quinta-feira, 13 de outubro de 2011

voo suicida para todos os instantes perfeitos e dois suspiros

fotografia de jorge pimenta 
I

Estou cansado de ser apenas homem.
Antonio Skármeta, O Carteiro de Pablo Neruda

abro-te estas mãos que não acabam no tempo.
serás tu quem me há de sepultar
assim que mirrem os crisântemos
e o homem esqueça toda a linguagem.
não sei quando, na verdade,
não sou deus
e a catequese está já à distância da memória
por isso espero pelo calendário que marca os dias até morrer
e uma cigana que adivinhe quantos soubemos viver
nos silêncios que esquecem todas as palavras
todas as bocas
e quase todos os beijos.
será que permanecerão em mim,
pelo lado de fora,
os ruídos lentos que me abandonaram,
essa máquina que separa os vivos dos vivos
e nos aproxima dos mortos?

jorge pimenta



fotografia de jorge pimenta

II

[…] e ninguém podia imaginar o mundo de palavras que levava comigo.
Morrer é estar absolutamente sozinho.
[…] na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio.
José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos

parece que muros se erguem violando o céu sagrado
deixo que o grito se suma mudo
e a terra cubra quem tomba pelas valetas
se é no horizonte que se desenha o futuro,
ainda que a lápis, ainda que alguém o apague
eterno é tudo aquilo que nunca fui

no vasto rol de deuses que me fitam do alto,
com o dedo acusador
sei que há silêncio e gemidos ocultos na carne cansada
e olhos fechados sobre todos eles

eu sei que vou morrer
eu sei que vou, um dia, morrer
eu sei que as asas que me deram não me deixam voar
e eu sei que sei voar
e eu sei que vou voar, no dia que eu sei que vou morrer.

laura alberto


sigur rós, viorar vel til loftárása

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

alucinações inocentes sobre estações áridas e homens de temperatura extenuada


alexandre parrot

a nossa única defesa contra a morte é o amor
josé saramago


houve um verão em que o calor nos preencheu os silêncios
indiferente ao suor que humedece o fumo de um cigarro
e às ondas que nos rebentavam o peito.
perdemos as horas e o que os homens fazem com elas
e quase nada ganhámos.
um coração bate sempre mais agitado do que o poema – dizias,
espreguiçando os braços na fresca seda da pele
talvez à espera que eu escrevesse de menos
ou amasse de mais.
houve um verão em que fomos amantes em tons de violeta
acorrentámos lugares inquietos
amarrámos o medo ao silêncio
e gritámos impropérios à cegueira dos deuses
enquanto corríamos sem saber da linha de chegada,
sempre com pés de tinta
talvez versos nos dedos.
mas de que serve ter um animal vivo
se está dobrado pelo estremecimento dos dias?

agora é outono.
resta-nos sentir a breve saliva dos fins de tarde
e aprender com os que passam sem o saberem.
afinal, o homem é aquilo que o separa do homem.

kings of convenience, boat behind

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

solilóquio para balas e arremessos no revólver da felicidade e de outras utopias

marcelo tabach

só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; [...] só se deve desejar a alguém que se cumpra: e cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.
agostinho da silva

há dias em que a felicidade se despede
dos compêndios de uma ciência menor
para se refugiar numa chávena de café
entre o calor do desejo e a nuvem de um cigarro
cada vez mais negra
cada vez mais distante
exibindo apenas a borra no fundo da cerâmica
que a sorvos breves
procurei trazer para dentro de mim.
nenhuma mentira muitas vezes pronunciada se torna verdade
e os dentes caem sempre, um a um,
cansados dos golpes que a palavra desfere
súbita, cínica, sodomita.

há dias em que a felicidade me visita no café
ao fim da tarde
na penumbra que aquece as mãos
e acende escombros em cada sorriso de tinta e palavras.
não, não inventei a insónia
nem sei como é o rosto da morte
na arquitetura imperfeita dos sonhos,
cada vez mais burgueses e anafados
em bocas que persistem em perder o marfim.

há dias em que a felicidade me visita…
sim, eu sei,
é ao fim da tarde que se morre de amores
e o paraíso é somente uma insinuação de pele,
bem ali,
na mesa de café de uma qualquer cidade.


rodrigo leão & daniel melingo, no sè nada

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

retrato de homem para equinócios sem voz: segredos e lábios

evan leavitt, no more passengers



“[…] daí é que nos veio a única certeza que temos […]
em uma noite tão profunda como aquela nos perderemos.”
José Saramago, Todos os Nomes

é hoje o dia
equinócio, outono, setembro
e todo o tempo que se desprende do que há de morrer.

o meu espanto é maior do que a boca
porque caibo numa folha seca
e no fruto vermelho que se estende na erva
depois de rejeitado pela mão que o desejou.
é hoje o dia
e as manhãs despedem olhares
sobre um vento a endurecer os rostos
e luzes de cais a anunciar partidas,
apenas o perfume das orquídeas permanece
como derradeira verdade dos sentidos.

e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].

é hoje o dia:
já asfixiei alguns sonhos
e deixei de responder à saudade;
é que o coração não tem estações
e seria criminoso deixá-lo morrer de frio.

radiohead, weired fishes

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

canção fria para estações despovoadas

há momentos em que temos de perder
para sabermos o que não podemos deixar de ganhar.

evan leavitt, packing, up, railroad, suitcase, trees

há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
é este vento, esta corrente de ar
ou todo o oxigénio gasto nas palavras
que idolatram silêncios e angústias?
recordo os corpos exaustos
[não tanto como a culpa que não tínhamos]
e a boca seca do bailado
a que atirávamos as nossas verdades.
e todas as respostas cegas nos pousaram nas mãos
com a violência da lucidez
e a nudez de uvas por fermentar no peito.

contaram-me depois
que guardaste as lágrimas na garganta
e atiraste o coração aos cabos de electricidade
que iluminam os passos e os pés,
mesmo que em estações brancas
a queimar os dedos
e a plagiar imagens à memória.
cicatrizei o tempo
e a cada perdão roubado
contrapunha um verso
cada vez mais sujo,
cada vez mais imperfeito
como os borrões de sangue que ousam escrever
todos os dias e todas as ruas que habitaste.

há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
hoje o dia deitou-se mais cedo
e a morte deu dois passos para diante,
bem ali, diante da cotovia que bebe,
sôfrega,
o suco aquecido das frutas
de toda uma estação.

audiomachine, an unfinished life

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

etiquetas XVI

portel, alentejo



I. a casa


ao roberto de lima
cidadão do imenso mundo,
que é o coração

assim é o tecto
sem telha, vidro ou cal
a aproximar o olhar das estrelas
e do seu rasto prometido.
o chão?
todo o universo,
duro resistente intransponível,
como todas as almas sem metáfora
que se moldam
pelas palavras ditas, lidas, pressentidas.
no interior, seja noite ou dia,
todas as histórias
anunciam direcções e rotas
com que se encantam os incêndios
e se iludem todas as urgências.

é este o enigma da arquitectura:
toda a casa
que pensa e sente
ensina a duvidar.


II. conjuração
a imagem percorre
os labirintos de água
onde mergulhamos os pés.

é chegada a era do gelo:
a plenitude não cabe no verso
e o tempo não é de ninguém.


III. as linhas da fábula
saltito de renascer em renascer
à espera de iludir as mãos
de onde tombam pétalas em chamas
e sonhos oxidados.

só na certeza da morte
compreendemos a vida.

luís represas & pablo milanés, feiticeira

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Intervalo de viagem: entre o princípio e o precipício do mundo


Pontevedra, Galiza [Espanha]

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente,
somos habitados por uma memória."
José Saramago [retirado de uma entrevista]

Caem-me das mãos as asas no que resta do avião com que aprendi a voar. São hoje pedaços de viagens distantes, exalando aromas em tons de laranja-menina e tessitura de primavera.
Olho-lhe as asas à distância do tempo e ainda vislumbro resquícios da cola com que lhe esculpi a ossatura. E a memória regressa aos gestos, aos espantos, aos risos por entre a farda de major alado e a calça coçada pelos pontapés na bola. Sente-se a dor a exalar daquele plástico carcomido pela espera de um regresso aos céus que um dia dele foram, assim ligeiro, quase altivo, fénix de orgulho inteiro bem acima do tempo que nos denuncia mortais. Viveu anos junto do pó, no sótão de tantas primaveras, beijos meios com a boneca preferida da minha irmã e um triciclo que suspirava por explodir desde a primeira vez que sentira os meus pés nos pedais.
Dobro os joelhos e ajusto-lhe os braços sobre aquele corpo em ferida mansa. Parecia sorrir, como todos os aviões que um dia inauguraram o ar. Ele e eu, por detrás dos buracos que prostituem débeis feixes de luz neste silêncio de loucura clara. Desejo, secretamente, que o tempo volte a unir e não a dispersar, por isso peço à mariposa que permanece sobre o orvalho das glicínias para humedecer a infância; será que ainda me cabe na algibeira?
É assim a saudade, uma linha do tamanho do olhar a incendiar todo o corpo, desde a copa até às raízes. Alguma vez o homem foi muito mais do que isso?



dilek kots, allspice, cinnamon and a kiss [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

canção para outonos sem estação e astrolábio

brejão, alentejo

os sonhos fazem-se combinando recordações
jorge luis borges

é sempre assim no outono:
há uma voz que canta
e me toca levemente no corpo
a exigir suspensão.
Nunca sei se planeia roubar a noite, as estrelas
ou mesmo a sombra dos homens
enquanto atravessa zéfiro
e semeia, rebenta, floresce
sobre a terra que me cobre as raízes.

acordo
[alguma vez estive a dormir?].
de repente
tudo se ilumina na lanterna do homem:
a porta
o quarto
a cama
e todos os nomes e rostos que ali respiram,
bem debaixo dos céus, quase acima dos olhos,
na melodia crepitante de uma rima.

espreito para dentro das veias
e para fora da roupa
mas já todo o tempo me habita
e os cavalos rubros anunciam abismos.

quem é que me procura?

a luz incandesce os caminhos
e os pés douram o sangue.
apenas a canção permanece fria.


sokratis sinopoulos, a the universe [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ode nocturna aos homens de meteorologia inexorável e previsão silenciosa


bill brandt

debaixo das estrelas
degladiam-se todos os homens
na sua existência de papel:
o cutelo transpira-lhes as mãos
como o sexo insone
a arder em labaredas e sismos,
ameaça a ameaça
espasmo a espasmo
gemido a gemido,
umas vezes com a leveza dos anjos,
outras em estrépito animal;
em ambas a respiração sanguínea a espreitar o ponto de ruptura:
estica range sua rebenta
tingindo de branco as duas pontas da corda,
agora estáticas frouxas vencidas.

mas até a vida acaba em anagrama.
escreve-se já não da esquerda para a direita,
mas com todos os nomes,
em caos e combustão,
aguardando pacatamente a hora
nos arquivos da memória do registo civil.

afinal a morte é o alicerce de todos os rostos.

lhasa de sela, rising




A propósito de livros e leituras, a Andy, amiga do blogue lua [http://andy-luaprateada.blogspot.com/], lançou um desafio a uns quantos bloguers, eu incluído.
Replico aqui com o maior gosto, agradecendo, desde já, a distinção.

1. Existe algum livro que lerias várias vezes?
Os livros são os momentos. Por isso há livros que li três e quatro vezes em momentos diferentes e que não sei se não voltarei a ler: Viagens na Minha Terra, de Garrett; Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano; O Medo, de Al berto; Ofício Cantante, de Herberto Hélder; O Retrato de Dorian Gray, de Óscar Wilde, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera…
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste mas nunca conseguiste levar até ao fim?
Todos aqueles em que me não perdi…
Mas também há aqueles que, num determinado momento, não me seduziram, tendo-o conseguido mais tarde, o que sugere que o leitor é mesmo uma construção para onde convergem conhecimento, maturidade linguística e cultural, mas, sobretudo, todas as experiências e vivências individuais e interindividuais. É o caso de Ulisses, de James Joyce, por exemplo; só uns anos depois da primeira investida consegui chegar a Ítaca.
3. Se escolhesses um livro para leres no resto da tua vida, qual seria?
Um só livro não vale toda uma vida, mas a vida vale todos os livros que nela caibam.
Pensando num título: O Livro em Branco. Tenho a certeza de que no resto da minha vida ele acabaria por se compor com o essencial: a vida nas palavras.
4. Que livro gostarias de ter lido, mas que por um qualquer motivo nunca leste?
Tudo o que quis ler, li. Até mesmo O Crime do Padre Amaro, do Eça, quando ainda menino, às escondidas ou debaixo dos lençóis, à noite, em absoluta transgressão, “por não ter idade suficiente para as questões nele suscitadas”, na opinião da minha mãe. Agora, tenho a certeza de que há muito que ainda não “quis” ler mas que está na hora de começar a querer… António Lobo Antunes é, talvez, um dos casos mais prementes.
5. Qual o livro lido cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Boa! Só agora percebo que nenhum final me arrebata mais do que a magia com que se constrói o alinhamento narrativo. Um final só é excepcional se for bem preparado, bem alimentado na sua própria antecâmara. Arriscando um livro todo ele surpreendente [sendo o final igualmente irresistível]: A Metamorfose, de Kafka.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual o tipo de leitura?
Cresci em redor de livros. Os meus pais têm uma excelente biblioteca e durante anos leram muitos e bons livros. Recordo-me de, na infância, ter lido aqueles livros que todos os miúdos do meu tempo liam (Os Cinco, Os Sete, ambas as colecções da Enid Blyton, O Diário de Anne Frank, Os Putos, de Altino tojal, muita BD – Astérix, Lucky Luke, Tintim, por exemplo), mas também clássicos, como as obras de Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco ou Soeiro Pereira Gomes.
7. Qual o livro que achaste “chato”, mas que, ainda sim, leste até final?
Todos os livros que li sob as instruções rígidas da escolaridade marcaram-me, num primeiro momento, negativamente. Alguns deles acabaram por ser recuperados, mais tarde, quando na sequência de leituras espontâneas ou de insistência. Presentemente leio/releio apenas aquilo que me agrada.
8.Indica alguns dos teus livros/autores preferidos.
Na poesia, toca-me particularmente a escrita de Al berto, Herberto Hélder, Nuno Júdice, Jorge Sousa Braga, Sophia de Mello Breyner, Rimbaud, T.S. Eliot, Pablo Neruda, Dylan Thomas, Ezra Pound…
Na prosa, sou um leitor indefectível de toda a obra de José Saramago, para além de ter um gosto especial (que me vem da juventude) pela obra dos neo-realistas (sobretudo Fernando Namora e Manuel da Fonseca). Num registo totalmente diferente, mas admirável (porque conhecedor do homem, mas sobretudo da mulher, das relações e dos afectos) é, ainda, a obra de Alçada Baptista (especialmente o Tecido de Outono). José Luís Peixoto é, para mim, hoje, um nome igualmente incontornável. Gabriel Garcia Marquez reveste-me na pele. Depois, ainda há os clássicos, com Eça à cabeça…
9. Que livros estás a ler?
Estou a terminar a segunda leitura [a primeira foi há quase 20 anos] de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Encontro-me na fase em que Ricardo Reis se confronta com todos os seus fantasmas, receios, delírios e até fantasias, projectados na indefinição em torno de questões como “regressar ao Brasil/montar consultório em Lisboa?”; prosseguir com os encontros fortuitos e carnais com Lídia/explorar os afectos quem sabe se com Marcenda?”. A funcionar como entidade sub/sobreconsciente, Fernando Pessoa, seu pai e criador, acabado de morrer, mas que continua a aparecer-lhe em imagem imaterial.
Leio, ainda, a poesia de Daniel Faria, em Os Líquidos, uma pechincha de 3€ numa feira de rua, em Lagos.
Depois, há todos aqueles que leio sempre que posso, nos blogues: Assis, Roberto de Lima, Rejane Martins, Cecília Romeu, Laura Alberto, Andy, Tânia Contreras, Cris de Souza, Outros Encantos, Analuz, Cid@, Ingrid, Dilso, Celso Mendes, Assíria, Lara Amaral, Suzana, Lívia Azzi, André, Priscila, Carla Diacov, Zélia, Sandra, Luíza, Vanessa, Ira Buscacio, Oceano Azul, Vivian, e tantos outros que ajudam a povoar o meu quotidiano leitor. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Festival Sudoeste 2011 – Interpol e The National [dia 07 de Agosto]


Tens menos de 30 anos, gostas de música discoteca e de beber até que a alma doa? Vem ao Festival Sudoeste!!!


Este poderia muito bem ser o slogan do festival de Verão mais conhecido do país, aquele que atrai quase 40.000 pessoas por dia ao imenso recinto da Herdade da Casa Branca, numa das zonas mais bonitas de Portugal: a Zambujeira do Mar.
Não precisei de conferir a minha data de nascimento no Bilhete de Identidade e muito menos de espreitar as faixas que guardo zelosamente no mp3 para ver [não a dobrar] e saber que estava deslocado do maléfico slogan que aqui engendrei.
Mas, o que me arrastou até lá, afinal? Loucura ou masoquismo? Nem uma coisa nem outra.
A verdade é que mesmo com tristes notícias de assaltos em tendas e histórias de violência e drogas, o SW tem algo de muito especial que me atrai desde há alguns anos (ainda que com presenças intermitentes): praia, pé no chinelo, calor, [alguma] boa música, um ambiente que no recinto é descontraído e muito simpático, mas, sobretudo, memórias [muitas, vividas e por viver] justamente tudo o que em cada um de nós permanece para lá da frágil materialidade.


Pode parecer estranho, mas, sem o saber, planeei esta viagem até à 15ª edição do SW em Paredes de Coura, no distante verão de 2008, quando, ao som de Sex Pistols, confidenciei aos camaradas de festival que a banda a que mais queria assistir ao vivo se chamava Interpol. Choque absoluto! Então, e Radiohead? E Pink Floyd? E U2? Por mais argumentativo que tenha sido, a verdade é que não fui capaz de vencer o cepticismo de todos e das minhas palavras certamente sobraram faíscas de provincianismo ou sandice musical.
A resposta encontro-a nas minhas mais fundas raízes musicais, quando, ainda menino, escutava Joy Division, banda do mítico Ian Curtis que compunha sobre a vida como ela é [ou nos parece], sempre num registo sombrio que explora as viagens emocionais do indivíduo, o caos e a ordem, a alienação, a degeneração urbana e demais sensações com que nos degladiamos no dia-a-dia, muito para lá do que o corpo e a mente sabem [podem] suportar.
E porquê Interpol? Porque nenhuma banda desde então, na esteira de Joy Division, foi capaz de me tocar tão intensamente os sentidos, e sobretudo a alma, como esta nova-iorquina.
Imaginá-los ao vivo foi uma verdadeira aventura sensorial, mesmo sabendo que o seu registo se enquadra mais num ambiente intimista, pessoal e fechado de uma qualquer sala de espectáculos do que num cenário de festival. Tê-los no Sudoeste era um risco que eles, eu e todos os que se deslocaram até à Zambujeira propositadamente para assistirem à sua actuação tinham de calcular.


O concerto, inicialmente aprazado para as 22h, começou com um atraso de 45 minutos. Talvez por isso, a que acresce o facto de esta ser a derradeira noite de festival e ainda de haver, a fechar o dia, uma banda com uma fórmula comercial de sucesso que arrasta milhares em qualquer contexto – Os Suedish House Mafia –, os espectadores estavam dispersos ou, se diante do palco, faziam-no com o único intuito de aguardar pelo seu momento musical. Consegui, por isso, arrastar-me com facilidade até à grade diante do palco onde, conjuntamente com uma mole apreciável de dilectos seguidores, pude seguir uma hora exacta de um concerto que, para a crítica, foi “frio, para não dizer decepcionante”. Nada mais enganosa esta apreciação, a provar que a crítica especializada avalia as performances por critérios como os gritos da assistência, as palhaçadas dos músicos em palco ou o número de improvisos nos alinhamentos musicais dos discos gravados. Essa não é a essência de Interpol e a verdade é que quem os conhece delirou com um concerto sério, assertivo, muito próximo das canções originais, sempre de recorte fino e delicado, a dar corpo à máxima “what you see is what you get”. Do alinhamento musical, o álbum Antics foi estrela com uma mão cheia de excelentes canções, bem acompanhadas de outras faixas conhecidas de um público devoto e irredutível. Frios e pouco expressivos? Talvez, mas não serão esses atributos marcas de identidade de uma banda que recusa os formatos que tão subitamente transformam astros em estrelas cadentes? De resto, vi Paul Banks sorrir e Kessler a deslizar pelo palco em souplesse enquanto desferia os acordes de Evil, Slow Hands, Heinrich Maneuver ou da inigualável Not Even Jail, o que é para mim indício de que tocavam com prazer para quem os soubesse escutar.


No final já não tinha voz. Mas ainda faltava The National…
Não sei se por se aproximar a hora mais aguardada da maioria dos festivaleiros, se por terem visto Matt Berninger actuar de copo de vinho na mão, a verdade é que o público apareceu em maior número no concerto de The National, tendo sido também mais participativo.
Mas, de novo, senti o concerto como perfeito no lugar errado. Com uma postura em palco mais interactiva e uma set list cuidada, combinando algumas faixas mais populares com outras que funcionaram como testes ao excelente último álbum [não tendo mesmo faltado melodias que convidam ao relaxamento do batimento cardíaco], os The National mostraram que são mais camaleónicos do que os Interpol. Todavia, que concerto pode resultar em absoluto se diante de um público que os conhece de nome, que aplaude nos hiatos de algumas faixas, que conversa para o lado, ou que clama pela banda que vai actuar no momento seguinte?



No encore (frouxamente clamado pelo público, como o próprio Matt fez notar ao microfone), o tom subiu ao som dos inevitáveis Mr. November e Terrible Love, tendo atingido a sua expressão maior quando o próprio vocalista desapareceu por entre a multidão, deixando os seguranças com os nervos em franja.
O Festival terminava aqui, para mim. Já eram quase 2h da manhã e os festivaleiros ávidos de decibéis descontrolados e luzes de discoteca acotovelavam-se para chegarem até junto do palco para o derradeiro concerto. Voltei as costas ao palco; o meu lugar bem lá à frente ficava para todos aqueles que não distinguem bolotas de pérolas.

interpol, slow hands

the national, sorrow

sábado, 6 de agosto de 2011

trilogia a duas mãos

william blake, urizen

I.

as tuas cicatrizes
ainda me soletram o corpo
neste colapso virgem de violinos

o contacto com as sombras
atira-me o olhar sobre a janela
em trilhos de lírios azuis
que a treva silencia

as tuas cicatrizes
ainda me sofismam o corpo
neste contralto virgem de violinos    

o correlato com as sombras   
atina-me o olhar sobre a janela
em  ladrilhos de lírios azuis
que a treva sentencia


II.

do outro lado de mim
há canteiros secos
vozes mortas
copos e lábios inebriados
como índicos sem oriente

tudo é refluxo de vento
sem tempo e alento

do outro lado de mim
há candeeiros cegos
vozes tortas
copos e lábios incendiados
como imagens  sem oriente

tudo é rajada de vento     
sem templo e acento


III.

no fundo de rostos inexistentes
deponho as pálpebras
sem medo da erosão:
quero eternizar este mito
em rimas febris de cal branco

mas, mesmo em verso,
continuo sem saber
onde esconder-me

no filme de rostos inexistentes
decomponho as pálpebras
sem medo de expressão:
quero edificar este mito         
em rimas ardis de sal brando

mas, mesmo em verso,
continuo sem saber
onde exorcizar-me

por cris de souza & jorge pimenta

rodrigo leão, ruínas

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

etiquetas XV

k. steppenwolf


“Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum, tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo, Ricardo.”

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis


I. modalizações de voz

i. toda a escrita revela
e quase tudo esconde.

ii. as palavras não são o que aprendemos
mas tudo o que [não] conseguimos dizer.

iii. todos os hiatos invisíveis
são o que mais delicadamente nos define
até porque tudo o que revela é incompleto.

k. steppenwolf

tecido boreal
dedicado à minha amiga cecília romeu
do blogue http://anaceciliaromeu.blogspot.com/

alfabetos sem gramática e decifração
agitam o oceano
enquanto a voz desprende
limos talhados com escopo e memória.

em vigília espantam feras
e tocam a cassiopeia
porque as estrelas que cruzam os desertos
nunca são o que nos separa dos homens.


the smiths, there is a light that never goes out

segunda-feira, 25 de julho de 2011

crime perfeito para canção de aconchegos e infinitos



parque natural de são jacinto

provocámos a noite.
inventámos a canção
e sabíamo-la perfeita, quase sibilina,
como todos os sons de um violino de alfazema.

recordo as verdades embrionárias
deambulando pelo interior dos corpos
em passos de açucena
e movimentos de primavera.
e ríamos na integridade do tempo
na madrugada das lágrimas
na agressão de todos os amores perfeitos

noites mais tarde revisitei a pauta
já sem instrumento, sem voz, sem melodia.
acreditei no verso que compusemos
como num estuário de movimento perpétuo
empurrando o sal e o mel das águas
para o abismo das pétalas que reparam a pele
para o solo das flores que rebentam sem luz.

a solidão enterrou-nos o sono
e a memória insone é agora o altar onde sacralizámos os deuses.
há silêncios musicais a dourar o excesso vocal
há medo a borbulhar no paraíso das bocas
há golpes de diamante a apagar as letras.
dessa melodia sobra apenas o véu luminoso
de cometas deslizantes sobre cordas
que na noite perderam a cauda
[oh, como descem o ar
à procura da imobilidade absoluta dos corpos].

a música é como a morte:
ambas são a verdade mas nenhuma se explica.

smog, to be of use

segunda-feira, 18 de julho de 2011

verso branco para árvore em tons de corpo amnésico

jean sebastien monzani, memórias

deixei o poema na tua mão.

para que mo pediste
se te demoras em pontes inquietas
aguardando a passagem dos rios?
eu sei, não queres correr
e todas as decisões
são apenas poeiras inúteis na superfície do ar.
que tudo passe, que tudo leve e transforme
diante das orbes frágeis dos olhos,
desejas,
mas nem isso consegues dizer mais alto do que o medo
porque todas as palavras vivem dos segredos
e do que não deixas entender.
há em ti um modo secreto de tudo dizer
e um instrumento barroco a dourar-te o silêncio
como se respirassem nele as verdades da escrita.

deixei o poema na tua mão.

enlouqueço na apatia das letras
e estremeço na letargia dos sons
porque esqueci de que cor é o lírio da tua voz.
 já não sei escrever
e os meus lábios adoeceram no frio da canção
enquanto o mel da criação
funde os sexos numa massa mole
que se desprendeu da árvore
e apodreceu na mão do criador.
até os deuses parecem figuras menores
com existência digital
entretidos a pôr laços pretos nos pescoços dos homens.

mas, olha, não desisti de saber
onde escondes o pêssego maduro
que atravessa os ossos esquecidos
enquanto o corpo treme
acendendo a poeira e todas as promessas sem roupa.
porque a vida é a minha sentença,
rejeito as pálpebras do mundo
e as cortinas onde se escondem os desejos transparentes.

the national, vanderlyle crybaby geeks

sábado, 9 de julho de 2011

retórica incandescente para tecido de sustentação corporal

aljezur

sim,
atira-me ao fundo do mar
como quem beija,
todo o tecido pede violência
para medir a resistência.

quero os teus pulsos
de guelras temperadas em sangue negro,
um dia, cordão de açúcar,
no outro, lábio de voo plano.
desejo as tuas mãos
de óleo com escamas na pele
a escorrer precipícios trágicos
sobre a trajectória dos peixes.

sim,
ata-me às rochas do mar
como quem ama
prende-me com algas
mesmo que a eternidade se escreva com cinzas
dispersas pelo vento
algures entre os trilhos de sangue aceso por dentro
e os pés que tropeçaram nas botas e no caminho.

se todo o amor fica incompleto
na estreiteza do corpo
e os lábios adormecem
na contracapa da noite
para quê recordar as cartas recebidas?
as palavras são apenas ossos brancos
a apodrecer no negativo fotográfico
com que um dia ousamos
fotografar a melancolia dos rostos.



einsturzende neubauten, blume

terça-feira, 5 de julho de 2011

Projecto Crescer no Palco

É, seguramente, uma das mais lidas, encenadas e vistas peças de teatro escritas em português: o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Poderá pensar-se Oh, não, esta peça outra vez?, tantas são as vezes que é estudada e, talvez por isso mesmo, vista por alunos e professores, em diferentes propostas, ao longo dos anos. Todavia, não conjuguemos planos que, na génese, pertencem a quadros distintos: por um lado, existe a peça, património do dramático, objecto de estudo na sala de aula, como tantas outras; por outro lado, existe a representação proposta por companhias de teatro mais ou menos credenciadas, de norte a sul do país, em sequências de espectáculos a que todos os nossos jovens de 9º ano assistem; num terceiro plano, existe a apropriação do texto e a sua interiorização em cima do palco, por recurso a um conjunto de linguagens (dramática, cenográfica e musical) que complementam a linguagem académica (tantas vezes teórica e teorizante), consubstanciando-se esta nova acção numa aprendizagem segura, sustentada e significativa, ou não fosse polida pelo crivo da experiência.


Assim nasceu o projecto Crescer no Palco, em 2009/2010, então com a representação de uma adaptação da obra O Macaco do Rabo Cortado, de António Torrado, a que se deu continuidade, em 2010/2011, com a mais conhecida das obras de Mestre Gil.
Os trabalhos arrancaram bem cedo, no início do ano lectivo, por altura em que se procedeu à atribuição de papéis pelos 23 alunos da turma, logo após um breve casting baseado, quase que exclusivamente, na leitura de trechos de cada cena. Seguiu-se o trabalho de memorização do texto em simultâneo com os primeiros movimentos de palco para desinibir a ajudar a interiorizar a personagem, os seus tiques e comportamentos.
Já no segundo período, foram tomadas decisões relativamente aos adereços (integralmente recolhidos e, quando necessários, construídos de raiz pelos alunos e seus encarregados de educação) e ao som a incorporar na representação (que contou com uma selecção que ia desde música palaciana ao Heavy Metal, havendo ainda incursões pela música clássica e cinematográfica de permeio). Foi ainda nesta fase que o Professor de Educação Visual, Francisco Assis, projectou, concebeu e concretizou, juntamente com um grupo de alunos da turma, toda a cenografia da peça. A definição de aspectos pendentes acabou por ser solucionada pelo Professor Zé Manel que, com a sua experiência e voluntarismo, resolveu franjas sensíveis que acabariam por tornar-se determinantes no desenvolvimento dos trabalhos (ex.: sistema de som, adereços que os alunos não conseguiram recolher, cortina no palco, etc).

Eis-nos, assim, chegados ao dia por todos esperado. Foi no 29 de Junho que os EE, familiares, Professores, AAE e amigos dos “actores” se deslocaram à escola para assistir ao trabalho de um ano que se materializou em cerca de uma hora. Uma sala quase repleta, aplausos com o brilho nas mãos, algumas lágrimas esquivas e um Gil Vicente que teima em permanecer junto de nós (apesar dos 500 anos de vida) são o garante maior de que a iniciativa cumpriu integralmente tudo quanto os seus promotores idealizaram.
Um ano desaparecia como areia breve por entre os dedos dos jovens actores. 60 minutos parece pouco tempo para tamanha empresa preparatória, mas há tempo dos homens com cuja tinta se escreve a própria eternidade… ainda que no papiro da memória.





marilyn manson, the beautiful people
[música utilizada na cena do sapateiro]