domingo, 13 de fevereiro de 2011

alguns dedos da mão

                                  daren borzynski

amanhã vou bater-te à porta.
sei que perdeste os ouvidos
e que a campainha não toca,
mas vou lá, ainda assim.

uma a uma, recolhi as pistas
que espalhaste pelo meu corpo
e ainda que em anacronismo
consigo entrar.
[a propósito, o sangue seca mais depressa
em fevereiro
e as cicatrizes são apenas flores
que fazem jardim na pele.
soubeste-o antes de mim, verdade?].

vejo que não perdeste
os olhos
onde fiz a minha biblioteca
e os lábios
que tornam todas as águas lentas.
mas sei que já tens pouco para dar,
e eu com tanto a estourar
na mão que dá
na mão que recebe
[finalmente entendi em que balança
se pesa o amor].

depois de ti
sei que os beijos podem não abrir versos
que os lençóis são apenas a cama onde te deitas
ou que a terra mais feia do mundo pode ser mesmo isso:
a terra mais feia do mundo

depois de ti
comecei a apertar as veias
e a tentar iluminar a garganta
[maldita boca,
o fogo que outrora a seduziu
queima agora as entranhas
e nem os dentes cabem, já, no sorriso]

depois de ti
o próximo poema
será feio como eu
será sujo como eu
será indecente como eu,
uma imitação
como eu.

mas sei que
mesmo borrado de tinta
jamais o saberás ler
sem alguns dedos da minha mão.

ulver, eos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

gumes

fotografia de pedro polónio,
http://club-silencio.blogspot.com

vou fingir que não te ouço
para não ter mais os pés frios.
quiseste tudo,
até as varandas da morte
por achares que uma só vida
[esta]
te não chegava.

deitei o corpo em telas brancas
onde pintavas estranhas paisagens,
esperei ao relento
que os teus olhos se abrissem,
rocei ervas daninhas
jurando que bebia as tuas mãos.

tive frio, fome, calor, sede
gritei ao silêncio
[não sou eu]

afiei as lâminas, desinfectei os punhais
rasguei as entranhas
e esperei que o sangue
[não o meu]
corresse

não guardei os lençóis,
não consegui adormecer a tua escova-de-dentes
e não estourei com os teus discos de vinil.
nem os livros que escondi
no teu ventre se fizeram biblioteca,
quanto mais os rabiscos
que ousei arrancar-me enquanto a carpete
já só exibia o pó dos teus pés.

parti os vidros, os espelhos, os cristais
bebi do suor da testa,
esqueci o sal da tua boca
e lavei os dentes até que os pulsos se partissem

depois?
desci as calças
e emprenhei a vergonha
[que nunca reparti contigo]:
comprei romagens,
assinei promessas
e assisti às missas
[mesmo não sendo domingo].
já só me falta beijar o demónio na boca
[nem ele suportaria o hálito do meu corpo].

laura alberto & jorge pimenta


interpol, hands away

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ode de toda a urgência

                                          berenika

conto em
mim
alfabetos de urgência.

são palavras que se agitam
em ancas húmidas
que navegas,
nua,
como rotas de espuma e de prazer.

e o  futuro recua enquanto te
conduzo
no verso na rima no poema:
saboreamos abismos
que não sabem repartir sombras
nem o medo à prova de céu.

e a tinta avança e logo te
guio
na estrada no norte no verão:
cavalgamos os lábios
que ousam iludir a respiração
e o sol das outras ruas.

o destino?
a porta-sem-morada.
o desatino?
o porto por-decifrar.

ai,
e o tempo
que nunca sabe esperar?


A minha amiga-de-tantos-encantos recebeu um selo da nacasadaná e, depois de ter cumprido o preceituado nas regras para a sua atribuição, teve a gentileza de me incluir no conjunto dos 15 blogues-amigos a quem o repassar. Agradeço-lhe a gentileza e aqui replico ao desafio.

Regra 1: nomear 15 blogues.
Na impossibilidade de me decidir [é impossível; como decidirmo-nos, de entre as veias do corpo, sobre aquela de que o sangue gosta mais???], deixo-o aqui para todos aqueles que me visitam e que eu próprio procuro nestas longas viagens pelas marés da poesia. Um abraço a todos esses, meus amigos; sintam-no como vosso, por favor.

Regra 2: responder a um conjunto de perguntas.
Nome: Jorge.
Música: Cathy, de Rodrigo Leão e Neil Hannon [aqui a acompanhar o post].
Cor: Preto.
Estação do ano: Outono.
Como viajar? Acompanhado, sem ter o plano de viagem inteiramente esgotado na definição das suas linhas prévias [sempre à espera de que a viagem me surpreenda].
Frase ou palavra que mais usa: “nada te pertence; tudo é de tudo o que passa”, Jordi Virallonga [frase]; homem [palavra].

rodrigo leão [com neil hannon], cathy
 
 
Um miminho da querida amiga colecionadora de silêncios, do blogue hiperestesia.
Um abraço com um agradecimento especial a quem connosco partilha este espaço plural de sensibilidade e bom gosto.
 
 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

lugares

fotografia de pedro polónio,
http://club-silencio.blogspot.com

trago-te sempre às costas
e como eu gosto dos teus dedos.
suspiro quando percorrem a minha coluna,
brincam violentamente com a espinha
nos lugares onde as metáforas fazem ninho.

as costas são o litoral do corpo.
estendem ímanes sobre as mãos
e todos os frutos silvestres por roer
mesmo se nenhum de nós sabe o jogo
onde se lançam dados viciados,
mesmo se nenhum de nós sabe o fogo
onde navegam deuses alados.

e eu quero perder-me
aí, onde os mapas se rasgam ao vento
e a areia molda os nossos corpos
[e quero que passes, quero que fiques].
e eu quero perder-me
aí, na tempestade das pernas
e na orla dos joelhos que ardem
[e quero fugir, quero ficar].

se mergulhar um dia
sei que não vou ficar, aí
[as horas lentas
escorrem pelas paredes
mancham os lençóis].

se cair um dia
sei que não voltarás, aqui
[o pássaro será de papel
girando em órbitas de giz
atadas às linhas da tua mão].

e esse espaço que o teu corpo ocupa
jamais será meu.

laura alberto & jorge pimenta


the legendary tiger man, life aint enough for you

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

como nos poemas


                                          jorge molder


e eis como os dias não se fazem apenas dias:
meteorológicos, mitológicos, ontológicos e ilógicos
[e tudo o mais que o silêncio aborte da boca do mundo]
são resina a escorrer à beira-dor
em passo lento
devastador, cirúrgico, operário
consumindo a língua dos segredos
cinzelados por mãos que se desprenderam do corpo.

sobrevivem os dias.
e sou manhã, tarde e noite dentro do dia.
sobrevive o corpo.
e sou o que não morre mas que agride mais do que afaga.

longe do silêncio dos dias e do corpo
as mãos escarnecem
como se a vida começasse naquele hiato
sem sermão, pregador, ofício ou deus.
falsa liberdade esta, a retinir nos tímpanos
[as sereias ainda são todo o canto que engana o mar].
mas já sem mar
e a léguas do sonho,
as mãos enrijecem, apodrecem, quebram na areia
que lhes prometera
o voo sem órbita e a viagem sem voo.

e o corpo tem a saudade tatuada
e o corpo amordaça a boca
e o corpo perde o tacto
no motim das mãos que impõem a despedida dos dias.
e os dias são fábulas
e os dias são narrativas sem prosa
e os dias são personagens  de ficção
sobre a geografia das mãos sem capital.

oh, se eu conhecesse a fundo as lendas dos dias
os episódios do corpo,
as estórias insulares das mãos
restauraria a língua que nos trouxe o arrepio
sem calendário:
amarmo-nos como nos poemas.

[saberão os homens viver
como os dias?]

a touch of spice [ost] up at the attic

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

morfina

                                           braga [pormenor]

já não sei quantas vezes
me escorreu dos dedos a tua morte.
ficava imóvel a olhar as mãos como se
em cada linha exangue adormecesse o perdão.
sei lá se deves acreditar…
os poetas vendem sempre os sonhos
que plantaram do lado de fora do coração,

mesmo que com o estore fechado.
deixa que a agulha rasgue a pele,
penetre as veias emaranhadas
jorre o sangue em golfadas
de gozo, de luxúria
até que o corpo arda em orgasmos
e se tolde a imagem em negro.

o fósforo risca a noite e acende o rosto.
tem cara feia, mau hálito e não toma banho.
falta-lhe ser homem,
aguçar o sexo
gastar a saliva na pele olorosa
onde a primavera esconde os segredos
que jasão julgou serem de ouro
[qual quê? apenas gemidos em prosa perdida].
é um poeta. um semi-homem. uma ave quase-louca.

já não sei o que te dizer
parece que todas as palavras arderam.
gastou-se a imagem em bancos de nevoeiro
e o farol queda-se em silêncio
[malditas âncoras, malditas
enrolam-se em sargaço
que vem apodrecer na praia
e o sal não te marca mais o corpo].
bocejam os poetas, esquecidos nos escolhos.

a loucura é a única certeza dos amantes.
o amor é a derradeira mentira dos poetas.

laura alberto & jorge pimenta

the legendary tiger man, naked blues

sábado, 22 de janeiro de 2011

etiquetas X


I. tese / contratese
“só para nós não morre aquilo que morre connosco”
[gabriele d’annunzio]

saibamos,
pois,
viver tudo o que ainda não nos morreu.

                                                    la coruña, espanha

II. brevidade
línguas de nevoeiro
depõem a humidade na tua janela.
boca lábios vulva
são todos os nomes que
massajam o orvalho dos lábios
agitam a pacatez do sangue
e devoram a madrugada resinosa dos pinheiros
enquanto o corpo acende em cio nómada.

na fogueira branca arde a breve eternidade.

                                                                                                        cabo da roca

III. expedição
escalei a tua morte
com versos nas cordas
e flores nas mãos;
apaguei a memória
com álcool no coração
e fumo no peito.

                                          foz do rio minho, caminha [pormenor]

IV. conjurados
caem as palavras
rompe-se o verso
perde-se a voz
estoura o peito.

e agora,
sem a ilha a boiar nos olhos,
resta-me vaguear sobre o pó
gasto pelas unhas
de um gato sem nome.

                                          foz do rio minho, caminha [pormenor]



roger waters, it's a miracle

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

viagem

                                          henri matisse, la joie de vivre

no dia em que te der as mãos
e toda a minha certeza
a casa não será apenas a pedra que nos aquece.
dar-te-ei os livros e as recordações
e todos os mapas do meu corpo
onde a geografia
seja apenas bicicleta em viagem pelo mundo

e tu todas as cidades
e todas as estradas
e todos os telhados
que saberei percorrer
nas rodas dos lábios
e no guiador dos prazeres
[sempre sem travões].

no dia em que te der as mãos
todas as embarcações serão o porto.

no dia que te der as mãos
e toda minha clareza
a casa não será apenas a pena que nos aparece.
dar-te-ei os lírios e as revelações
e todos os meios do meu corpo
onde a grafologia
seja apenas borboleta em viagem pelo mundo

e tu todas as paisagens
e todas as floradas
e todos os terrenos
que sentirei percorrer
nas rosas dos lábios
e no gerador dos prazeres
[sempre sem trovões].

no dia em que te der as mãos
todas as expedições serão o gozo.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)


madredeus, ao longe o mar

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

bilhete de identidade

                                   jorge molder

não sei quando nasci
[a memória dormia ainda na ponta dos pés de uma bailarina].
sei que as manhãs já sacralizavam o tempo
com candeias de bruma pela estrada.
nada mudou;
apenas depuseram o orvalho
sobre o nome
e abriram a cortina para a cidade adormecida.
nem um porto
nem um lírio
nem um cavalo selvagem.

e a primavera louca se fizera
como os pássaros que se desprendem das asas
aceitando dividir a casa
com coágulos do nevoeiro.
talvez já não saibam delimitar as estrelas com a mão
neste hospício de cal branca
onde as vísceras e os ossos
aquecem a noite e os silêncios.
perdeu o manto
e deixou de sonhar
e todo o tempo se fez velho.

não sei quando nasci.
como ontem,
hoje o nome estremece no arquivo
ao lado de anagramas e estações do ano.
como ontem,
hoje o rosto no espelho
assobia lugares estranhos.
hoje,
ao contrário de ontem,
esta carne mascara-se de cera
e despede os músculos e a alma
numa ejaculação que engravida a terra e o vinho
[tenho-os secretamente guardados num frasco de vidro
com uma etiqueta perfumada.
creio que tem escrito “coração”…
ou “coroação”?...].

toda a mão que rasga o útero merece aprender a morrer.
mas foi ela um dia
[talvez o de aniversário]
que mordeu os lábios do vento
e cuspiu a terra para as sementes
[a desilusão nidifica em árvores tão estranhas].

e a morte escondeu-se no alfabeto.
e a primavera voltou a ser uma estação do ano.
e a mão solitária costurou todo o corpo,
com a paciência magra que denunciou o crucifixo.
aprendeu a sorrir para a lua
com os dentes brancos de margaridas
que caíam lentamente sobre o perdão.

não sei quando nasci…
sei que todos os homens são loucos.


muse, unintended

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

perfumes

                                berenika

perdi, um dia, o mar a gemer sob as aves
mas ainda recordo o brado do promontório.

não sei porquê,
desdenho de todo o âmbar da memória
mas temo a urgência do olvido.

os seus olhos de sal
e as unhas de pedra
onde se espreguiçam o vento e o tempo
fizeram falésia no meu peito;
investem com frémito conta a pele
decapitando os caminhos que percorri
e assombrando os que não ousei pisar.

hoje, são os atalhos além da maré
que soletram o meu nome.
terei ido a tempo de assistir ao parto das árvores
que sabem germinar flores e frutos
no silêncio do mar?

hoje, em tudo creio.
[apenas duvido da viagem].



evanthia reboustica, the railway station
[tema do filme a touch of spice, realizado por tassos boulmetis]

nota: a touch of spice ["politiki kouzina"] é uma pélícula grega, com a assinatura de tassos boulmetis (2003), que toca a ligação secular (sempre tensa, no mínimo) entre as culturas grega e turca. fanis, um jovem grego, aprende com o avô, cozinheiro de profissão em istambul, que, tal como a comida, também a vida deve ser bem condimentada. acaba, ele próprio, por se tornar cozinheiro e seguir a sua vida. mais de 30 anos volvidos, fanis regressa às origens, onde reencontra o avô e o amor da sua vida; nesta confrontação com o tempo e consigo mesmo, acaba por chegar a uma conclusão: esquecera-se de temperar a sua vida.
a banda sonora tem a assinatura de evanthia reboustika. recupera a mais fina tradição bizantina na sonoridade e na delicadeza sofrida da voz. é impossível resistir-lhe.
agradeço à minha querida amiga eleni ter-me ajudado/ajudar-me a compreender um universo cultural que apenas tocara através dos canais informativos e pelos compêndios de história.
um beijo, eleni!


evanthia reboustica, allspice

[tema do filme a touch of spice, realizado por tassos boulmetis]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

os seis sentidos

                                                                 fotografia de pedro polónio,
                                                                 http://club-silencio.blogspot.com/

I. olfacto
amanhã quando acordares, não
te esqueças de fechar os olhos
guarda o nosso cheiro no vidro da mesinha.

II. audição
martelo, bigorna, tímpano.
a nova retina do ser
nasce do som do teu bater de asas.

III. paladar
amanhã, banha-te na água das
nossas lágrimas. arrumadas na prateleira
estão as línguas. em sal.

IV. tacto
seda ou areia,
só com o teu corpo
se escreve a palavra “pele”.

V. visão
amanhã quando te deitares
pousa os olhos sobre os destroços
em que nos guardamos.

VI. intuição
mesmo não sabendo se existes,
sinto.
e se não basta…
[laura alberto & jorge pimenta]


portishead, machine gun

sur-realidades

                                berenika

– Tu, quando estás comigo és surrealista.
– Surrealista, simbolista, decadentista… Chovem os sufixos gramaticais, mas esconde-se a matriz semântica.
– Tu, quando estás comigo és surrealista, até porque o papel é permeável a toda a chuva.
– Continuo sem gabardina para resistir à enxurrada, sabes? Até porque as etiquetas sempre me confundiram e a poesia é impermeável. Tu e o teu surrealismo ajudam a entender (me)?...
– Deixa lá, a pele é permeável a toda a chuva. Afinal, o que é o sangue sem a água, a água sem o sangue, o real sem o surreal?
– Às vezes pergunto-me sobre o que está mais próximo de nós: o real ou a sua caricatura – pomposamente etiquetada de surreal? Ei, passas-me o espelho? Não consigo respirar…
– Não encontro o interruptor. [Cegueira total].
– E a pele? A impermeável pele, terá desaprendido de tactear, de alumiar?...
– Deixa-a de molho. Quem sabe encontra os ossos que vestir. Olha, parti o espelho. Crás!
– Oh, e agora? Preciso do vidro. Sabes, é que eu temo a água e o seu reflexo; foi-me dito que derrete os olhos. Já não sei o que é pior: asfixiar ou deixar de ver…
– Destapa o frasco. Bebe o veneno.
[A cortina corre, a luz apaga-se, os aplausos escondem-se no interior das algibeiras. A humilhação é o granizo que lava, hoje, o palco].
[Laura Alberto & Jorge Pimenta]


– Queria oferecer-te o que não tenho – o lobo e o cordeiro cabem na mesma veia. Achas que o ar que nos falta é o segredo que os junta?
– Toma. Gostas?
É a panela mais silenciosa que encontrei.
– Deixa-me simplesmente fic-ar.
[E a nossa vida enche-se com tudo aquilo que não nos cabe].
[Laura Alberto & Jorge Pimenta]


mão morta, tiago capitão

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

elegia [ao ano velho]; ode [ao novo ano]

                                jean sebastien monzani, the exception

eis-nos chegados à derradeira fila.
365 passos e tantas cabeças a farejar
um céu feito de carne [como os cães vadios]
e o silêncio de estrelas [como os homens].
a meio caminho, anéis de tempestade
enrolam marés e praias
onde os rostos são gaivotas de ferro
que vomitam fumo sobre escarpas de pele
e fazem ninho nos sonhos da soberba agonia.

pela estrada
desci barragens e subi promontórios,
chovi mágoas e acendi fogueiras
deitei-me sobre a terra e corri à beira-mar
naveguei artérias e perdi corações
anoiteci ao meio-dia e enganei primaveras.
e, no final, o círculo do tempo
encosta o crepúsculo à aurora
como se o ontem e o amanhã se ligassem
pelo batom de lábios redondos
em permanente incêndio.

e agora?
é a hora.
recitemos a primeira luz do dia
na aparência do seu limite.

 
the smiths, please please please let me get what i want

a todos os meus amigos, que o novo ano ofereça a materialização plena do caminho a que morrissey aponta nesta imortal canção dos the smiths: please, please, please, let me get what i want.
um abraço!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Noite de Consoada


                                            Ana Margarida

A mão fria da noite caíra já sobre a cidade. Não admira, é Dezembro e basta que soem as cinco badaladas na torre da igreja para os corações urbanos passarem a rufar alvoroçadamente. É que se a noite é grande, o dia mal chega para cumprir o ritual sem falhas. E há ainda tanto por fazer… a ceia, farta e trabalhosa, os brinquedos das crianças por comprar, a esmola aos pobres da caridade… ah, o bolo-rei, meu Deus, e o bolo-rei!?...
Sozinho, em casa, não posso perder a magia da noite branca que, presume-se, torna os seres humanos mais próximos da ideia original do Criador!
Levanto-me lentamente da modorra do sofá, enfio os braços nas mangas do sobretudo, ajeito o cachecol que comprei ali mesmo, nas barracas de rua, numa manhã tão fria quanto esta noite de consoada, e bato à porta da cidade. Recebem-me miríades de reflexos projectados obliquamente desenhando céus de luzes que escondem as estrelas; coros de crianças entoam cantares que todos um dia aprendemos junto à lareira, mas agora mais ritmados e amplificados por gargantas electrónicas que se espalham ao longo do presépio animado. Aqui e acolá, vultos apressados tropeçam em sacos coloridos de onde pendem, molemente, fitas e embrulhos fechados a correr, creio mesmo que sem ver… sem me ver…
Dentro de mim, a noite era silenciosa, escura e fria. Noite de Inverno, já se vê. Nem mesmo a companhia dos gatos que, como eu, vagueiam pelas artérias nuas, em busca de um sorriso esquecido, conseguem revelar o negativo fotográfico que, qual parasita, se alojara no meu coração. Do lado de fora, prossegue a sinfonia de talheres que estilhaçam os vidros e gargalhadas exuberantes que silenciam os gemidos da noite.
Aconchego o cachecol ao pescoço, subo a gola do sobretudo, deito o olhar ao chão e tomo o caminho de casa. A noite está quase a passar… Quando é o Natal?...

24 de Dezembro de 2008


A todos os amigos que se fazem próximos pelos blogues deixo um abraço com os dedos longos da neve quente que sempre se faz doce na lareira do coração.


Feliz Natal e até breve!


The Pogues & Kirsty Maccoll, Fairytale of New York

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

credo

                                 jean sebastien monzani

quem és tu?
trazes a boca perdida na insónia
e nem o tabaco e os dedos amarelos te sossegam.
perdeste os frutos do estio
[como foi possível anoitecer os risos brandos
em torno dos brincos de cereja?]
e com ele todo o verão.

não, não esqueço,
mesmo que apenas fantasmas de sangue.
não, não morrem
as imagens da terra fértil
em que o beijo era o pão
e o desejo o farol da loucura.

e mesmo que um dia adormeça sobre a cama de relva
que fotografa o passado
não deixarei de sonhar
com os arcos de pele contornando as estrelas
nesta falésia de perfume adormecido.

tudo o mais
é orvalho sobre uma folha indecisa
que o vento desprendeu da árvore.
por debaixo da ramagem continua a crepitar o fogo.


the cure, a thousand hours

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

etiquetas IX

                                            robert frank, new mexico, 1955
I. arbítrio
é a pulsação da terra
deitada sobre a pedra cinzenta
agitando a desilusão.
o amor assim se ganha e assim se perde:
na punção das cordas por atar
e no olhar de aves que perderam o voo.
que mais recear?


II. urgência
vou ligeiro
em pezinhos de céu
e por chão de estrelas

[não vão os derradeiros sonhos
esconder-se assim
não vás tu
escarnecer de mim]


III. adversativa
mas
que corrente de pedra
é essa que te navega o sangue
agitando as veias
em sístoles e diástoles
de hesitação feminina?


IV. os degraus da voz
cobre-me com o lençol de rosas
atira-me à terra que alumia.



jim morrison, a feast of friends

domingo, 12 de dezembro de 2010

Adiadas Dunas: Poesia à solta na Casa-Museu Nogueira da Silva

Decorreu ontem, na Casa-Museu Nogueira da Silva, em Braga, o lançamento do aguardado livro de poesia do poeta galego Francisco Mariño, pela mão da Editora Calidum.
Natural de A Corunha, Mariño é professor de Literatura Alemã na Universidade de Valladolid, mantendo uma produção na área a vários títulos notável. Adiadas Dunas é, todavia, a sua primeira incursão no domínio da produção poética.
Coube ao Mestre e amigo Henrique Barroso e a mim próprio a responsabilidade de, primeiro, e a duas mãos, escrever o prefácio para, ontem, apresentar a obra na cerimónia de lançamento.


Em Adiadas Dunas emergem um conjunto de seis partes, cada uma delas exercício de revisitação de lugares de primordialidade pessoal:
1. O lugar do reencontro com um tempo e um espaço que querem saltar as areias da ampulheta para se inscreverem, eles mesmos, no tempo e no espaço. Somos, assim, convidados a percorrer as galerias “do tempo esmorecido”, um lugar líquido, instável e refractário, onde as chuvas e as águas do mar escorrem de um passado suspenso na distância da irreversível memória – Chuvias Idas, Mares que Fuxem.
2. O lugar onde as águas do mar contornam os areais instáveis da alma, à esquina da razão, perdendo o sal na memória de um “tu” plural – Areal.
3. O lugar onde a noite, com braços frios e dedos longos, acolhe o coração no fogo-fátuo do desamparo – Noitebra.
4. O lugar da recuperação de um tempo de ausência e abandono emocionais que a memória persiste em não conjurar; é aí que as folhas outrora viçosas acabam por mirrar, definhar e adormecer, embaladas pelas mãos de Morfeu – De Wiemar.
5. O lugar do aceno demorado aos rostos que os anjos brancos ceifam e distendem num jardim onde o sol queima a saudade e a chuva rega as flores. É o tempo da homenagem àqueles que partem, mas, porque permanecem vivos na memória, jamais o fazem para longe – Arborado.
6. O lugar onde o eu poético procura libertar-se do lastro da memória e, com um brilho agitado no mar dos olhos, olha o presente e o futuro. O que não espera é que, num movimento cínico de Chronos, a linha do tempo se (con)funda, unindo, num suspiro, as mãos e o mapa sem geografia, onde tudo é apenas recordação… leve e frágil reminiscência – Envío.


Em síntese, Adiadas Dunas oferece-nos a demanda por um sentido inteiro do mundo desfraldado nas crinas das palavras, onde significante e referente, porque agarrados a um lastro comum – as emoções – possam convergir no seu sentido mais perfeito.

Restos

Quedamos nós
como sen luz e transgredidos
cheos de ollos e de voces
que xorden como maxias imposibles,
como o sangue coagulado
que se amorea, e espertamos
sen saber que fluíra algunha vez.
--------------------------------------
Unha palabra cínxenos á vida
e con nós busca o silencio.

[Francisco Mariño]