sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

como nos poemas


                                          jorge molder


e eis como os dias não se fazem apenas dias:
meteorológicos, mitológicos, ontológicos e ilógicos
[e tudo o mais que o silêncio aborte da boca do mundo]
são resina a escorrer à beira-dor
em passo lento
devastador, cirúrgico, operário
consumindo a língua dos segredos
cinzelados por mãos que se desprenderam do corpo.

sobrevivem os dias.
e sou manhã, tarde e noite dentro do dia.
sobrevive o corpo.
e sou o que não morre mas que agride mais do que afaga.

longe do silêncio dos dias e do corpo
as mãos escarnecem
como se a vida começasse naquele hiato
sem sermão, pregador, ofício ou deus.
falsa liberdade esta, a retinir nos tímpanos
[as sereias ainda são todo o canto que engana o mar].
mas já sem mar
e a léguas do sonho,
as mãos enrijecem, apodrecem, quebram na areia
que lhes prometera
o voo sem órbita e a viagem sem voo.

e o corpo tem a saudade tatuada
e o corpo amordaça a boca
e o corpo perde o tacto
no motim das mãos que impõem a despedida dos dias.
e os dias são fábulas
e os dias são narrativas sem prosa
e os dias são personagens  de ficção
sobre a geografia das mãos sem capital.

oh, se eu conhecesse a fundo as lendas dos dias
os episódios do corpo,
as estórias insulares das mãos
restauraria a língua que nos trouxe o arrepio
sem calendário:
amarmo-nos como nos poemas.

[saberão os homens viver
como os dias?]

a touch of spice [ost] up at the attic

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

morfina

                                           braga [pormenor]

já não sei quantas vezes
me escorreu dos dedos a tua morte.
ficava imóvel a olhar as mãos como se
em cada linha exangue adormecesse o perdão.
sei lá se deves acreditar…
os poetas vendem sempre os sonhos
que plantaram do lado de fora do coração,

mesmo que com o estore fechado.
deixa que a agulha rasgue a pele,
penetre as veias emaranhadas
jorre o sangue em golfadas
de gozo, de luxúria
até que o corpo arda em orgasmos
e se tolde a imagem em negro.

o fósforo risca a noite e acende o rosto.
tem cara feia, mau hálito e não toma banho.
falta-lhe ser homem,
aguçar o sexo
gastar a saliva na pele olorosa
onde a primavera esconde os segredos
que jasão julgou serem de ouro
[qual quê? apenas gemidos em prosa perdida].
é um poeta. um semi-homem. uma ave quase-louca.

já não sei o que te dizer
parece que todas as palavras arderam.
gastou-se a imagem em bancos de nevoeiro
e o farol queda-se em silêncio
[malditas âncoras, malditas
enrolam-se em sargaço
que vem apodrecer na praia
e o sal não te marca mais o corpo].
bocejam os poetas, esquecidos nos escolhos.

a loucura é a única certeza dos amantes.
o amor é a derradeira mentira dos poetas.

laura alberto & jorge pimenta

the legendary tiger man, naked blues

sábado, 22 de janeiro de 2011

etiquetas X


I. tese / contratese
“só para nós não morre aquilo que morre connosco”
[gabriele d’annunzio]

saibamos,
pois,
viver tudo o que ainda não nos morreu.

                                                    la coruña, espanha

II. brevidade
línguas de nevoeiro
depõem a humidade na tua janela.
boca lábios vulva
são todos os nomes que
massajam o orvalho dos lábios
agitam a pacatez do sangue
e devoram a madrugada resinosa dos pinheiros
enquanto o corpo acende em cio nómada.

na fogueira branca arde a breve eternidade.

                                                                                                        cabo da roca

III. expedição
escalei a tua morte
com versos nas cordas
e flores nas mãos;
apaguei a memória
com álcool no coração
e fumo no peito.

                                          foz do rio minho, caminha [pormenor]

IV. conjurados
caem as palavras
rompe-se o verso
perde-se a voz
estoura o peito.

e agora,
sem a ilha a boiar nos olhos,
resta-me vaguear sobre o pó
gasto pelas unhas
de um gato sem nome.

                                          foz do rio minho, caminha [pormenor]



roger waters, it's a miracle

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

viagem

                                          henri matisse, la joie de vivre

no dia em que te der as mãos
e toda a minha certeza
a casa não será apenas a pedra que nos aquece.
dar-te-ei os livros e as recordações
e todos os mapas do meu corpo
onde a geografia
seja apenas bicicleta em viagem pelo mundo

e tu todas as cidades
e todas as estradas
e todos os telhados
que saberei percorrer
nas rodas dos lábios
e no guiador dos prazeres
[sempre sem travões].

no dia em que te der as mãos
todas as embarcações serão o porto.

no dia que te der as mãos
e toda minha clareza
a casa não será apenas a pena que nos aparece.
dar-te-ei os lírios e as revelações
e todos os meios do meu corpo
onde a grafologia
seja apenas borboleta em viagem pelo mundo

e tu todas as paisagens
e todas as floradas
e todos os terrenos
que sentirei percorrer
nas rosas dos lábios
e no gerador dos prazeres
[sempre sem trovões].

no dia em que te der as mãos
todas as expedições serão o gozo.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)


madredeus, ao longe o mar

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

bilhete de identidade

                                   jorge molder

não sei quando nasci
[a memória dormia ainda na ponta dos pés de uma bailarina].
sei que as manhãs já sacralizavam o tempo
com candeias de bruma pela estrada.
nada mudou;
apenas depuseram o orvalho
sobre o nome
e abriram a cortina para a cidade adormecida.
nem um porto
nem um lírio
nem um cavalo selvagem.

e a primavera louca se fizera
como os pássaros que se desprendem das asas
aceitando dividir a casa
com coágulos do nevoeiro.
talvez já não saibam delimitar as estrelas com a mão
neste hospício de cal branca
onde as vísceras e os ossos
aquecem a noite e os silêncios.
perdeu o manto
e deixou de sonhar
e todo o tempo se fez velho.

não sei quando nasci.
como ontem,
hoje o nome estremece no arquivo
ao lado de anagramas e estações do ano.
como ontem,
hoje o rosto no espelho
assobia lugares estranhos.
hoje,
ao contrário de ontem,
esta carne mascara-se de cera
e despede os músculos e a alma
numa ejaculação que engravida a terra e o vinho
[tenho-os secretamente guardados num frasco de vidro
com uma etiqueta perfumada.
creio que tem escrito “coração”…
ou “coroação”?...].

toda a mão que rasga o útero merece aprender a morrer.
mas foi ela um dia
[talvez o de aniversário]
que mordeu os lábios do vento
e cuspiu a terra para as sementes
[a desilusão nidifica em árvores tão estranhas].

e a morte escondeu-se no alfabeto.
e a primavera voltou a ser uma estação do ano.
e a mão solitária costurou todo o corpo,
com a paciência magra que denunciou o crucifixo.
aprendeu a sorrir para a lua
com os dentes brancos de margaridas
que caíam lentamente sobre o perdão.

não sei quando nasci…
sei que todos os homens são loucos.


muse, unintended

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

perfumes

                                berenika

perdi, um dia, o mar a gemer sob as aves
mas ainda recordo o brado do promontório.

não sei porquê,
desdenho de todo o âmbar da memória
mas temo a urgência do olvido.

os seus olhos de sal
e as unhas de pedra
onde se espreguiçam o vento e o tempo
fizeram falésia no meu peito;
investem com frémito conta a pele
decapitando os caminhos que percorri
e assombrando os que não ousei pisar.

hoje, são os atalhos além da maré
que soletram o meu nome.
terei ido a tempo de assistir ao parto das árvores
que sabem germinar flores e frutos
no silêncio do mar?

hoje, em tudo creio.
[apenas duvido da viagem].



evanthia reboustica, the railway station
[tema do filme a touch of spice, realizado por tassos boulmetis]

nota: a touch of spice ["politiki kouzina"] é uma pélícula grega, com a assinatura de tassos boulmetis (2003), que toca a ligação secular (sempre tensa, no mínimo) entre as culturas grega e turca. fanis, um jovem grego, aprende com o avô, cozinheiro de profissão em istambul, que, tal como a comida, também a vida deve ser bem condimentada. acaba, ele próprio, por se tornar cozinheiro e seguir a sua vida. mais de 30 anos volvidos, fanis regressa às origens, onde reencontra o avô e o amor da sua vida; nesta confrontação com o tempo e consigo mesmo, acaba por chegar a uma conclusão: esquecera-se de temperar a sua vida.
a banda sonora tem a assinatura de evanthia reboustika. recupera a mais fina tradição bizantina na sonoridade e na delicadeza sofrida da voz. é impossível resistir-lhe.
agradeço à minha querida amiga eleni ter-me ajudado/ajudar-me a compreender um universo cultural que apenas tocara através dos canais informativos e pelos compêndios de história.
um beijo, eleni!


evanthia reboustica, allspice

[tema do filme a touch of spice, realizado por tassos boulmetis]

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

os seis sentidos

                                                                 fotografia de pedro polónio,
                                                                 http://club-silencio.blogspot.com/

I. olfacto
amanhã quando acordares, não
te esqueças de fechar os olhos
guarda o nosso cheiro no vidro da mesinha.

II. audição
martelo, bigorna, tímpano.
a nova retina do ser
nasce do som do teu bater de asas.

III. paladar
amanhã, banha-te na água das
nossas lágrimas. arrumadas na prateleira
estão as línguas. em sal.

IV. tacto
seda ou areia,
só com o teu corpo
se escreve a palavra “pele”.

V. visão
amanhã quando te deitares
pousa os olhos sobre os destroços
em que nos guardamos.

VI. intuição
mesmo não sabendo se existes,
sinto.
e se não basta…
[laura alberto & jorge pimenta]


portishead, machine gun

sur-realidades

                                berenika

– Tu, quando estás comigo és surrealista.
– Surrealista, simbolista, decadentista… Chovem os sufixos gramaticais, mas esconde-se a matriz semântica.
– Tu, quando estás comigo és surrealista, até porque o papel é permeável a toda a chuva.
– Continuo sem gabardina para resistir à enxurrada, sabes? Até porque as etiquetas sempre me confundiram e a poesia é impermeável. Tu e o teu surrealismo ajudam a entender (me)?...
– Deixa lá, a pele é permeável a toda a chuva. Afinal, o que é o sangue sem a água, a água sem o sangue, o real sem o surreal?
– Às vezes pergunto-me sobre o que está mais próximo de nós: o real ou a sua caricatura – pomposamente etiquetada de surreal? Ei, passas-me o espelho? Não consigo respirar…
– Não encontro o interruptor. [Cegueira total].
– E a pele? A impermeável pele, terá desaprendido de tactear, de alumiar?...
– Deixa-a de molho. Quem sabe encontra os ossos que vestir. Olha, parti o espelho. Crás!
– Oh, e agora? Preciso do vidro. Sabes, é que eu temo a água e o seu reflexo; foi-me dito que derrete os olhos. Já não sei o que é pior: asfixiar ou deixar de ver…
– Destapa o frasco. Bebe o veneno.
[A cortina corre, a luz apaga-se, os aplausos escondem-se no interior das algibeiras. A humilhação é o granizo que lava, hoje, o palco].
[Laura Alberto & Jorge Pimenta]


– Queria oferecer-te o que não tenho – o lobo e o cordeiro cabem na mesma veia. Achas que o ar que nos falta é o segredo que os junta?
– Toma. Gostas?
É a panela mais silenciosa que encontrei.
– Deixa-me simplesmente fic-ar.
[E a nossa vida enche-se com tudo aquilo que não nos cabe].
[Laura Alberto & Jorge Pimenta]


mão morta, tiago capitão

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

elegia [ao ano velho]; ode [ao novo ano]

                                jean sebastien monzani, the exception

eis-nos chegados à derradeira fila.
365 passos e tantas cabeças a farejar
um céu feito de carne [como os cães vadios]
e o silêncio de estrelas [como os homens].
a meio caminho, anéis de tempestade
enrolam marés e praias
onde os rostos são gaivotas de ferro
que vomitam fumo sobre escarpas de pele
e fazem ninho nos sonhos da soberba agonia.

pela estrada
desci barragens e subi promontórios,
chovi mágoas e acendi fogueiras
deitei-me sobre a terra e corri à beira-mar
naveguei artérias e perdi corações
anoiteci ao meio-dia e enganei primaveras.
e, no final, o círculo do tempo
encosta o crepúsculo à aurora
como se o ontem e o amanhã se ligassem
pelo batom de lábios redondos
em permanente incêndio.

e agora?
é a hora.
recitemos a primeira luz do dia
na aparência do seu limite.

 
the smiths, please please please let me get what i want

a todos os meus amigos, que o novo ano ofereça a materialização plena do caminho a que morrissey aponta nesta imortal canção dos the smiths: please, please, please, let me get what i want.
um abraço!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Noite de Consoada


                                            Ana Margarida

A mão fria da noite caíra já sobre a cidade. Não admira, é Dezembro e basta que soem as cinco badaladas na torre da igreja para os corações urbanos passarem a rufar alvoroçadamente. É que se a noite é grande, o dia mal chega para cumprir o ritual sem falhas. E há ainda tanto por fazer… a ceia, farta e trabalhosa, os brinquedos das crianças por comprar, a esmola aos pobres da caridade… ah, o bolo-rei, meu Deus, e o bolo-rei!?...
Sozinho, em casa, não posso perder a magia da noite branca que, presume-se, torna os seres humanos mais próximos da ideia original do Criador!
Levanto-me lentamente da modorra do sofá, enfio os braços nas mangas do sobretudo, ajeito o cachecol que comprei ali mesmo, nas barracas de rua, numa manhã tão fria quanto esta noite de consoada, e bato à porta da cidade. Recebem-me miríades de reflexos projectados obliquamente desenhando céus de luzes que escondem as estrelas; coros de crianças entoam cantares que todos um dia aprendemos junto à lareira, mas agora mais ritmados e amplificados por gargantas electrónicas que se espalham ao longo do presépio animado. Aqui e acolá, vultos apressados tropeçam em sacos coloridos de onde pendem, molemente, fitas e embrulhos fechados a correr, creio mesmo que sem ver… sem me ver…
Dentro de mim, a noite era silenciosa, escura e fria. Noite de Inverno, já se vê. Nem mesmo a companhia dos gatos que, como eu, vagueiam pelas artérias nuas, em busca de um sorriso esquecido, conseguem revelar o negativo fotográfico que, qual parasita, se alojara no meu coração. Do lado de fora, prossegue a sinfonia de talheres que estilhaçam os vidros e gargalhadas exuberantes que silenciam os gemidos da noite.
Aconchego o cachecol ao pescoço, subo a gola do sobretudo, deito o olhar ao chão e tomo o caminho de casa. A noite está quase a passar… Quando é o Natal?...

24 de Dezembro de 2008


A todos os amigos que se fazem próximos pelos blogues deixo um abraço com os dedos longos da neve quente que sempre se faz doce na lareira do coração.


Feliz Natal e até breve!


The Pogues & Kirsty Maccoll, Fairytale of New York

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

credo

                                 jean sebastien monzani

quem és tu?
trazes a boca perdida na insónia
e nem o tabaco e os dedos amarelos te sossegam.
perdeste os frutos do estio
[como foi possível anoitecer os risos brandos
em torno dos brincos de cereja?]
e com ele todo o verão.

não, não esqueço,
mesmo que apenas fantasmas de sangue.
não, não morrem
as imagens da terra fértil
em que o beijo era o pão
e o desejo o farol da loucura.

e mesmo que um dia adormeça sobre a cama de relva
que fotografa o passado
não deixarei de sonhar
com os arcos de pele contornando as estrelas
nesta falésia de perfume adormecido.

tudo o mais
é orvalho sobre uma folha indecisa
que o vento desprendeu da árvore.
por debaixo da ramagem continua a crepitar o fogo.


the cure, a thousand hours

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

etiquetas IX

                                            robert frank, new mexico, 1955
I. arbítrio
é a pulsação da terra
deitada sobre a pedra cinzenta
agitando a desilusão.
o amor assim se ganha e assim se perde:
na punção das cordas por atar
e no olhar de aves que perderam o voo.
que mais recear?


II. urgência
vou ligeiro
em pezinhos de céu
e por chão de estrelas

[não vão os derradeiros sonhos
esconder-se assim
não vás tu
escarnecer de mim]


III. adversativa
mas
que corrente de pedra
é essa que te navega o sangue
agitando as veias
em sístoles e diástoles
de hesitação feminina?


IV. os degraus da voz
cobre-me com o lençol de rosas
atira-me à terra que alumia.



jim morrison, a feast of friends

domingo, 12 de dezembro de 2010

Adiadas Dunas: Poesia à solta na Casa-Museu Nogueira da Silva

Decorreu ontem, na Casa-Museu Nogueira da Silva, em Braga, o lançamento do aguardado livro de poesia do poeta galego Francisco Mariño, pela mão da Editora Calidum.
Natural de A Corunha, Mariño é professor de Literatura Alemã na Universidade de Valladolid, mantendo uma produção na área a vários títulos notável. Adiadas Dunas é, todavia, a sua primeira incursão no domínio da produção poética.
Coube ao Mestre e amigo Henrique Barroso e a mim próprio a responsabilidade de, primeiro, e a duas mãos, escrever o prefácio para, ontem, apresentar a obra na cerimónia de lançamento.


Em Adiadas Dunas emergem um conjunto de seis partes, cada uma delas exercício de revisitação de lugares de primordialidade pessoal:
1. O lugar do reencontro com um tempo e um espaço que querem saltar as areias da ampulheta para se inscreverem, eles mesmos, no tempo e no espaço. Somos, assim, convidados a percorrer as galerias “do tempo esmorecido”, um lugar líquido, instável e refractário, onde as chuvas e as águas do mar escorrem de um passado suspenso na distância da irreversível memória – Chuvias Idas, Mares que Fuxem.
2. O lugar onde as águas do mar contornam os areais instáveis da alma, à esquina da razão, perdendo o sal na memória de um “tu” plural – Areal.
3. O lugar onde a noite, com braços frios e dedos longos, acolhe o coração no fogo-fátuo do desamparo – Noitebra.
4. O lugar da recuperação de um tempo de ausência e abandono emocionais que a memória persiste em não conjurar; é aí que as folhas outrora viçosas acabam por mirrar, definhar e adormecer, embaladas pelas mãos de Morfeu – De Wiemar.
5. O lugar do aceno demorado aos rostos que os anjos brancos ceifam e distendem num jardim onde o sol queima a saudade e a chuva rega as flores. É o tempo da homenagem àqueles que partem, mas, porque permanecem vivos na memória, jamais o fazem para longe – Arborado.
6. O lugar onde o eu poético procura libertar-se do lastro da memória e, com um brilho agitado no mar dos olhos, olha o presente e o futuro. O que não espera é que, num movimento cínico de Chronos, a linha do tempo se (con)funda, unindo, num suspiro, as mãos e o mapa sem geografia, onde tudo é apenas recordação… leve e frágil reminiscência – Envío.


Em síntese, Adiadas Dunas oferece-nos a demanda por um sentido inteiro do mundo desfraldado nas crinas das palavras, onde significante e referente, porque agarrados a um lastro comum – as emoções – possam convergir no seu sentido mais perfeito.

Restos

Quedamos nós
como sen luz e transgredidos
cheos de ollos e de voces
que xorden como maxias imposibles,
como o sangue coagulado
que se amorea, e espertamos
sen saber que fluíra algunha vez.
--------------------------------------
Unha palabra cínxenos á vida
e con nós busca o silencio.

[Francisco Mariño]

25 anos: Mão Morta no Theatro Circo

Não tinha sequer vinte anos quando assisti pela primeira vez a um concerto de Mão Morta, ao vivo. Recordo poucas coisas com nitidez e do flash difuso ocorrem-me imagens anónimas de um pavilhão em total desconcerto e caos.
Essa sempre foi, de resto, a imagem que Adolfo Luxúria Canibal passou. O retrato do ser fracturante, a roçar o anarquismo que, muito por força de uma personalidade com contornos definidos e de uma inteligência acima de média, surgia espontaneamente, sem qualquer tipo de artificialismo cultivado.
Hoje, com Adolfo já nos 50 anos, vê-lo a actuar é uma experiência totalmente diferente. O charme e o carisma estão lá, ainda que mais domados (até pela já proeminente barriga); os incitamentos rebeldes são velados e mais encenados do que genuínos; nas cadeiras, o cabedal negro cedeu lugar à miscigenação que caracteriza as tendências actuais, onde cetins se misturam com algodões de cores diversas. A música? ainda rock cru e duro, mas aqui e acolá pontuado por pormenores pop e até electrónicos. De inalterado, apenas as letras, onde os complexos humanos e as suas forças vitais (sexo e morte) determinam a linha maior (presentemente, muito marcadas pelas reflexões de J. G. Ballard).
O último álbum, “Pesadelo em Peluche”, tem sido aclamado pela crítica. Foi isso, para lá dos seus 25 anos de carreira, que fizeram regressar os Mão Morta ao palco da sua/minha cidade: o emblemático Theatro Circo. A noite escondeu-se por detrás da voz sussurrada do Canibal, durante quase duas inesquecíveis (nostálgicas, também) horas.


Mão Morta, Novelos de Paixão

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

tessitura de inverno


duyn huyn,  dreaming under the moth moon


não haverá uma só coisa
que cante em voz alta
nem uma só
em que acredite o olhar.

tanto perdi
que os bolsos vazios
são agora bússola e estrada.

cabe-lhes o tempo
e o seu rolo de argila sonora;
sobra-lhes o poema
onde só a decepção
inaugura as ramagens
de um inverno de nuvens claras.


david bowie, i'm deranged

sábado, 4 de dezembro de 2010

miríade

maria valentina

são mais de mil
as lâminas que espreitam
na varanda dos olhos.

debruço-me
sobre o horizonte breve do livro

[o poema nunca escolhe a mão:
deus, homem, poeta ou demónio?]

a única queda que aceito?
a água no seu leito.

são mais de mil
as flâmulas que espelham
na voragem dos olhos.

debulho-me
sobre o horizonte bardo do livro

[o poema nunca encolhe a mão:
ateu, bicho, poeta ou anjo?]

a única veda que aceito?
a alma no seu peito.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)




lhasa de sela, rising

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

helenismos

I. mediterrâneo
uma aranha borda o mar com patas de veludo azul.
entre a água e o abismo
o coração dos homens ensinando aos deuses
que a casa nunca é apenas a pedra que nos escreve.

nauplie [primeira capital da grécia]

II. pártenon
os deuses ergueram as colinas
na estrada que lava o sangue dos homens.
foi esse o dia em que a terra me segurou pelos braços
e inverteu os hemisférios.

acrópole

III. atenas
levantas o pó da estrada
e ofereces o coral líquido
[mesmo em insidioso equilíbrio
rezei].
athena não desceu do altar
mas desvendou o céu
e amparou o voo
[os pássaros também batem o pé
e aprendem a gritar].

e agora, convidas-me a ficar?

erecteion [perspectiva de uma cariátide]

IV ágora
no livro da ágora
há vulcões inflamados onde crescem morangos
e planícies que agitam a voz.
ah, se eu mandasse,
os deuses haveriam de ralhar
e a verdade despiria o anonimato.

os céus de corinto

V. afrodite
serás tu a palavra
que abre o rosto e alaga o corpo?
[pergunta o poeta]
serás tu a boca
que doura o mel no pólen do amor?
[suspira o amante].
o silêncio é a única resposta que os assombra.

erecteion

VI. regresso
que noite é esta
que depõe a despedida na tua mão?
acaso terei cantado alto de mais?

teatro de epidauro

VII. regresso II
somos apenas a saudade
e o seu derradeiro antídoto.

entre amigos



bouzouki

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

a porta dos violinos

o altar dos ventos (a acrópole ao fundo)

no sopé da colina, detalhe (a acrópole ao fundo)

o arco da poesia é incerto
não o nego
algures entre a flecha e os signos.
assim é a vida:
contamina a presença com a ausência
inaugurando o vazio verbal.

no novo tempo da página
caem deuses e templos
de uma antiguidade recente:
da ágora ao partenon
lábios de mel escorrem
sobre os beijos da memória
enquanto chronos cobre fendas
na nascente que se fez pedra.

a hora é frágil
sob a respiração da lua branca.
no altar dos ventos
ofereço o corpo ao olvido
[o absoluto sempre foi o bilhete
asfixiando na garrafa do náufrago].

talvez um dia receba a imagem inteira
de um olimpo-por-descobrir.

atenas, 23 de novembro de 2010




mediterrâneo, ost, 1992

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

etiquetas VIII

I. argila
Já não esperas o sul do corpo
ou as pérolas nos olhos dos pássaros.
[entre os uivos dos vivos e a serenidade dos mortos]
podes perder o instante
mas ainda há a eternidade.

praia da polvoeira

II. tiestes
o sol roeu-nos o corpo
lambeu-nos os ossos
e limpou-se ao tecido da pele.
ao castigo escapou a alma
que vive acima do homem
e não se deixa seduzir
pela nudez da tua voz.

são pedro de moel

III. máscara
corvos loucos
pintam os rostos e
despem os corpos
com pincéis negros na voz.
a arder-lhes no voo
a noite:
faz ninho sobre o meu peito.

jorge molder

IV. vertigem
alfabeto do corpo
mãos grávidas
ascensor dos deuses.

jorge molder



lhasa & stuart staples, that leaving feeling


sábado, 13 de novembro de 2010

deserção

àqueles que não desistem
àqueles que têm os olhos grandes
àqueles a quem nascem raízes nos pés
àqueles que conservam a verdade na voz.
[os outros? simplesmente não existem...]

jan saudek

as cidades de coral
descem sobre os homens.
enchem-lhes a boca
com palavras completas que mentem
na hora de nomear todas as coisas -
rostos sujos casas vazias
pratos quebrados telhas varridas
aço ferro e algodão

somos o reflexo
da árvore que enterrou a floresta
somos o espelho
do poema que perdeu a mão
e nessa grandeza de argila
um rosto
[um] só;
apoia-se sobre a lâmina que,
rasgando o solo,
é osso e estandarte
de um lugar que foi seu.

ousa despir as palavras
ameaça roubar os silêncios
e entra
seguro
na escuridão
que lhe anoitece o corpo
e o canto.

que mania a minha
de chegar sempre tarde
aos lugares onde não me esperam...


lhasa de sela, i'm going in