todo o homem foi um dia
todo o mundo.
no corpo o mel e os jasmins
ordenados num compasso
traçando as linhas do instante.
a cabeça tocava o sol
o coração o eclipse
e todo ele foi nave de seda
e cidade transparente.
todo o mundo foi um dia
todo o homem.
sei que o peixe de fogo
ainda guarda o enigma da felicidade
no fundo do teu olhar
breu líquido
onde só o homem desassossegado sabe chegar.
Interpol, Pioneer to the Falls
refrão:
"And oh you try..
You tried.. straight into my heart
You fly.. straight into my heart
Girl, I know you try...
You fly.. straight into my heart
You fly.. straight into my heart
But here comes the fault (fall)."
domingo, 20 de junho de 2010
quinta-feira, 17 de junho de 2010
errância
Fotografia de José Figueirao malmequer errante
entrega-se às coisas máximas
na berma do peito.
pergunta-me se existe
o amor.
a resposta rasga as veias
e entranha-se no impulso do sangue
queimando-o da raiz até às pétalas,
como o sorriso nos lábios do medo.
nesse dia
não soube o que é o amor.
nesse dia
descobriu o que é morrer.
entrega-se às coisas máximas
na berma do peito.
pergunta-me se existe
o amor.
a resposta rasga as veias
e entranha-se no impulso do sangue
queimando-o da raiz até às pétalas,
como o sorriso nos lábios do medo.
nesse dia
não soube o que é o amor.
nesse dia
descobriu o que é morrer.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
dédalo
é cá dentro
que os nossos jardins
morrem como labirintos.
são ramos escondidos
água quebrada
e flores desligadas
assistindo à erupção vulcânica
enquanto os poemas nos anoitecem nas mãos
(nas nossas mãos).
toda a escrita espera um minotauro
e nem a raiz que respira dentro de nós
sustenta a tempestade de areia.
é vento. é frio. é noite. é a tábua cruzada.
e o álcool louco envenenando a língua
como brincos de cereja nas tuas orelhas.
e as palavras ébrias entumecendo na boca
como versos corcundas de não saber-dizer.
olha,
eu queria descobrir
em que parte do labirinto estendeste o cordel
para não ter de esperar
por outra vida inteira...
sexta-feira, 11 de junho de 2010
a casa
dentro,
suspende o seu movimento
privado da nudez
que embriagou o umbigo do medo.
está fria
devoluta
e até as metáforas
encardem na sujidade do passado.
fora,
pássaros de veludo
e cães embalsamados
afogam a ilusão
de um deus presente nos versos.
a meio caminho
tu e eu
perdidos no endereço e na chave
acabámos por envelhecer fora do tempo
(e este temporal que não cessa…).
suspende o seu movimento
privado da nudez
que embriagou o umbigo do medo.
está fria
devoluta
e até as metáforas
encardem na sujidade do passado.
fora,
pássaros de veludo
e cães embalsamados
afogam a ilusão
de um deus presente nos versos.
a meio caminho
tu e eu
perdidos no endereço e na chave
acabámos por envelhecer fora do tempo
(e este temporal que não cessa…).
terça-feira, 8 de junho de 2010
à espera do milagre
pela manhã,
o calor humedecia-nos a boca
com o leite de figos
enquanto ao redor
o campo e a cidade ardiam nas mãos.
à tarde,
enfiámos a cabeça na boca do leão,
como se as janelas
abrissem sempre para a foz do medo
(o insecto ainda foge do químico?).
à noite,
desprendemos a língua
e erguemos a nossa babel.
os lábios para sempre encostados
ao lusco-fusco da pedra anónima
algures entre o grito e o silêncio
de todos os beijos que não soubemos dar.
nem a noite chorou...
Fotografia de José Figueira [Feira de Avis]
o calor humedecia-nos a boca
com o leite de figos
enquanto ao redor
o campo e a cidade ardiam nas mãos.
à tarde,
enfiámos a cabeça na boca do leão,
como se as janelas
abrissem sempre para a foz do medo
(o insecto ainda foge do químico?).
à noite,
desprendemos a língua
e erguemos a nossa babel.
os lábios para sempre encostados
ao lusco-fusco da pedra anónima
algures entre o grito e o silêncio
de todos os beijos que não soubemos dar.
nem a noite chorou...
Fotografia de José Figueira [Feira de Avis]
domingo, 6 de junho de 2010
trapézio
Fotografia de José Figueirao domingo de sol comprometido
(esqueço-me sempre que é dezembro
e os candeeiros asfixiaram no petróleo).
o concerto foi cancelado
(a amália morreu).
o benfica perdeu nos penaltis
(a roda gira às avessas).
o gato fugiu
(nunca esteve verdadeiramente comigo).
o leite azedou no frigorífico
(e eu que detesto chá).
a cal desprende-se das paredes
(a cor já há muito mudou).
os ossos rangem
o sorriso adoece
e os lábios mirram
(o sangue secou em todas as orlas).
…
então e eu?
estrebuchando
em equilíbrio táctil
nos braços molhados do teu telhado.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
hora de ponta
10 horas da manhã. o sol faz levitar a paisagem bem acima da embriaguez nocturna, indiferente às fotografias desbotadas que escorrem pelas artérias do corpo. sorrisos de pedra para lá, esgares iracundos para cá, num alvoroço tépido que penetra os poros do 8.º andar daquele prédio velho que chora as memórias de um tempo sem ruína.
bom-dia! como está? estimei vê-lo! e logo os lábios se fecham na turbina tóxica da viagem que parece perder-se no próprio des[a]tino.
aqui, o rugido de um autocarro, ali, o vómito de um cacilheiro, aqui e ali máquinas em estrépito viril violando o silêncio nos tímpanos cansados de um coração arquejante como a rabeca daquele cego que durante anos não consegui ver.
bom-dia! como está? estimei vê-lo! e logo os lábios se fecham na turbina tóxica da viagem que parece perder-se no próprio des[a]tino.
aqui, o rugido de um autocarro, ali, o vómito de um cacilheiro, aqui e ali máquinas em estrépito viril violando o silêncio nos tímpanos cansados de um coração arquejante como a rabeca daquele cego que durante anos não consegui ver.
meio-dia! o sol perdeu o mapa da viagem e os corpos tornam-se cada vez mais fotográficos (há-os digitais, em negativo e polaroid). são passos fazendo tiquetaque, braços agitando persianas, relógios em colapso cardíaco, lojas sem cães, armazéns, máquinas, automóveis, camiões, cortadores de relva, britadeiras, betoneiras, aviões a jacto, tudo a relembrar à eternidade que foi inventada para morrer, bem ali, no frémito cinzento, na voragem psicadélica, na vertigem magra da hora de ponta.
fim de tarde. na volta do sangue, o sol inclina-se sobre o mar, rejeitando assistir ao fluxo giratório de um mundo que não escolheu aquecer. é agora que os termómetros perdem a erecção e os relógios se afogam na afonia de pássaros devastados pelo relâmpago urbano. rostos? apenas um ou outro incapaz de entender como é possível reluzir no escuro.
a noite entrava no corpo. é a hora! as folhas que esquecemos no vulcão quotidiano agitam-se no bailado daquele gato listado pelas cores do amor falhado. o mundo esvaziou-se e a sua respiração suspendeu-se na fita magnética de um filme mudo, a preto e branco. à volta de um candeeiro, pirilampos cortejam a noite enquanto dançam ao som de talheres saltitando na banca ou de corpos em combustão na cama.
a noite entrava no corpo. é a hora! as folhas que esquecemos no vulcão quotidiano agitam-se no bailado daquele gato listado pelas cores do amor falhado. o mundo esvaziou-se e a sua respiração suspendeu-se na fita magnética de um filme mudo, a preto e branco. à volta de um candeeiro, pirilampos cortejam a noite enquanto dançam ao som de talheres saltitando na banca ou de corpos em combustão na cama.
e no meio desta selva desflorestada, com cheiro a orvalho e a alfazema, as metáforas bocejam inaugurando o descanso no útero da insónia. já se esqueceram de que cor é o silêncio… já se desabituaram do paladar da quietude… já perderam o emblema da serenidade… no seu corpo estendido no escuro, vive o coração moribundo de uma cidade em permanente hora de ponta que queria saber morrer.
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Fotografias de José Figueirasegunda-feira, 31 de maio de 2010
manhãs tristes
Fotografia de José Figueiraas manhãs são tristes.
aprendi-o com os homens
e entendê-lo levou tempo.
durante meses choveu nas minhas mãos
e agora
que o sol dispara cedilhas de fogo
ao som de rosas surdas
queimei a sombra onde queria abrigar a tua pele...
- raios!
durante anos escrevi livros redondos
onde os poemas eram bocas amarelas
com o hálito do bolor
enterrados em castiçais sem cera
logo agora
que te queria escrever
que és tão minha como as más recordações...
- bolas!
as manhãs são tristes
como os círculos de um peixe dourado
no sono do aquário.
morre no abandono dos rios
que deixaram silenciar a voz
nas cordas do violino.
e agora?
jé nem os pássaros cantam o peito da terra
(atravessaram o inverno para outras sinfonias).
e agora?
aprendi o silêncio com os homens
(deles apenas quero a loucura do sangue).
sexta-feira, 28 de maio de 2010
raiz queimada
os olhares vazios
adormecem nas algibeiras.
são velhos agarrados ao outono
que agita folhas secas na memória
(o largo deixou o centro da aldeia).
são amigos que aceleram a vida lenta
esquecida no sono
que nunca teve intervalo
(ainda escuto o choro das árvores
agonizando naquela floresta sem vento).
a bola deixou de rolar com eles
os cães já não mordem
e o carro do lixo recolhe os canteiros
(as petúnias e os lírios agora
escrevem-se com as letras dos ciprestes).
debruçado sobre a neblina do corpo
escuto estórias
e apago lamentos de manhãs
que fervilham moribundos nas bocas
como seda na pele de uma cidade.
quis ajudá-los a escrever poemas
com nomes próprios
e alguns verbos no futuro
mas
as mãos afogam-se no riacho de tinta
e as pupilas vergam-se à sintaxe das artérias.
a hora é frágil
e o olhar apenas travesti macilento
suplicando pelo espelho:
no deles, a vida em combustão.
no meu, o pesadelo de não saber arder.
terça-feira, 25 de maio de 2010
neogénesis

hoje foi o dia mais quente do ano.
o calor banhou-se no meu corpo
(já não são só as veias
(já não são só as veias
a arder dentro de mim).
senti as pétalas da boca
a apodrecer na jarra
que manténs sobre a cómoda do quarto
e rasguei as gengivas com dentífrico
e as mãos com pedra-pomes.
é verdade,
senti o corpo em queda livre
na respiração vertical da estrofe
onde não depusera rede e colchão.
pior que tudo,
o odor a frutos vermelhos
mancha-me os sentidos
como balões de hélio que não sabem subir.
não me torno mais triste
(talvez um pouco pedra).
sei que os poemas agitam veneno
e carregam o diabo no corpo.
e carregam o diabo no corpo.
hoje, no dia mais quente do ano,
comecei a rasgar poesia.
domingo, 23 de maio de 2010
manifesto
nesse dia atravessei o inferno
com as mãos orvalhadas.
adivinhei lamúrias
receei perguntas
fuji das respostas.
oh, boca, voz
bailado sem corpo
na respiração amarela do medo
onde estás?
ambos conhecíamos a origem do sangue
(mel e jasmim, lembras-te?)
mas os deuses do silêncio
adormeceram em olimpos de sal como figuras
com favos nos lábios
e pétalas nos dedos.
por isso
deixei de acreditar nas bíblias dos homens
e o corão é os olhares escondidos em espelhos.
são homens a roer bagos de uva
são homens a calcar páginas brancas
são homens a roubar o círculo de fogo
são homens a procurar o pecado que engrandece
(reparaste como tudo se transforma
nas roldanas do silêncio?).
é preciso matar as palavras
afogá-las no seu veneno
fuzilá-las com a sua pólvora
apunhalá-las no seu cristal
apagá-las no seu rasto
riscá-las do poema
adormecê-las na sua insónia
trucidá-las no seu cinismo.
é preciso desinventar as palavras
para sabermos quando é a hora de morrer.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Ler: do Mito à Realidade
Tantos são os anátemas sociais acerca da relação que os portugueses mantêm com o livro e a leitura que é recorrente, hoje, escutar-se declarações, nos mais diversos contextos, que apontam ao mais fundo pessimismo.
Os portugueses não lêem; Os livros são caros; Os jovens não gostam de ler… são frases (mais ou menos) feitas em que vamos tropeçando a toda a hora. E, se é verdade que, dados de estudos internacionais sugerem que, comparativamente com cidadãos de alguns países (sobretudo da Europa do norte), os portugueses apresentam défice de frequência e competência de leitura, não o será menos que, no terreno, haja sensibilidades que nos levem a adoptar uma postura de menor cinzentismo.
O exemplo maior desta realidade é a II edição da Semana da Leitura que o Grupo Disciplinar de Língua Portuguesa da minha escola acaba de dinamizar.
Os portugueses não lêem; Os livros são caros; Os jovens não gostam de ler… são frases (mais ou menos) feitas em que vamos tropeçando a toda a hora. E, se é verdade que, dados de estudos internacionais sugerem que, comparativamente com cidadãos de alguns países (sobretudo da Europa do norte), os portugueses apresentam défice de frequência e competência de leitura, não o será menos que, no terreno, haja sensibilidades que nos levem a adoptar uma postura de menor cinzentismo.
O exemplo maior desta realidade é a II edição da Semana da Leitura que o Grupo Disciplinar de Língua Portuguesa da minha escola acaba de dinamizar.
E tudo começou com a monção da poesia no espaço exterior da escola. Celebrando a Primavera e o final das chuvas que fustigaram os ossos e os sorrisos, em Abril choveram não águas, mas poemas mil; nas árvores, nas portas, nas janelas, nos bancos de jardim, nas papeleiras… foram afixados poemas de autores nacionais e estrangeiros, sagrados, consagrados e experimentais, numa exaltação viva do que de mais sensível a poesia tem para oferecer. E ninguém se encharcou; ninguém vociferou aos deuses.
Já no espaço interior, montámos uma Feira do Livro, com o apoio da Inovação à Leitura, que funcionou em permanência durante três dias. Recebemos a visita de leitores de todas as idades que iam denunciando o frenesim do manuseamento, da leitura e da aquisição de centenas de livros.
Simultaneamente, pendiam das paredes fitas de papel de cenário emolduradas por poemas e imagens criteriosamente seleccionadas para que os visitantes do certame deixassem o seu depoimento. E tantos foram os que não quiseram deixar as emoções amarradas ao coração… tantos foram os que quiseram partilhar as deambulações mudas em torno de lugares, tempos, personagens e sensações que respiram pelos poros das páginas mágicas que se espreguiçam diante de nós...
De viagem em viagem, entrámos no vagão das conversas com escritores e ilustradores. Foram vários e com tão arrebatadoras histórias aqueles que nos visitaram!
Começámos com o ilustrador e caricaturista Onofre Varela que leu parte da obra “O Sobe Montanhas”, ilustrada por si, e que conversou com os alunos sobre a sua actividade enquanto ilustrador. Terminou oferecendo-lhes desenhos muito variados, elaborados a partir de um risco feito por eles.
Começámos com o ilustrador e caricaturista Onofre Varela que leu parte da obra “O Sobe Montanhas”, ilustrada por si, e que conversou com os alunos sobre a sua actividade enquanto ilustrador. Terminou oferecendo-lhes desenhos muito variados, elaborados a partir de um risco feito por eles.
Visitou-nos, também, José Fanha, poeta e escritor de obras infantis que, despedindo simpatia, nos levou pelas entrelinhas das histórias dos livros e das histórias da vida. Prosseguimos com o também poeta e romancista barcelense José Torres que fez uma incursão pelo seu percurso na vida dos homens e na vida da escrita. A escritora Maria Clara Miguel esteve à conversa com alunos de 5.º ano que a presentearam com um conjunto de trabalhos realizados sobre os contos da sua obra “Histórias para Lermos Juntos”, ao som do piano enfeitiçado pelos dedos do professor Zé Manel e do seu pupilo, Tiago Martins. Terminámos com duas jovens escritoras que rasgam o futuro na escrita já hoje: a Maria Esteves (para quem o amor é a mola impulsionadora de todas as vontades – e verdades) e a Ana Andrade (conhecedora de alguns dos recantos mais profundos da alma humana). Afinal, mesmo que os arautos da desgraça apregoem a morte do livro e da leitura, são iniciativas como esta que nos levam a acreditar que vale a pena porfiar. Até porque o livro não morreu nem está, sequer, moribundo; o livro está vivo e vive no meio de nós. Que o digam os alunos.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
da boca
henry fuselieis como a boca é mais lenta
na saliva das palavras
eis como a boca inflama
nesse chicote de puro gozo
eis como a boca entumece
no orgasmo do dizer.
e contudo
fora da boca
os peixes fazem círculos
os frutos saboreiam o verão
e a água lambe o ventre das nuvens.
é verdade
não há como o esconder
mas a boca é o telhado cinzelado
pelas mãos do cio.
houve noites em que sonhei
que a boca incendiava o corpo do poema
mas à luz do dia
com os olhos abertos
o único corpo que ardeu
foi o do poeta
já sem voz
moribundo nas palavras.
inclinando-se sobre o olhar,
a boca inaugurava o silêncio.
na saliva das palavras
eis como a boca inflama
nesse chicote de puro gozo
eis como a boca entumece
no orgasmo do dizer.
e contudo
fora da boca
os peixes fazem círculos
os frutos saboreiam o verão
e a água lambe o ventre das nuvens.
é verdade
não há como o esconder
mas a boca é o telhado cinzelado
pelas mãos do cio.
houve noites em que sonhei
que a boca incendiava o corpo do poema
mas à luz do dia
com os olhos abertos
o único corpo que ardeu
foi o do poeta
já sem voz
moribundo nas palavras.
inclinando-se sobre o olhar,
a boca inaugurava o silêncio.
Pedro Abrunhosa e Comité Caviar, Fazer o que ainda não Foi Feito
Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram
Quando por dentro eu sei que choram
Sabes de mim
Eu sou aquele que se esconde
Sabe de ti, sem saber onde
Vamos fazer o que ainda não foi feito
Trago-te em mim
Mesmo que chova no verão
Queres dizer sim, mas dizes não
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
E eu sei que dói
Sei como foi andares tão só por essa rua
As vozes que te chamam e tu na tua
Esse teu corpo é o teu porto, é o teu jeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
Sabes quem sou, para onde vou
A vida é curva, não uma linha
As portas que se fecham e eu na minha
A tua sombra é o lugar onde me deito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Tens uma estrada
Tenho uma mão cheia de nada
Somos um todo imperfeito
Tu és inteira e eu desfeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
segunda-feira, 17 de maio de 2010
don juan
The Finding of Don Juan by Haidee, de Ford Madox Browncansaste de amar pelas palavras
e as coxas dos cometas
são a única verdade
que te penetra o nome
vives a hora nos ponteiros do prazer
e o poema é a carne
onde todos os dias morre um poeta
no balanço frenético dos versos
e amanhã? que importa...
o amor serve de pasto aos vermes.
sábado, 15 de maio de 2010
da água
a imagem repete-se...
uma voz líquida
espreita pelas frestas do quarto.
desliza pela cal
deixando o rasto escuro
de árvores com o inverno nos dedos,
senta-se sobre a cama
escarnecendo da volúpia do corpo
vencido pelo amor sem fábula.
(há palavras que deviam ser afogadas)
ele remexe a febre
com os dedos trémulos da candeia
que toca a treva da terra:
- quem és tu? (quem sou eu?)
- que me queres? (que quero?)
- por que me persegues? (por que não me liberto?)
silêncio apodrecido
(as palavras têm prazo de validade
no bosque nocturno da tua boca)
ele fecha os olhos e adormece
o delírio vegetativo que
suspira pelo cais do regresso
a imagem repete-se...
uma voz líquida abandona o quarto
enquanto o silêncio arde no carvão do peito.
uma voz líquida
espreita pelas frestas do quarto.
desliza pela cal
deixando o rasto escuro
de árvores com o inverno nos dedos,
senta-se sobre a cama
escarnecendo da volúpia do corpo
vencido pelo amor sem fábula.
(há palavras que deviam ser afogadas)
ele remexe a febre
com os dedos trémulos da candeia
que toca a treva da terra:
- quem és tu? (quem sou eu?)
- que me queres? (que quero?)
- por que me persegues? (por que não me liberto?)
silêncio apodrecido
(as palavras têm prazo de validade
no bosque nocturno da tua boca)
ele fecha os olhos e adormece
o delírio vegetativo que
suspira pelo cais do regresso
a imagem repete-se...
uma voz líquida abandona o quarto
enquanto o silêncio arde no carvão do peito.
fotografia de José Figueira
quinta-feira, 13 de maio de 2010
florista
as flores cobrem-lhe o rosto.
já não respira o bolor do cemitério
e deixou de plantar sonhos brancos no altar
(consta que esqueceu como tudo se faz).
as flores cobrem-lhe as mãos.
os seus ossos foram as rosas
onde abelhas em fúria semearam mel
com os olhos redondos de sal.
as flores cobrem-lhe os dedos.
a serpente lambeu-lhe as pétalas
e confundiu-lhe a chama do corpo.
as flores cobrem-lhe a boca.
a lágrima e o grito
lavam-lhe a urna
regando as sementes de magnólia
que hão-de estourar no vento
e mirrar nas raízes da memória.
as flores cobrem-lhe o corpo
e a luz extinguiu-se.
eu não vi
mas sei.
The devil wears prada, louder than thunder
já não respira o bolor do cemitério
e deixou de plantar sonhos brancos no altar
(consta que esqueceu como tudo se faz).
as flores cobrem-lhe as mãos.
os seus ossos foram as rosas
onde abelhas em fúria semearam mel
com os olhos redondos de sal.
as flores cobrem-lhe os dedos.
a serpente lambeu-lhe as pétalas
e confundiu-lhe a chama do corpo.
as flores cobrem-lhe a boca.
a lágrima e o grito
lavam-lhe a urna
regando as sementes de magnólia
que hão-de estourar no vento
e mirrar nas raízes da memória.
as flores cobrem-lhe o corpo
e a luz extinguiu-se.
eu não vi
mas sei.
The devil wears prada, louder than thunder
terça-feira, 11 de maio de 2010
falência

não te preocupes
deixei de fumar.
(queimei os lábios com o teu lume
não posso deixar arder os dedos...)
não te preocupes
já não bebo.
(afoguei o sorriso nas palavras
não devo confundir papéis velhos com poemas...)
não te preocupes
(sei que o não fazes)
é que para ti
o tabaco carbonizou o estio
deixando o fruto apodrecer na semente
já para mim
o vinho menstruou os sentidos
estourando as têmporas do animal louco.
deixei de procurar
morrer é muito mais que um golpe de ilusionismo
de um deus que saldou o amor.
deixei de fumar.
(queimei os lábios com o teu lume
não posso deixar arder os dedos...)
não te preocupes
já não bebo.
(afoguei o sorriso nas palavras
não devo confundir papéis velhos com poemas...)
não te preocupes
(sei que o não fazes)
é que para ti
o tabaco carbonizou o estio
deixando o fruto apodrecer na semente
já para mim
o vinho menstruou os sentidos
estourando as têmporas do animal louco.
deixei de procurar
morrer é muito mais que um golpe de ilusionismo
de um deus que saldou o amor.
domingo, 9 de maio de 2010
futebol sem bola
ilustração de Ana Margarida (10 anos)É geralmente aceite de modo pacífico que o desporto, em geral, e o futebol, em particular, roce a esfera do irracional. Por mais ponderados que sejam, os adeptos tendem a olhar para as suas cores como sendo o centro do universo, o deus gerador de todas as energias que giram e fazem girar. É, por isso, natural e até frequente que as discussões futebolísticas inflamem paixões e exacerbem ânimos.
Pois, este fim-de-semana, o Benfica acaba de se sagrar campeão nacional pela 32ª vez. Foi a equipa que mais pontos somou (76 contra 71 do Braga), a que mais golos marcou, a que menos sofreu, a que teve o melhor goleador e a que mais empolgou os aficionados do futebol naquilo que o seu treinador, Jorge Jesus, considera “a nota artística”.
Tudo normal, diríamos… Mas o certo é que assim não é.
Em primeira análise, estranho que umas dezenas de adeptos do clube da minha cidade, tradicionalmente hospitaleira e cordata, à boa maneira de uma arruaça inqualificável, tenha tomado de assalto a Arcada não para festejar, mas para impedir os adeptos benfiquistas (que são milhares na capital do Minho) de festejar… socos, pedradas, impropérios e muito ódio acabou sendo estancado, apenas, pela intervenção da polícia de choque que teve, inclusive, de disparar projécteis de borracha tendo em vista a dissolução da massa em fúria.
Todavia, e numa leitura mais atenta, até sou capaz de perceber o porquê de todo este alvoroço… um treinador que, no final do jogo que tinha obrigatoriamente de ganhar (e que empatou) para, esperando pelo resultado do principal rival neste campeonato, poder saber se festejaria ou não, veio às câmaras de televisão falar de injustiça e manigâncias, num discurso incendiário, pejado de falta de fair-play e, sobretudo instigador, vivamente, das tristes cenas que todos testemunhámos; um Presidente de câmara que se comporta como presidente de clube, numa promiscuidade que favorece braguistas e lesa bracarenses; uma massa adepta que forma claques com cânticos racistas e sectaristas, onde o ódio é a arma de arremesso que a direcção do clube aproveita para fazer vingar propósitos; nenhuma destas situações pode colher a minha simpatia.
Hoje, sinto-me envergonhado… como bracarense, como adepto do futebol e como cidadão… esta não é a minha cidade… estes não são os meus concidadãos… há que saber ganhar, mas, sobretudo, que saber perder.
Pois, este fim-de-semana, o Benfica acaba de se sagrar campeão nacional pela 32ª vez. Foi a equipa que mais pontos somou (76 contra 71 do Braga), a que mais golos marcou, a que menos sofreu, a que teve o melhor goleador e a que mais empolgou os aficionados do futebol naquilo que o seu treinador, Jorge Jesus, considera “a nota artística”.
Tudo normal, diríamos… Mas o certo é que assim não é.
Em primeira análise, estranho que umas dezenas de adeptos do clube da minha cidade, tradicionalmente hospitaleira e cordata, à boa maneira de uma arruaça inqualificável, tenha tomado de assalto a Arcada não para festejar, mas para impedir os adeptos benfiquistas (que são milhares na capital do Minho) de festejar… socos, pedradas, impropérios e muito ódio acabou sendo estancado, apenas, pela intervenção da polícia de choque que teve, inclusive, de disparar projécteis de borracha tendo em vista a dissolução da massa em fúria.
Todavia, e numa leitura mais atenta, até sou capaz de perceber o porquê de todo este alvoroço… um treinador que, no final do jogo que tinha obrigatoriamente de ganhar (e que empatou) para, esperando pelo resultado do principal rival neste campeonato, poder saber se festejaria ou não, veio às câmaras de televisão falar de injustiça e manigâncias, num discurso incendiário, pejado de falta de fair-play e, sobretudo instigador, vivamente, das tristes cenas que todos testemunhámos; um Presidente de câmara que se comporta como presidente de clube, numa promiscuidade que favorece braguistas e lesa bracarenses; uma massa adepta que forma claques com cânticos racistas e sectaristas, onde o ódio é a arma de arremesso que a direcção do clube aproveita para fazer vingar propósitos; nenhuma destas situações pode colher a minha simpatia.
Hoje, sinto-me envergonhado… como bracarense, como adepto do futebol e como cidadão… esta não é a minha cidade… estes não são os meus concidadãos… há que saber ganhar, mas, sobretudo, que saber perder.
SIDEWAYS (2004)

Para o comum dos mortais, ele é apenas uma bebida com maior ou menor teor de álcool que produz efeitos diversos em quem o consome. Já para os especialistas, ele é um ser vivo com um percurso semelhante ao do ser humano, desde o dia em que é concebido, passando pelo ponto extremo de qualidade (mas também declínio e morte, se não consumido entretanto). Falo do vinho, obviamente.
E se, de repente, o vinho mais não fosse que a metáfora dos percursos de dois amigos que, na meia-idade, sentem que falharam na vida, assumindo a inexistência de projectos ou a mera existência de balões de oxigénio de consumo imediato? É justamente este o mote de Sideways, um filme de Alexander Payne (2004).
Miles é um professor de Inglês e escritor que se sente a caminhar para o ocaso da vida: passou por um divórcio penoso e o seu livro acabou por ver a publicação rejeitada pela editora, num processo que o enredou numa teia de decepção precipitando-o na depressão. Jack é um actor de televisão para quem a vida é um fruto sempre maduro que tem de ser consumido na hora, até ao caroço, numa demanda incessante pelo prazer e satisfação imediatos.
A viagem que ambos empreendem pela região vitivinícola da Califórnia é um presente de casamento que Miles proporciona a Jack e uma oportunidade para celebrarem a vida e a amizade.
De adega em adega, redescobrem os sentidos para lá da verdadeira essência de cada um: enquanto Miles sente o vinho no seu aroma, na sua textura, no seu corpo, na sua cor, Jack bebe-o de um trago só; enquanto Miles valoriza as castas frágeis, delicadas, que, se mal manipuladas, perdem todo o seu potencial, Jack procura a garrafa mais cheia ou o trago mais intenso. Não surpreende, pois, que aquele construa, ainda que a custo, uma relação com Maya, velha conhecida e também apreciadora de vinhos com quem se reencontra durante a viagem, enquanto este prefira relacionamentos rápidos e superficiais (Stephanie e Cammy), à revelia dos sentimentos que possa estar a suscitar no parceiro.
De peripécia em peripécia, o filme termina apontando dois caminhos: a viagem acabou por ser inócua para Jack (casa com a noiva como se nada do que vivera tivesse expressão); já para Miles, significou a redescoberta de si mesmo, da sua condição e daquilo por que vale a pena lutar na vida. Não é, afinal, essa a diferença entre um vinho de colheita seleccionada e um vinho corrente?
E se, de repente, o vinho mais não fosse que a metáfora dos percursos de dois amigos que, na meia-idade, sentem que falharam na vida, assumindo a inexistência de projectos ou a mera existência de balões de oxigénio de consumo imediato? É justamente este o mote de Sideways, um filme de Alexander Payne (2004).
Miles é um professor de Inglês e escritor que se sente a caminhar para o ocaso da vida: passou por um divórcio penoso e o seu livro acabou por ver a publicação rejeitada pela editora, num processo que o enredou numa teia de decepção precipitando-o na depressão. Jack é um actor de televisão para quem a vida é um fruto sempre maduro que tem de ser consumido na hora, até ao caroço, numa demanda incessante pelo prazer e satisfação imediatos.
A viagem que ambos empreendem pela região vitivinícola da Califórnia é um presente de casamento que Miles proporciona a Jack e uma oportunidade para celebrarem a vida e a amizade.
De adega em adega, redescobrem os sentidos para lá da verdadeira essência de cada um: enquanto Miles sente o vinho no seu aroma, na sua textura, no seu corpo, na sua cor, Jack bebe-o de um trago só; enquanto Miles valoriza as castas frágeis, delicadas, que, se mal manipuladas, perdem todo o seu potencial, Jack procura a garrafa mais cheia ou o trago mais intenso. Não surpreende, pois, que aquele construa, ainda que a custo, uma relação com Maya, velha conhecida e também apreciadora de vinhos com quem se reencontra durante a viagem, enquanto este prefira relacionamentos rápidos e superficiais (Stephanie e Cammy), à revelia dos sentimentos que possa estar a suscitar no parceiro.
De peripécia em peripécia, o filme termina apontando dois caminhos: a viagem acabou por ser inócua para Jack (casa com a noiva como se nada do que vivera tivesse expressão); já para Miles, significou a redescoberta de si mesmo, da sua condição e daquilo por que vale a pena lutar na vida. Não é, afinal, essa a diferença entre um vinho de colheita seleccionada e um vinho corrente?
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