quinta-feira, 14 de outubro de 2010

etiquetas VI

jean sebastien monzani


I. verbicídio
um dia hei-de escrever a tua história
(logo após ter matado todas as palavras)


II. (in)confidência
falei-te de mares que dormem
e de pássaros escondidos atrás do peito
respondeste com a mudez marinha
de canções que perderam a letra.
acreditas que a morte saiba guardar segredo?
(pssssst…
quero que saibas
que mesmo entre rostos de neblina,
há sempre alguém
que não nos deixa morrer).


III. fractura
deixaste de invocar versos
e já não sabes ler ou escrever.
para quê a poesia, então?
ruíram todas as escadas
estendidas sobre os rios.


thom yorke, analyse

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

etiquetas V

ian saudek


I. colheita
os copos estão vazios
embriagados no álcool da viagem.


II. profana comédia
o riso dos homens
salta das janelas da noite
como borboletas em chamas.
o fogo beija-lhe a pele
incendiando bocas e línguas
em latifúndios de prazer.

por que é que só sei sorrir?


III. ítaca
da terra sobe um hálito floral
que toca os abismos do oceano:
marés de sangue atolando a cabeça
correntes de fel estacando o peito
ventos húmidos arrepiando o sexo.
entre sereias e penélopes
uma só certeza:
ulisses vive.


IV. pomares
somos o tempo
(diz borges).
qual é, então, a idade do coração?
(pergunto-me).
talvez a dos frutos sem sombra.




radiohead, street spirit (fade out)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

dele e dela

alessandro bavari

diz ele:
o destino mudou
mas as pedras permanecem intocadas.
ainda sou capaz de segurar o teu nome nos lábios
sem anagramas interrompendo a brevidade do verso.
sabes? eu sou a escrita!


diz ela:
o caminho é invisível
e da breve travessia dos corpos recordo apenas pegadas.
são gretas de noite a secar-me os lábios
e o nome? tão-só a memória do poema.
sabes? eu nunca soube ler…


digo eu:
os olhos dele e dela recuaram para o interior das estrelas.
as mãos tocam-se na meteorologia do desejo
mas os dedos desprendem-se
do movimento elíptico do mundo.
cospem o beijo na saliva de pétalas
que um dia quis ser jardim sem morte
mas a terra estremeceu e interrompeu o monólogo
dele
dela.


as bocas fecharam-se num silêncio de árvores
e dos corpos (dele e dela) restou apenas o calor
adormecido no aquário da linguagem.



nick cave, jesus of the moon

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

poesia? (ou a sentença de morte)

duy huynh

os olhos cegam
no meteorito fingido da poesia.
comecei a falar baixo
para o sacrifício do verso
e perdi a nave da eloquência
no litoral do corpo.

o escopo? a tinta? o livro?
chovem sob a luz do candeeiro.

ah, poema,
renego de ti,
traço fino do amor
que floresce no musgo do sangue,
escarneço de ti,
violino sem maestro
que inveja a orquestra,
desdenho de ti,
beijo de açucena
que arrasta o lábio pelos cabelos.

e neste silêncio verbal
rolam sexos para fora do corpo,
sorrisos para o canto da boca,
sonhos para longe do peito.
afinal a cortina de água
fechou a boca de cena.

quero agora tocar a vida
no seu bocejo indomável
que se agita do outro lado do palco.
a poesia?
os tontos que lhe estendam a mão.



nick drake, place to be

terça-feira, 28 de setembro de 2010

etiquetas IV

fotografia de jorge molder

I. perspectiva
por vezes tudo sangra.
quase nada se esquece…



II. concessiva
continuo a acreditar
na explosão da alma
sob a locomotiva da pele.

e o sangue a correr de boca em boca.



III. (in)tensões
talvez um dia
te saiba ler com as mãos
talvez um dia
possa sangrar-te o nome
talvez um dia
me deixes escrever-te no peito

então,
não sabes que a loucura
arde ao lado do grito
na caverna ácida das intenções?



IV. hiato
o chão da vida
no derradeiro verso
racha o sono e o sonho pela metade.

já nem as noites sabem ser inteiras.

leonard cohen, the partisan

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

advertência

fotografia de josé figueira

quando o silêncio,
lascivo,
te lamber o peito
em busca da palavra que já não sabes dizer,

lembra-te, amigo,

não é o verbo,
quem viaja na sintaxe do ser
não é o verso
quem alimenta o animal louco;

são comboios e aviões,
automóveis e navios,
usinas e buzinas
em ejaculação mecânica
sobre ventres estéreis
onde a escrita é apenas
uma invenção dos homens
e o amor
a anedota maior
na boca dos deuses.




the mars volta, the widow

sábado, 18 de setembro de 2010

de olhos fechados

queridos amigos,
não tenho movimentado o "viagens" e tão pouco vos tenho visitado nesses lugares que muitos, respiram, já, como pele da sua própria tecitura. os meus olhos estão em repouso, sob uns óculos escuros, desde quarta-feira e assim terão de permanecer por mais alguns dias, pelo que as viagens permanecerão em rota branda, mas definida.
deixo-vos aqui um pouco do que senti "de olhos fechados". a música seleccionada é apenas um flash de cor, luz, brilho e som que o "império do sol" nos oferece e que nem sempre valorizamos:



empire of the sun, we are the people

prometo regressar à actividade dos blogues (e, sobretudo, das palavras e sua magia) dentro em breve. aguardem-me :)

um abraço com saudades de todos os meus companheiros de viagem!


de olhos fechados
é a treva
impressa dos dois lados do corpo.

a beleza com os olhos abertos
onde outrora
a árvore guiava o homem;
os óculos escuros
atirados sobre a noite
onde hoje se esconde o olhar.

das figuras rutilantes,
sobram sombras
em movimentos orgásticos
que percorrem o fogo da epifania.

a beleza fez-se sémen estéril
e apodreceu
às mãos
que trajam escafandros sem mar.

e o homem
por detrás do olhar nocturno
transveste-se em tecido negro:
é apenas a cegueira antopológica.

mergulho na noite (jp)

domingo, 12 de setembro de 2010

etiquetas III

I. a morte da escrita
porque escrevo,
sei
como a chuva te abre
e a mim apenas encharca.

porque escrevo,
decidi:
hoje canto o azul
num aparo sem tinta.

albufeira de vilarinho das furnas (gerês)


II. metamorfose regressiva
vá,
as águas verdes
que desprendem a língua
enquanto permaneces só,
sentado à porta,
jamais serão tuas.

vá,
varre as pedras da cabeça
e sai.

entre mundos (gerês)


III. anagrama
escondeu o seu nome
debaixo da pele.

não imaginava que um dia perdesse
a memória…
e o vinho perdeu
os lábios.

trilho na geira romana (gerês)

IV. colírio azul
enquanto deus
castiga os olhos
a fogueira arde
nas linhas do nome.

apenas colírio azul
entre sombras.

albufeira de vilarinho das furnas (gerês)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

factura

alessandro bavari, trypticon

nenhuma factura
fará esquecer a chama trémula
que nos levou até às palavras de papel
que não conhecem silêncios.

nenhuma factura
fará regressar os frutos silvestres
que substituíste por cristalizados
na taça do centro da mesa.

nenhuma factura
está guardada na carteira.
agora pagas o teu leite
e eu o meu tabaco
(nunca gostaste de dentes escuros
e eu do hálito branco).

é verdade,
nenhum dos dois saiu ileso
do automóvel que perdeu a curva
mas também não adivinhávamos
que a noite nos caísse sobre o peito
rasgando-nos o ventre clandestino.
se a morte jamais avisa,
por que o faria o fim do amor?




catpower, in this hole

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

epifania

salvador dali,angústia

o manuscrito da epifania
morre,
lentamente,
na noite que o escreveu.

a tinta:
seca
nos degraus da árvore;
o dizer:
cego
no glossário do teu olhar.

o meteorito da epifania
mata,
loucamente,
na noite que o esqueceu.

o tempo:
servo
nas dobras da árvore;
o desler:
centro
na galáxia do teu olhar.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)


Jessica yeh, sad violin

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

etiquetas II

évora (pormenor)


I. botânica humana
há um traço vegetal
a cruzar-nos
desde a nascente até à foz:
é o que (des)espera
pela mão que o saiba tratar.


II. resignação fértil
há uma morte que me persegue.
os dedos
mais longos que as minhas pernas
e a sua voz
canta-me na boca.
vá,
basta de cardumes de camélias
e barcos a evitar a corrente do álcool;
que o gigante me atropele de vez
(mas por entre os contornos do teu olhar).


III. a.deus (ou a.todos.os.homens)
todos os deuses
idealizam os próprios filhos.
será por isso
que o azul (i)mortal do céu
entra na noite dos homens
pela estrada onde se põem as estrelas?


nick cave and the bad seeds, far from me

domingo, 29 de agosto de 2010

anatomia

jorge molder, blau

às vezes regresso com a juventude na algibeira.
é raro iludir esse olhar que vigia cada canto da casa como se a vida estancasse a respiração sob aquelas quatro paredes. o corpo dorme: a cabeça, os pés e os braços (o peito morreu, já, debaixo daquele hálito de loucura que conduziu à aridez das veias). mas, entre a apatia e a rebentação, há mãos que crescem na luz crepuscular, mãos que não sabem ler nem escrever, mas que sabem tocar acima do sorriso e abaixo da pele, como se a existência fosse perfeita apenas por detrás de máscaras.
às vezes regresso com a juventude na algibeira.
mas, no percurso dos gatos, estou só e anoitecido…
olha, por que não despes as ruínas com que ignoras as cidades e apagas os terramotos onde vomitas as lágrimas? é tão simples… basta que procures, nesse corpo sem massa, pelas mãos. se necessário, grita (não são precisos órgãos; há muito que aprendi a amar sem o coração). olha, por que não voltas comigo e me ensinas como se escreve, como se lê, toda a verdade embrionária? (mesmo que isso demore todos os lugares e todo o tempo que ladrilham o chão das estrelas). bastaria isso para amputar o sono milenar da anatomia da espera.


catpower, evolution

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

de amores e desamores: efabulações sobre (e sem) rumo

gustavo fernandes, lowder than words

de amores e desamores quem nada sabe, quem nada diz, apesar de tanto haver para silenciar?… uns e outros, apenas ícones que, desde cedo, projectamos para néons de alfazema que assobiam no dorso de elefantes alados ou de insectos rastejantes desta escalada a que ironicamente chamamos de vida.
os amores são assim como que alimentos que se mastigam até se formar um bolo alimentar que escorrega verticalmente pela escada gástrica mas que acaba por nunca saciar o menos exigente dos comensais. são assim como que uma massa disforme que não se vê, mas que se sente e pressente sob as mãos do artífice (umas vezes hábeis, quase sempre inábeis), mãos que a procuram moldar numa forma que encaixe no peito, mas que invariavelmente termina num bibelô banal, assim uma espécie de chávena de café suja ou um prato de pirex fora de moda. o pior de tudo ainda é o esgar do tempo: solidifica a massa e transforma-a no objecto não que procuramos criar (a eternidade), mas que ele inexoravelmente define (o desamor) – tantas vezes agarrado a incontáveis pedaços de argila residuais, como são os casos da incompreensão, da revolta ou da frustração; tão difíceis de remover do corpo uns como os outros e é por isso que os olhos da rejeição, num assomo desesperado de reversão dos estados, procuram chamar construção de areia ao mais robusto castelo de pedra (desses que resistem às investidas de exércitos, quanto mais à fúria insana de um desamado…).
e a pouco e pouco, no arquejar lento de um realejo que torna irrelevantes todas as voltas do gemido do desamor – lá onde cactos e urzes benzem os jardins outrora tratados e viçosos –, os olhos vencidos voltam-se para deus e para o demónio – os ícones maiores que cada um constrói dentro de si: um que acaba por adormecer quando mais dele precisamos; o outro que não conhece nenhum estado senão a vigília dos abutres sobre a carne em putrefacção... e entre o azul celeste e o azul abissal, os lábios dificilmente reencontrarão os contornos das palavras…



radiohead, knives out

domingo, 22 de agosto de 2010

selinhos e distinções

Não ganhei o Euromilhões e tão pouco a lotaria, mas começo a convencer-me de que devia ter jogado… é que, não obstante a infinitude de blogues de indiscutível qualidade na blogosfera, tive a felicidade de receber uma distinção de duas bloguers que fazem parte do meu universo interactivo nestas lides: a em@ e a jb. A ambas agradeço com um carinho imenso a honraria prometendo que procurarei replicar ao desafio que ambas aqui me lançam.

1. Da em@. Eis o selo e suas regras:


1.º Colocar a imagem do selo no blogue;
2.º Indicar o link do blogue que me indicou (http://emapretoebrancoouacores.blogspot.com/);
3.º Indicar 3 blogues a quem reenviar o selo;
4.º Comentar nos blogues indicados.

Acabo de cumprir o preceituado. Indico, em seguida, os quatro blogues (não eram três? Ups, acho que me enganei :)) a quem reenvio o selo (a ordem é perfeitamente arbitrária):
- Mosaicos, da Cid@;
- Poetar É Preciso, da Márcia;
- Teatro da Vida, da Lara;
- Faces do Poeta, da Ira.


2.
Da jb. Também aqui há um selo e um conjunto de disposições a que procurarei, também, replicar:
1.º Lançar o selo o blogue.


2.º Anunciar nove coisas a meu respeito .
Tarefa difícil, ufa… ainda assim, vou tentar, mesmo sabendo que o mais que se diga seja apenas fragmentos de pequenos nadas. À tarefa dei o nome de versos e reversos. Aqui vai.
sei pouco sobre tudo:
1. verso: sei muito pouco sobre mim.
2. reverso: sei quase nada sobre os outros.

3. verso: sei manifestamente pouco sobre o mundo e os seus enigmas.
4. reverso: sei absolutamente nada sobre o conhecimento.

5. verso: sei alguma coisa sobre sorrisos e lágrimas.
6. reverso: sei rigorosamente nada sobre o que faz sorrir e chorar.

7. verso: sei um pouco sobre como aprender.
8. reverso: sei quase nada sobre o que aprender.

9. verso (sem reverso): sei tudo sobre coisa nenhuma.

3.º Indicar nove outros blogues a quem oferecê-lo (também aqui a ordem é arbitrária e acabo por fazer novamente batota, pois considerei 12 blogues e não apenas o número proposto. É contranatura tanta restrição e, mesmo assim, sei precisaria de para aí uns 50 para nomear todos quantos pretendia…):
- Ad litteram, da Zélia;
- Trem da Lira, da Cris;
- Im.possibilidade, da Laura Alberto;
- Primeira Pessoa, do Roberto;
- Mil e um Poemas, do Assis;
- Canto Geral do Brasil, do Pedro Ramúcio;
- Lua, da Andy;
- Verso Lilás, da Ana;
- Diário Extrovertido, do Marcantónio;
- Olhar de Versos e Inversos, da Andrea;
- Roxo Violeta, da Tânia;
- Domingos Barroso, do Domingos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

a loucura

gustavo fernandes, o mar na cabeça

deixei de acreditar em bosques de primavera.
a terra ensinou-me
que uma só árvore é toda a floresta
sem estação ou meteorologia
porque atravessa o tempo e gasta-o
na insanidade dos simples.

os seus olhos ardem no sonho febril
e as alfazemas campestres
remexem o sexo húmido dos frutos,
enquanto respiram do lado de dentro
como se a loucura
se estendesse sobre o corpo de uma mulher
que soubesse amar em silêncio.

ao longe
um som sibila nos ouvidos.
é a voz?
é a palavra?
é o verso?
(ou apenas o silvo seco
de um deus sandeu e cego
perseguindo o seu altar?)

os ramos continuam a bater no exterior da janela.
as folhas carbonizaram
no derradeiro incêndio.




pink floyd, comfortably numb

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

adeus

alessandro bavari, anacoret

dedicado a todos quantos não sabem morrer...
aos anacoretas da árvore do sangue naquele bosque de silêncios...


talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
ao traço frágil
sobrepõem-se
matizes coloridos
que compelem
o aparo e a memória
para a doçura dos frutos
que mordemos

talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
temo
o sol sem luz
e o luar sem pausa
que se escondem por detrás dos caracteres

talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
ainda que seja cedo para o mundo
e talvez tarde para nós...
[01 de Março de 2009]


beth gibbons, mysteries

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

deicídio


fotografia de sebastião salgado

como saber a forma da alma
se o corpo continua a corromper
os altares do teu regaço?

a ciência dos afectos
sustem os mapas da ilusão
onde os sais e demais químicos
ardem num lume verde
não ao ritmo da fórmula
mas do coração

lentamente
assustados
como pássaros loucos
alvejados na obscuridade do voo
pela pólvora líquida dos ossos
…
é o nosso deus a morrer-nos nas mãos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

[d]ela

Pablo Picasso, Mulher em Frente ao Espelho

perdida a mulher
que desperta a serenidade do dia
perde-se o corpo
na estreiteza filosófica do amor
como se apenas a morte
extinguisse o incêndio do ser.

o sangue acelera a rigidez do órgão
e os mortos tremem com a solidão
de cidades transparentes
onde a temperatura desce à noite
e a poesia gela
abandonada no tapete da entrada.

estendo os braços
rodo a chave
enfio a cabeça
(a porta está já entreaberta)
e espreito:
ninguém do lado esquerdo da treva;
apenas o vazio que o bolor corrompeu.

do poema
versos uivam na superfície da fala
num frémito de lábios e bocas
que se agitam num tango invisível;

do homem
estilhaços de palavras agonizam
sobre o pó da estrofe
com um ritmo lento, cansado

… quase mudo.




lisa germano, the darkest night of all



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

húmus

Fotografia de Jorge Molder

tem a certeza do bolor
naquele rosto helénico
porque leu que a morte acelera a terra
onde lavram o corpo e a imagem
no engenho do espelho lento

sabe que na boca
apenas vive a espuma das palavras
que sustentam as árvores de pé
(mesmo que as raízes sejam apenas andaimes
na verticalidade dos ossos
expostos à lascívia de bordéis sem sexo)

perdeu a voz
e o hálito da ilusão
com que se soletra a felicidade
algures entre a gramática e o erro
como se os afectos que não conhece
se escrevessem com tinta de água
(os sentidos afogaram-se no mar)

apesar das manchas no céu da boca
e da cinza escondida nos lábios
ainda espera pelo dia
em que a língua renasça
do outro lado do poema

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

etiquetas

Fotografia de José Figueira

I. fogo

o poema incendeia
mas o poeta já não sabe arder.

onde te escondes, auto-de-fé?...



II. memória

ouvi dizer
que perder a memória
é morrer duas vezes.

morri-me.
morri-te.



III. colagens

porque o corvo
me ensina o grito da loucura
e me empurra para dentro
dispo os braços secos
e atolo-me na tua imagem muda.



IV. A morte do verbo

gaguejo
balbucio
sussurro
murmuro
falo
grito
brado
vocifero

as palavras gastam-se
em bocas sem saliva
e definham
nos submersos degraus da morte.




red apples, cat power