a minha cabeça desprende-se da espessura do corpo. é tão-somente trono de madeira tosca com os braços abandonados à montanha emudecida, como se já não vivesse na casa sem luz ou se esquecesse da matéria corrupta.
a minha cabeça desentende-se da estação do corpo. é tão-somente outono de pedreira fosca com os bagaços arvorados à castanha endurecida, como se já não vingasse na terra da cruz ou se encontrasse de maneira abrupta.
na explosão da matéria o jardim ergue a boca para estrelas sem céu em busca do beijo com os lábios da rosa.
na exposição da artéria o carmim vergue a porta para flores sem mel em busca do rumo com os dentes da sobra.
no corpo o mel e os jasmins ordenados num compasso traçando as linhas do instante. a cabeça tocava o sol o coração o eclipse e todo ele foi nave de seda e cidade transparente.
todo o mundo foi um dia todo o homem.
sei que o peixe de fogo ainda guarda o enigma da felicidade no fundo do teu olhar breu líquido onde só o homem desassossegado sabe chegar.
Interpol, Pioneer to the Falls
refrão: "And oh you try.. You tried.. straight into my heart You fly.. straight into my heart Girl, I know you try... You fly.. straight into my heart You fly.. straight into my heart But here comes the fault (fall)."
Minotauro no labirinto (mosaico romano, Conímbriga) é cá dentro que os nossos jardins morrem como labirintos. são ramos escondidos água quebrada e flores desligadas assistindo à erupção vulcânica enquanto os poemas nos anoitecem nas mãos (nas nossas mãos).
toda a escrita espera um minotauro e nem a raiz que respira dentro de nós sustenta a tempestade de areia.
é vento. é frio. é noite. é a tábua cruzada.
e o álcool louco envenenando a língua como brincos de cereja nas tuas orelhas. e as palavras ébrias entumecendo na boca como versos corcundas de não saber-dizer.
olha, eu queria descobrir em que parte do labirinto estendeste o cordel para não ter de esperar por outra vida inteira...
dentro, suspende o seu movimento privado da nudez que embriagou o umbigo do medo. está fria devoluta e até as metáforas encardem na sujidade do passado.
fora, pássaros de veludo e cães embalsamados afogam a ilusão de um deus presente nos versos.
a meio caminho tu e eu perdidos no endereço e na chave acabámos por envelhecer fora do tempo (e este temporal que não cessa…).
pela manhã, o calor humedecia-nos a boca com o leite de figos enquanto ao redor o campo e a cidade ardiam nas mãos.
à tarde, enfiámos a cabeça na boca do leão, como se as janelas abrissem sempre para a foz do medo (o insecto ainda foge do químico?).
à noite, desprendemos a língua e erguemos a nossa babel. os lábios para sempre encostados ao lusco-fusco da pedra anónima algures entre o grito e o silêncio de todos os beijos que não soubemos dar.
o domingo de sol comprometido (esqueço-me sempre que é dezembro e os candeeiros asfixiaram no petróleo). o concerto foi cancelado (a amália morreu). o benfica perdeu nos penaltis (a roda gira às avessas). o gato fugiu (nunca esteve verdadeiramente comigo). o leite azedou no frigorífico (e eu que detesto chá). a cal desprende-se das paredes (a cor já há muito mudou). os ossos rangem o sorriso adoece e os lábios mirram (o sangue secou em todas as orlas). … então e eu? estrebuchando em equilíbrio táctil nos braços molhados do teu telhado.
10 horas da manhã. o sol faz levitar a paisagem bem acima da embriaguez nocturna, indiferente às fotografias desbotadas que escorrem pelas artérias do corpo. sorrisos de pedra para lá, esgares iracundos para cá, num alvoroço tépido que penetra os poros do 8.º andar daquele prédio velho que chora as memórias de um tempo sem ruína. bom-dia! como está? estimei vê-lo! e logo os lábios se fecham na turbina tóxica da viagem que parece perder-se no próprio des[a]tino. aqui, o rugido de um autocarro, ali, o vómito de um cacilheiro, aqui e ali máquinas em estrépito viril violando o silêncio nos tímpanos cansados de um coração arquejante como a rabeca daquele cego que durante anos não consegui ver.
meio-dia! o sol perdeu o mapa da viagem e os corpos tornam-se cada vez mais fotográficos (há-os digitais, em negativo e polaroid). são passos fazendo tiquetaque, braços agitando persianas, relógios em colapso cardíaco, lojas sem cães, armazéns, máquinas, automóveis, camiões, cortadores de relva, britadeiras, betoneiras, aviões a jacto, tudo a relembrar à eternidade que foi inventada para morrer, bem ali, no frémito cinzento, na voragem psicadélica, na vertigem magra da hora de ponta.
fim de tarde. na volta do sangue, o sol inclina-se sobre o mar, rejeitando assistir ao fluxo giratório de um mundo que não escolheu aquecer. é agora que os termómetros perdem a erecção e os relógios se afogam na afonia de pássaros devastados pelo relâmpago urbano. rostos? apenas um ou outro incapaz de entender como é possível reluzir no escuro. a noite entrava no corpo. é a hora! as folhas que esquecemos no vulcão quotidiano agitam-se no bailado daquele gato listado pelas cores do amor falhado. o mundo esvaziou-se e a sua respiração suspendeu-se na fita magnética de um filme mudo, a preto e branco. à volta de um candeeiro, pirilampos cortejam a noite enquanto dançam ao som de talheres saltitando na banca ou de corpos em combustão na cama.
e no meio desta selva desflorestada, com cheiro a orvalho e a alfazema, as metáforas bocejam inaugurando o descanso no útero da insónia. já se esqueceram de que cor é o silêncio… já se desabituaram do paladar da quietude… já perderam o emblema da serenidade… no seu corpo estendido no escuro, vive o coração moribundo de uma cidade em permanente hora de ponta que queria saber morrer.
as manhãs são tristes. aprendi-o com os homens e entendê-lo levou tempo.
durante meses choveu nas minhas mãos e agora que o sol dispara cedilhas de fogo ao som de rosas surdas queimei a sombra onde queria abrigar a tua pele... - raios!
durante anos escrevi livros redondos onde os poemas eram bocas amarelas com o hálito do bolor enterrados em castiçais sem cera logo agora que te queria escrever que és tão minha como as más recordações... - bolas!
as manhãs são tristes como os círculos de um peixe dourado no sono do aquário. morre no abandono dos rios que deixaram silenciar a voz nas cordas do violino.
e agora? jé nem os pássaros cantam o peito da terra (atravessaram o inverno para outras sinfonias).
e agora? aprendi o silêncio com os homens (deles apenas quero a loucura do sangue).
nesse dia atravessei o inferno com as mãos orvalhadas. adivinhei lamúrias receei perguntas fuji das respostas.
oh, boca, voz bailado sem corpo na respiração amarela do medo onde estás?
ambos conhecíamos a origem do sangue (mel e jasmim, lembras-te?) mas os deuses do silêncio adormeceram em olimpos de sal como figuras com favos nos lábios e pétalas nos dedos.
por isso deixei de acreditar nas bíblias dos homens e o corão é os olhares escondidos em espelhos.
são homens a roer bagos de uva são homens a calcar páginas brancas são homens a roubar o círculo de fogo são homens a procurar o pecado que engrandece (reparaste como tudo se transforma nas roldanas do silêncio?).
é preciso matar as palavras afogá-las no seu veneno fuzilá-las com a sua pólvora apunhalá-las no seu cristal apagá-las no seu rasto riscá-las do poema adormecê-las na sua insónia trucidá-las no seu cinismo.
é preciso desinventar as palavras para sabermos quando é a hora de morrer.
Tantos são os anátemas sociais acerca da relação que os portugueses mantêm com o livro e a leitura que é recorrente, hoje, escutar-se declarações, nos mais diversos contextos, que apontam ao mais fundo pessimismo. Os portugueses não lêem; Os livros são caros; Os jovens não gostam de ler… são frases (mais ou menos) feitas em que vamos tropeçando a toda a hora. E, se é verdade que, dados de estudos internacionais sugerem que, comparativamente com cidadãos de alguns países (sobretudo da Europa do norte), os portugueses apresentam défice de frequência e competência de leitura, não o será menos que, no terreno, haja sensibilidades que nos levem a adoptar uma postura de menor cinzentismo. O exemplo maior desta realidade é a II edição da Semana da Leitura que o Grupo Disciplinar de Língua Portuguesa da minha escola acaba de dinamizar.
E tudo começou com a monção da poesia no espaço exterior da escola. Celebrando a Primavera e o final das chuvas que fustigaram os ossos e os sorrisos, em Abril choveram não águas, mas poemas mil; nas árvores, nas portas, nas janelas, nos bancos de jardim, nas papeleiras… foram afixados poemas de autores nacionais e estrangeiros, sagrados, consagrados e experimentais, numa exaltação viva do que de mais sensível a poesia tem para oferecer. E ninguém se encharcou; ninguém vociferou aos deuses.
Já no espaço interior, montámos uma Feira do Livro, com o apoio da Inovação à Leitura, que funcionou em permanência durante três dias. Recebemos a visita de leitores de todas as idades que iam denunciando o frenesim do manuseamento, da leitura e da aquisição de centenas de livros.
Simultaneamente, pendiam das paredes fitas de papel de cenário emolduradas por poemas e imagens criteriosamente seleccionadas para que os visitantes do certame deixassem o seu depoimento. E tantos foram os que não quiseram deixar as emoções amarradas ao coração… tantos foram os que quiseram partilhar as deambulações mudas em torno de lugares, tempos, personagens e sensações que respiram pelos poros das páginas mágicas que se espreguiçam diante de nós...
De viagem em viagem, entrámos no vagão das conversas com escritores e ilustradores. Foram vários e com tão arrebatadoras histórias aqueles que nos visitaram! Começámos com o ilustrador e caricaturista Onofre Varela que leu parte da obra “O Sobe Montanhas”, ilustrada por si, e que conversou com os alunos sobre a sua actividade enquanto ilustrador. Terminou oferecendo-lhes desenhos muito variados, elaborados a partir de um risco feito por eles.
Visitou-nos, também, José Fanha, poeta e escritor de obras infantis que, despedindo simpatia, nos levou pelas entrelinhas das histórias dos livros e das histórias da vida. Prosseguimos com o também poeta e romancista barcelense José Torres que fez uma incursão pelo seu percurso na vida dos homens e na vida da escrita. A escritora Maria Clara Miguel esteve à conversa com alunos de 5.º ano que a presentearam com um conjunto de trabalhos realizados sobre os contos da sua obra “Histórias para Lermos Juntos”, ao som do piano enfeitiçado pelos dedos do professor Zé Manel e do seu pupilo, Tiago Martins. Terminámos com duas jovens escritoras que rasgam o futuro na escrita já hoje: a Maria Esteves (para quem o amor é a mola impulsionadora de todas as vontades – e verdades) e a Ana Andrade (conhecedora de alguns dos recantos mais profundos da alma humana).
O evento terminou com uma sentida homenagem à poesia, num sarau intimista que viria a juntar alunos, familiares e professores. Afinal, mesmo que os arautos da desgraça apregoem a morte do livro e da leitura, são iniciativas como esta que nos levam a acreditar que vale a pena porfiar. Até porque o livro não morreu nem está, sequer, moribundo; o livro está vivo e vive no meio de nós. Que o digam os alunos.
eis como a boca é mais lenta na saliva das palavras eis como a boca inflama nesse chicote de puro gozo eis como a boca entumece no orgasmo do dizer.
e contudo fora da boca os peixes fazem círculos os frutos saboreiam o verão e a água lambe o ventre das nuvens.
é verdade não há como o esconder mas a boca é o telhado cinzelado pelas mãos do cio.
houve noites em que sonhei que a boca incendiava o corpo do poema mas à luz do dia com os olhos abertos o único corpo que ardeu foi o do poeta já sem voz moribundo nas palavras.
inclinando-se sobre o olhar, a boca inaugurava o silêncio.
Pedro Abrunhosa e Comité Caviar, Fazer o que ainda não Foi Feito
Sei que me vês Quando os teus olhos me ignoram Quando por dentro eu sei que choram Sabes de mim Eu sou aquele que se esconde Sabe de ti, sem saber onde Vamos fazer o que ainda não foi feito
Trago-te em mim Mesmo que chova no verão Queres dizer sim, mas dizes não Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento Tu és um mundo com mundos por dentro E temos tanto pra contar Vem nesta noite Fomos tão longe a vida toda Somos um beijo que demora Porque amanhã é sempre tarde demais
E eu sei que dói Sei como foi andares tão só por essa rua As vozes que te chamam e tu na tua Esse teu corpo é o teu porto, é o teu jeito Vamos fazer o que ainda não foi feito
Sabes quem sou, para onde vou A vida é curva, não uma linha As portas que se fecham e eu na minha A tua sombra é o lugar onde me deito Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento Tu és um mundo com mundos por dentro E temos tanto pra contar Vem nesta noite Fomos tão longe a vida toda Somos um beijo que demora Porque amanhã é sempre tarde demais
Tens uma estrada Tenho uma mão cheia de nada Somos um todo imperfeito Tu és inteira e eu desfeito Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento Tu és um mundo com mundos por dentro E temos tanto pra contar Vem nesta noite Fomos tão longe a vida toda Somos um beijo que demora Porque amanhã é sempre tarde demais
Vem nesta noite Fomos tão longe a vida toda Somos um beijo que demora Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais Porque amanhã é sempre tarde demais Porque amanhã é sempre tarde demais
a imagem repete-se... uma voz líquida espreita pelas frestas do quarto.
desliza pela cal deixando o rasto escuro de árvores com o inverno nos dedos, senta-se sobre a cama escarnecendo da volúpia do corpo vencido pelo amor sem fábula.
(há palavras que deviam ser afogadas)
ele remexe a febre com os dedos trémulos da candeia que toca a treva da terra: - quem és tu? (quem sou eu?) - que me queres? (que quero?) - por que me persegues? (por que não me liberto?)
silêncio apodrecido (as palavras têm prazo de validade no bosque nocturno da tua boca)
ele fecha os olhos e adormece o delírio vegetativo que suspira pelo cais do regresso
a imagem repete-se... uma voz líquida abandona o quarto enquanto o silêncio arde no carvão do peito.
as flores cobrem-lhe o rosto. já não respira o bolor do cemitério e deixou de plantar sonhos brancos no altar (consta que esqueceu como tudo se faz).
as flores cobrem-lhe as mãos. os seus ossos foram as rosas onde abelhas em fúria semearam mel com os olhos redondos de sal.
as flores cobrem-lhe os dedos. a serpente lambeu-lhe as pétalas e confundiu-lhe a chama do corpo.
as flores cobrem-lhe a boca. a lágrima e o grito lavam-lhe a urna regando as sementes de magnólia que hão-de estourar no vento e mirrar nas raízes da memória.
as flores cobrem-lhe o corpo e a luz extinguiu-se. eu não vi mas sei.
Sobre mim, alguém um dia escreveu:
Jorge Manuel Rocha Pimenta.
Nasceu em Braga, cidade onde fez os seus estudos: Licenciatura em Ensino de Português-Inglês e Mestrado em Educação, Área de especialização em Supervisão Pedagógica em Ensino do Português, ambos pela Universidade do Minho. Tem repartido entre o Instituto de Educação e Psicologia (da UM) e a Escola EB 2,3 de Viatodos (em Barcelos) a sua vida profissional como docente, supervisor de estágios pedagógicos e investigador, tendo nesta qualidade publicado diversos estudos e comunicações.
Da paixão do ensino não só vive; também do teatro e de todas as expressões artísticas de que frui. Mas é à boca de cena que se encontra com a poesia, em diálogo íntimo, onde o papel que representa é o do homem que é fazendo o poema cumprir-se.
Obrigado, Ana Salomé!