pé no chinelo, calor, [alguma] boa música, um ambiente que no recinto é descontraído e muito simpático, mas, sobretudo, memórias [muitas, vividas e por viver] justamente tudo o que em cada um de nós permanece para lá da frágil materialidade.


Pode parecer estranho, mas, sem o saber, planeei esta viagem até à 15ª edição do SW em Paredes de Coura, no distante verão de 2008, quando, ao som de Sex Pistols, confidenciei aos camaradas de festival que a banda a que mais queria assistir ao vivo se chamava Interpol. Choque absoluto! Então, e Radiohead? E Pink Floyd? E U2? Por mais argumentativo que tenha sido, a verdade é que não fui capaz de vencer o cepticismo de todos e das minhas palavras certamente sobraram faíscas de provincianismo ou sandice musical.
A resposta encontro-a nas minhas mais fundas raízes musicais, quando, ainda menino, escutava Joy Division, banda do mítico Ian Curtis que compunha sobre a vida como ela é [ou nos parece], sempre num registo sombrio que explora as viagens emocionais do indivíduo, o caos e a ordem, a alienação, a degeneração urbana e demais sensações com que nos degladiamos no dia-a-dia, muito para lá do que o corpo e a mente sabem [podem] suportar.
E porquê Interpol? Porque nenhuma banda desde então, na esteira de Joy Division, foi capaz de me tocar tão intensamente os sentidos, e sobretudo a alma, como esta nova-iorquina.
Imaginá-los ao vivo foi uma verdadeira aventura sensorial, mesmo sabendo que o seu registo se enquadra mais num ambiente intimista, pessoal e fechado de uma qualquer sala de espectáculos do que num cenário de festival. Tê-los no Sudoeste era um risco que eles, eu e todos os que se deslocaram até à Zambujeira propositadamente para assistirem à sua actuação tinham de calcular.


O concerto, inicialmente aprazado para as 22h, começou com um atraso de 45 minutos. Talvez por isso, a que acresce o facto de esta ser a derradeira noite de festival e ainda de haver, a fechar o dia, uma banda com uma fórmula comercial de sucesso que arrasta milhares em qualquer contexto – Os Suedish House Mafia –, os espectadores estavam dispersos ou, se diante do palco, faziam-no com o único intuito de aguardar pelo seu momento musical. Consegui, por isso, arrastar-me com facilidade até à grade diante do palco onde, conjuntamente com uma mole apreciável de dilectos seguidores, pude seguir uma hora exacta de um concerto que, para a crítica, foi “frio, para não dizer decepcionante”. Nada mais enganosa esta apreciação, a provar que a crítica especializada avalia as performances por critérios como os gritos da assistência, as palhaçadas dos músicos em palco ou o número de improvisos nos alinhamentos musicais dos discos gravados. Essa não é a essência de Interpol e a verdade é que quem os conhece delirou com um concerto sério, assertivo, muito próximo das canções originais, sempre de recorte fino e delicado, a dar corpo à máxima “what you see is what you get”. Do alinhamento musical, o álbum Antics foi estrela com uma mão cheia de excelentes canções, bem acompanhadas de outras faixas conhecidas de um público devoto e irredutível. Frios e pouco expressivos? Talvez, mas não serão esses atributos marcas de identidade de uma banda que recusa os formatos que tão subitamente transformam astros em estrelas cadentes? De resto, vi Paul Banks sorrir e Kessler a deslizar pelo palco em souplesse enquanto desferia os acordes de Evil, Slow Hands, Heinrich Maneuver ou da inigualável Not Even Jail, o que é para mim indício de que tocavam com prazer para quem os soubesse escutar.


No final já não tinha voz. Mas ainda faltava The National…
Não sei se por se aproximar a hora mais aguardada da maioria dos festivaleiros, se por terem visto Matt Berninger actuar de copo de vinho na mão, a verdade é que o público apareceu em maior número no concerto de The National, tendo sido também mais participativo.
Mas, de novo, senti o concerto como perfeito no lugar errado. Com uma postura em palco mais interactiva e uma set list cuidada, combinando algumas faixas mais populares com outras que funcionaram como testes ao excelente último álbum [não tendo mesmo faltado melodias que convidam ao relaxamento do batimento cardíaco], os The National mostraram que são mais camaleónicos do que os Interpol. Todavia, que concerto pode resultar em absoluto se diante de um público que os conhece de nome, que aplaude nos hiatos de algumas faixas, que conversa para o lado, ou que clama pela banda que vai actuar no momento seguinte?



No encore (frouxamente clamado pelo público, como o próprio Matt fez notar ao microfone), o tom subiu ao som dos inevitáveis Mr. November e Terrible Love, tendo atingido a sua expressão maior quando o próprio vocalista desapareceu por entre a multidão, deixando os seguranças com os nervos em franja.
O Festival terminava aqui, para mim. Já eram quase 2h da manhã e os festivaleiros ávidos de decibéis descontrolados e luzes de discoteca acotovelavam-se para chegarem até junto do palco para o derradeiro concerto. Voltei as costas ao palco; o meu lugar bem lá à frente ficava para todos aqueles que não distinguem bolotas de pérolas.

interpol, slow hands

the national, sorrow

sábado, 6 de agosto de 2011

trilogia a duas mãos

william blake, urizen

I.

as tuas cicatrizes
ainda me soletram o corpo
neste colapso virgem de violinos

o contacto com as sombras
atira-me o olhar sobre a janela
em trilhos de lírios azuis
que a treva silencia

as tuas cicatrizes
ainda me sofismam o corpo
neste contralto virgem de violinos    

o correlato com as sombras   
atina-me o olhar sobre a janela
em  ladrilhos de lírios azuis
que a treva sentencia


II.

do outro lado de mim
há canteiros secos
vozes mortas
copos e lábios inebriados
como índicos sem oriente

tudo é refluxo de vento
sem tempo e alento

do outro lado de mim
há candeeiros cegos
vozes tortas
copos e lábios incendiados
como imagens  sem oriente

tudo é rajada de vento     
sem templo e acento


III.

no fundo de rostos inexistentes
deponho as pálpebras
sem medo da erosão:
quero eternizar este mito
em rimas febris de cal branco

mas, mesmo em verso,
continuo sem saber
onde esconder-me

no filme de rostos inexistentes
decomponho as pálpebras
sem medo de expressão:
quero edificar este mito         
em rimas ardis de sal brando

mas, mesmo em verso,
continuo sem saber
onde exorcizar-me

por cris de souza & jorge pimenta

rodrigo leão, ruínas

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

etiquetas XV

k. steppenwolf


“Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum, tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo, Ricardo.”

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis


I. modalizações de voz

i. toda a escrita revela
e quase tudo esconde.

ii. as palavras não são o que aprendemos
mas tudo o que [não] conseguimos dizer.

iii. todos os hiatos invisíveis
são o que mais delicadamente nos define
até porque tudo o que revela é incompleto.

k. steppenwolf

tecido boreal
dedicado à minha amiga cecília romeu
do blogue http://anaceciliaromeu.blogspot.com/

alfabetos sem gramática e decifração
agitam o oceano
enquanto a voz desprende
limos talhados com escopo e memória.

em vigília espantam feras
e tocam a cassiopeia
porque as estrelas que cruzam os desertos
nunca são o que nos separa dos homens.


the smiths, there is a light that never goes out

segunda-feira, 25 de julho de 2011

crime perfeito para canção de aconchegos e infinitos



parque natural de são jacinto

provocámos a noite.
inventámos a canção
e sabíamo-la perfeita, quase sibilina,
como todos os sons de um violino de alfazema.

recordo as verdades embrionárias
deambulando pelo interior dos corpos
em passos de açucena
e movimentos de primavera.
e ríamos na integridade do tempo
na madrugada das lágrimas
na agressão de todos os amores perfeitos

noites mais tarde revisitei a pauta
já sem instrumento, sem voz, sem melodia.
acreditei no verso que compusemos
como num estuário de movimento perpétuo
empurrando o sal e o mel das águas
para o abismo das pétalas que reparam a pele
para o solo das flores que rebentam sem luz.

a solidão enterrou-nos o sono
e a memória insone é agora o altar onde sacralizámos os deuses.
há silêncios musicais a dourar o excesso vocal
há medo a borbulhar no paraíso das bocas
há golpes de diamante a apagar as letras.
dessa melodia sobra apenas o véu luminoso
de cometas deslizantes sobre cordas
que na noite perderam a cauda
[oh, como descem o ar
à procura da imobilidade absoluta dos corpos].

a música é como a morte:
ambas são a verdade mas nenhuma se explica.

smog, to be of use

segunda-feira, 18 de julho de 2011

verso branco para árvore em tons de corpo amnésico

jean sebastien monzani, memórias

deixei o poema na tua mão.

para que mo pediste
se te demoras em pontes inquietas
aguardando a passagem dos rios?
eu sei, não queres correr
e todas as decisões
são apenas poeiras inúteis na superfície do ar.
que tudo passe, que tudo leve e transforme
diante das orbes frágeis dos olhos,
desejas,
mas nem isso consegues dizer mais alto do que o medo
porque todas as palavras vivem dos segredos
e do que não deixas entender.
há em ti um modo secreto de tudo dizer
e um instrumento barroco a dourar-te o silêncio
como se respirassem nele as verdades da escrita.

deixei o poema na tua mão.

enlouqueço na apatia das letras
e estremeço na letargia dos sons
porque esqueci de que cor é o lírio da tua voz.
 já não sei escrever
e os meus lábios adoeceram no frio da canção
enquanto o mel da criação
funde os sexos numa massa mole
que se desprendeu da árvore
e apodreceu na mão do criador.
até os deuses parecem figuras menores
com existência digital
entretidos a pôr laços pretos nos pescoços dos homens.

mas, olha, não desisti de saber
onde escondes o pêssego maduro
que atravessa os ossos esquecidos
enquanto o corpo treme
acendendo a poeira e todas as promessas sem roupa.
porque a vida é a minha sentença,
rejeito as pálpebras do mundo
e as cortinas onde se escondem os desejos transparentes.

the national, vanderlyle crybaby geeks

sábado, 9 de julho de 2011

retórica incandescente para tecido de sustentação corporal

aljezur

sim,
atira-me ao fundo do mar
como quem beija,
todo o tecido pede violência
para medir a resistência.

quero os teus pulsos
de guelras temperadas em sangue negro,
um dia, cordão de açúcar,
no outro, lábio de voo plano.
desejo as tuas mãos
de óleo com escamas na pele
a escorrer precipícios trágicos
sobre a trajectória dos peixes.

sim,
ata-me às rochas do mar
como quem ama
prende-me com algas
mesmo que a eternidade se escreva com cinzas
dispersas pelo vento
algures entre os trilhos de sangue aceso por dentro
e os pés que tropeçaram nas botas e no caminho.

se todo o amor fica incompleto
na estreiteza do corpo
e os lábios adormecem
na contracapa da noite
para quê recordar as cartas recebidas?
as palavras são apenas ossos brancos
a apodrecer no negativo fotográfico
com que um dia ousamos
fotografar a melancolia dos rostos.



einsturzende neubauten, blume

terça-feira, 5 de julho de 2011

Projecto Crescer no Palco

É, seguramente, uma das mais lidas, encenadas e vistas peças de teatro escritas em português: o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Poderá pensar-se Oh, não, esta peça outra vez?, tantas são as vezes que é estudada e, talvez por isso mesmo, vista por alunos e professores, em diferentes propostas, ao longo dos anos. Todavia, não conjuguemos planos que, na génese, pertencem a quadros distintos: por um lado, existe a peça, património do dramático, objecto de estudo na sala de aula, como tantas outras; por outro lado, existe a representação proposta por companhias de teatro mais ou menos credenciadas, de norte a sul do país, em sequências de espectáculos a que todos os nossos jovens de 9º ano assistem; num terceiro plano, existe a apropriação do texto e a sua interiorização em cima do palco, por recurso a um conjunto de linguagens (dramática, cenográfica e musical) que complementam a linguagem académica (tantas vezes teórica e teorizante), consubstanciando-se esta nova acção numa aprendizagem segura, sustentada e significativa, ou não fosse polida pelo crivo da experiência.


Assim nasceu o projecto Crescer no Palco, em 2009/2010, então com a representação de uma adaptação da obra O Macaco do Rabo Cortado, de António Torrado, a que se deu continuidade, em 2010/2011, com a mais conhecida das obras de Mestre Gil.
Os trabalhos arrancaram bem cedo, no início do ano lectivo, por altura em que se procedeu à atribuição de papéis pelos 23 alunos da turma, logo após um breve casting baseado, quase que exclusivamente, na leitura de trechos de cada cena. Seguiu-se o trabalho de memorização do texto em simultâneo com os primeiros movimentos de palco para desinibir a ajudar a interiorizar a personagem, os seus tiques e comportamentos.
Já no segundo período, foram tomadas decisões relativamente aos adereços (integralmente recolhidos e, quando necessários, construídos de raiz pelos alunos e seus encarregados de educação) e ao som a incorporar na representação (que contou com uma selecção que ia desde música palaciana ao Heavy Metal, havendo ainda incursões pela música clássica e cinematográfica de permeio). Foi ainda nesta fase que o Professor de Educação Visual, Francisco Assis, projectou, concebeu e concretizou, juntamente com um grupo de alunos da turma, toda a cenografia da peça. A definição de aspectos pendentes acabou por ser solucionada pelo Professor Zé Manel que, com a sua experiência e voluntarismo, resolveu franjas sensíveis que acabariam por tornar-se determinantes no desenvolvimento dos trabalhos (ex.: sistema de som, adereços que os alunos não conseguiram recolher, cortina no palco, etc).

Eis-nos, assim, chegados ao dia por todos esperado. Foi no 29 de Junho que os EE, familiares, Professores, AAE e amigos dos “actores” se deslocaram à escola para assistir ao trabalho de um ano que se materializou em cerca de uma hora. Uma sala quase repleta, aplausos com o brilho nas mãos, algumas lágrimas esquivas e um Gil Vicente que teima em permanecer junto de nós (apesar dos 500 anos de vida) são o garante maior de que a iniciativa cumpriu integralmente tudo quanto os seus promotores idealizaram.
Um ano desaparecia como areia breve por entre os dedos dos jovens actores. 60 minutos parece pouco tempo para tamanha empresa preparatória, mas há tempo dos homens com cuja tinta se escreve a própria eternidade… ainda que no papiro da memória.





marilyn manson, the beautiful people
[música utilizada na cena do sapateiro]

quarta-feira, 29 de junho de 2011

etiquetas XIV



I. rejaneando       
[dedicado à rejane martins – rejaneando.blogspot.com]

a tua voz pontua o milagre
abrindo em sopro descontínuo
todos os silêncios
com que defines a melodia dos homens.
na plateia
condecoras a vida
com o manto da nudez
resistente ao tempo que nos percorre pelo lado de dentro.

Só tu sabes que
todos os deuses exercem a autoridade fora da terra.



garrafa [marcantónio]

II. neoprometeu
[dedicado ao marcantónio – diarioextrovertido.blogspot.com
publicado em tremdalira.blogspot.com, da cris de sousa, a 22/06]

tens as veias a incandescer nas quatro estações do homem:
toda a garganta se serve com espinhos
mas a tua guarda o travo do mel
algures entre a saliva e o sangue
como se todas as coisas ditas [todas]
sintetizassem a voz dos que perderam o tom.

aprendi que nenhuma palavra tua muda
e até a gramática é candeia acesa ao meio-dia.
afinal, a tua boca, por cima de nós, estremece ao ritmo do fogo.



guimarães

III. constelação de carne nua

todos os versos anunciam a paz
mas declaram guerra:
ter e perder
poder e falhar
desejar e morrer.
ah, os dentes são sempre de leite
na boca do poema...



zambujeira do mar

IV. poesis

marinheiros agitados em oceanos
sem sono
sem medo
sem nome.

a geografia da escrita?
apenas contingência menor.

radiohead, knives out

quarta-feira, 22 de junho de 2011

luzes e sombras, de alvaro gutierrez

do lado de lá

minhas palavras seguem confusas
como aglomeradas pessoas.
dê-me suas mãos e mostre a sua imensidão,
e tu me farás saber como entrar neste arrebento.
suas palavras trovejam;
veja o quanto fui influenciada
pelas suas ancas tortas.
depois eu penso, eu penso!
vê o que podemos escrever.
das suas mãos jorra o vermelho,
[não sei qual a composição certa],
esperei-te, amor,
e nessa espera, tremi.
as notas da canção,
só miram palavras, palavrinhas e palavrões
nestes lábios que não provará jamais,
seu desejo é loucura,
meu é procura.
percorri por suas palavras
– não ousei olhar este lugar,
não te reconheci,
não soube reparar-te, amor,
por não te conhecer.
pedi muito
[hoje sei
o quanto que te pedia]
mas suas arrogâncias me feriram,
tornaram-se chagas
as feridas abriram-se
me senti assim longe de mim,
do mar,
das palavras que naufragam.
ouves minhas lágrimas?
ouves minha voz
a voz contida nas palavras?
dê me suas mãos, querido,
e faz-me saber de perto teu suor.
ah, estou falando parvoíces...
como posso não te ver e sonhar?
como posso não te ter e sentir?
[ela ralhou e junto o tremor...]


e do lado de cá

escuto-te com pó nos tímpanos,
amor.
procuro ler-te os lábios,
mas as palavras têm visco
que acena, sorri, adeja o rosto e avança
contra a corrente escorregadia
dos nossos rios lisos.
e as noites são individuais
como as aves necrófagas
que desenham as suas vítimas
no círculo do olhar,
e o caminhar é apenas intenção
a uma perna só
entre movimentos cambaleantes
e sprints olímpicos
de tocha-por-arder
[prometem-me a respiração dos deuses
mas apenas me sobra o contágio do corpo]
sabes,
todos os amantes apertam o ar
mas acabam nos baixios dos braços
e na semi-fulgência das palavras.
como tu,
sinto a parvoíce a lavar-me a boca,
enquanto aguardo decisões explosivas
[o que a boca não sabe é que a pólvora
me secou nas mãos]
e palavras de linho branco
[como esconder o ópio dos lábios
se os dentes apodrecem
na prisão do corpo?]
como tu, sou parvoíce.
nenhuma promessa
pode servir-se em bandeja de ouro
como um anúncio de tv
na procissão lenta das horas
[ele desligou-se e o eucalipto da voz conseguiu adormecer].

michelle cristal & jorge pimenta


madredeus, haja o que houver

sexta-feira, 17 de junho de 2011

timidamente como quem espreita

fortaleza de sagres, igreja de nossa senhora da graça


e depois
os fusíveis estouram
e pernoito na tela
de um clássico a preto e branco

e depois
os amantes suicidam-se
e adormeço na língua de água
que não é rio e jamais será mar

e depois
todo o corpo se ateia fogo
e morro lentamente
no vapor de estrelas pressentidas

tudo
porque aprendi que a semente germina
para morrer duas vezes:
antes e depois do fruto.
e todos somos o livro escrito com gás,
o livro que volatilizou a história
com a palidez sombria das palavras.

interpol, not even jail

sábado, 4 de junho de 2011

disparos de palavras secas sobre a pólvora vulcânica da boca

kristin linder

maltratámos as palavras com rugas
embrulhadas nas raízes
das nossas bocas
e o verso foi cedendo ao metal líquido da forja
entre o ventre do vulcão e o fogo.

nem os pardais de beira-costa
escaparam à sua pólvora:
afogaram o mar
esqueceram o olhar
e depuseram as asas aos pés de um sono antigo
como se a morte fosse a resposta
para todas as perguntas que não soubemos formular.

estremece-nos nos pés o rugido da lava
na composição do poema-mar.
ah, ao lixo com as palavras mal-ditas
que as asas dos pássaros acordaram
[os olhos querem-se cegos na liberdade do voo]
e a morte é o orgasmo da alma
na nova alvorada dos sentidos.

finas, metálicas, insidiosas:
para que servem as palavras
se há tão pouco a dizer?


por outros encantos & jorge pimenta

björk & thom yorke, i’ve seen it all

terça-feira, 31 de maio de 2011

deslocamento orbital sobre graal em sangue seco

fotografia de antónio nunes

hoje acordei com nicotina nos lábios e a garrafa entornada ao lado da cama.
o espelho tem a face queimada pelas linhas brancas que embaciam o olhar.
Ah, inspiração, és o sexo do poeta guardado pelo trifauce da obscuridade. é verdade, procurei seduzi-lo, comprar o poema, vender-lhe o corpo – a sobrevivência da plêiade é aquela côdea de pão bolorento que serve de festim às moscas. mas a ambição do inferno é apenas um balde negro e vazio que nem a faísca do olhar prostituto consegue acender.
não soube encontrar o fogo dentro de casa, mas a pólvora persiste em bordejar as pontas dos dedos enquanto o corpo áspero é muito menos que lixa a aguardar pela fricção. não havia fogo cá em casa mas todo o homem é o seu poema, mesmo que inflamável.
malditas, malditas que escorrem negras pela face, as letras que fogem aos dedos entorpecidos, moribundos sobre o papel!
malditas, malditas que me roubam as horas dos dias, as horas das noites!
e a corda enrola-se no pescoço, aperta a pele, comprime os músculos e o sangue em golfadas, pelas veias, assassina as palavras sobre a areia imunda.
às escuras, adivinho a sentença. sei que preciso do meu castigo no intervalo do meu desejo, no interlúdio da minha peça, nas letras vazias do meu poema. mas a música deixou de me tocar e os deuses, do alto da sua torre, mijaram-me em cima.

laura alberto & jorge pimenta

david bowie, i’m deranged

quarta-feira, 25 de maio de 2011

orvalho em voo migratório sobre aves sem asas e geografia


                                    zambujeira do mar

com as tardes encaracoladas nos dedos
encontrei pontos negros na pele.
percebi, então,
que o homem já não precisa do corpo
a poesia despede o coração
as balas dançam com os amantes
e toda a sujidade é a roupa branca
a engalanar os lacraus peçonhentos
que sodomizam as cidades.

encolho os ombros,
dobro o jornal e levanto-me
com o mundo enrolado debaixo do braço.
sigo para a porta e já sei a verdade:
nas notícias dos homens,
implora-se a deus que não chova;
importa não lavar a terra que trazemos agarrada aos olhos.

dark dark dark, wild goose chase



The National no Coliseu:
os tectos perfumados das palavras em acordes de violetas




À medida que passamos pela vida, vamos elaborando pequenas agendas mentais onde guardamos aquilo que temos de fazer antes de nos completarmos. Aquele livro adiado, a visita ao amigo cujo rasto se desviou da auto-estrada da vida, o país sonhado…
Do meu ainda pouco explorado rol de afazeres obrigatórios, há dois concertos: Os Interpol (planeados para Agosto) e, sem coincidências, este dos The National.
O palco foi o Coliseu do Porto, ontem mesmo, dia 23. Impossível não o adivinhar: duas horas antes do horário previsto, as ruelas de granito escuro desviam o olhar do tédio dos fins de tarde para se fixarem na atmosfera variegada de todos quantos, como eu, têm já bloco de notas existencial.
Conjugar o Porto com The National parece tarefa tão natural quanto óbvia. Como a cidade, esta banda norte-americana tem uma pele negra mas elegante, onde as paredes do exterior guardam, ciosamente, uma complexa rede de emoções que, como o do comum dos mortais, se cose com as linhas da melancolia, não dessa barata, que assina clichés em arrufos, ou castigos na boca dos piegas; falo da melancolia que desagrega redimindo.
São assim os The National: não se entregam a melodias imediatas, coloridas e adolescentes, capazes de, num estalar de dedos, oferecer os louros das charts para, no silêncio seguinte, os arremessarem contra o esquecimento; das letras, apenas a maturidade de quem procura conhecer o Homem, as suas frustrações e delírios, conhecendo-se a si mesmo. E é neste compromisso sério na relação com o público e, sobretudo, com a música, que a banda de Matt Berninger consolida o seu percurso, hoje, enquanto uma das bandas de maior identidade no mundo.
O Coliseu sabe-o e, por isso, encheu. Cerca de três mil e quinhentas pessoas lotaram-no para um concerto que se previa (eu previa!!!) intimista, noire, convidando à cadeira com leves meneares de cabeça e lentas projecções de perna. Puro engano. The National são um verdadeiro lobo com pele de cordeiro. O soturnismo e a melancolia dóceis também sabem incendiar as plateias com fogueiras de energia e carisma musical. Literalmente. E a razão é uma só: a natureza da sua música faz-nos viajar numa montanha-russa melódica, ora viajando nos acordes graves da voz de Matt (há ali tanto de Nick Cave!), apenas acompanhados de leves gemidos instrumentais, ora mergulhando na vertigem rítmica onde a delicadeza da voz se converte em clamor ferino. Escusado será dizer que bastaram não mais que duas músicas para que a plateia se erguesse e os mais afoitos se esgueirassem, por entre cadeiras, até à boca do palco, fazendo recordar os concertos ao ar livre nos festivais de Verão. E foram cerca de duas horas de saltos, de braços no ar e de gargantas unidas a reafirmarem que os bons concertos não têm forçosamente que seguir a receita standard, com milhares de pessoas, riffs de guitarra isolados ou mediatismo; os bons concertos também se fazem em lugares de culto, com um público restrito mas conhecedor, que sabe tirar partido daquilo que valoriza verdadeiramente.
No final, dois encores surpreendentes. No primeiro, se Mr. November fez explodir o coliseu, este anfiteatro ruiu quando, com Terrible Love, Matt Berninger se passeou junto do público, como se numa festa de amigos estivesse desde a primeira hora. No segundo encore, uma proposta diametralmente inversa: Vanderlyle crybaby geeks, unplugged, entoada numa garganta única por todos os Nationalists (termo sem conotações algumas para além da ligação à banda) ali presentes.
No final, as mãos desceram ao bolso para actualizarem a agenda. Surpresa: o concerto não surgia riscado, antes exibindo caracteres tão maiores quantas as emoções de mais uma noite inesquecível no Coliseu. Afinal, sempre há coisas que não se completam nunca. Quando é que eles regressam?

the national, conversation 16