sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ode às mãos, ao amor e ao tecido do tempo

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ningúem pode vencer estas espadas.
Manuel Alegre, As Mãos

as mãos: a palma e as costas [fotografia de jorge pimenta]


é a mão quem me guia.
hoje,
sobre o poema inconcreto.

houve um tempo em que fui as mãos
sobre a largura das coisas
em toda a extensão do corpo,
em cada olhar teu.
percorri-te inteira,
quando a luz crescia sobre o teu nome
e a escuridão abria brechas no meu.
amansámos as águas e os remoinhos
soubemos o nome dos oceanos
distinguimos as correntes,
tu, mão
eu, ainda mão
a tocar, a acender, e explodir
na translação marinha
daquela nau que jurou as índias ao casco
daquela vela que prometeu os lábios ao vento.

é a mão quem me guia.
hoje,
sobre nuvens
a adormecer antes da chuva.
pergunto-me se ainda sei o teu nome
ou se os peixes reconhecem o aquário da tua voz.
responde-me a memória que te imita como se escrevesses.
apago o rasto de tinta com a cor do teu batom;
é que se a pele secou
ainda é a mão quem me guia.
hoje.
talvez nunca mais.

the cinematic orchestra, to build a home

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

auroras, canções e açucenas para vozes [des]alinhadas


aprendíamos a amar, aprendíamos
a morrer.
Eugénio de Andrade



fotografia de jorge pimenta


é nas estações frias que o corpo dói – disseste-me.
a fortuna é um vento seco a crescer da terra
para nos segurar as mãos
inútil, excessivo, tardio,
como os pulsos cortados daquele sol de fim de calendário.
nunca soube o que aprendemos sobre o amor
o cântico aceso dos versos
ou todas as flores que nos desciam pela boca;
e estivemos sempre tão longe de adivinhar a morte.

o amor é um jornal velho sobre a voz – disseste-me.
um desperdício, um número, um acontecimento sem rosto
para os abismos do coração,
dos barcos a navegar em tinas de roupa suja.
quisera o homem não saber ler
não poder ver
[os olhos perderam os telhados do céu],
quisera ele,
esquecido, sobre a relva.

o café assobia na chama,
enquanto as mãos, cada vez mais pequenas,
se dobram de frio no oxigénio da respiração primeira.
o corpo? inerte, imóvel, fechado.
há chaves que se perdem para sempre.

catpower, wild is the wind

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

livros lacunares para hesitações, dois naufrágios e toda a cegueira

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar...
Mário Quintana

denis olivier


fechei o livro e todos os rostos que nele habitam.

já sei tudo, tudo:
li barcos, mares, marinheiros
e toda a ancoragem pelas florestas do peito,
aprendi rostos em penumbra
com sorrisos de meio lábio e todo o fogo,
encontrei cânticos embriagados nos telhados
e vozes que crescem no labirinto das mãos.

sim, sei tudo e quase nada me assusta:
da morte e da loucura do sangue
da mitologia da ausência
ou das noites inteiras, intactas, soberanas
[como aquele olhar que é só teu].

sim, sei tudo sobre todas as coisas,
aquelas que adormecem, um dia, pelo tempo fora.

podia saber talvez mais sobre o amor,
essa bebida que entornamos devagar,
gota após gota,
sobre pálpebras de respiração e suor,
quentes, monossilábicas, quase impercetíveis
como vendavais no corpo e na vontade do corpo,
quase sempre chuva,
quase sempre debaixo da chuva.

do que sei e nunca saberei,
a certeza de que
o homem ama antes de todos os livros.
[terá este livro sido escrito, já?]
Marisa, Chuva

sábado, 5 de novembro de 2011

De todos o lugares [in]acessíveis – voz canto palavra silêncio

algures nas ruas e vielas do porto

Ao Roberto Lima, amigo jornalista e escritor [cronicasderobertolima.blogspot.com], recém-chegado ao Porto, e que me tem dado o privilégio de com ele privar até domingo.
Aos meus amigos dos blogues, com votos de que o tempo se faça nosso, um dia, não apenas através dos dedos, não apenas na tinta, mas inteiro, absoluto, na madrugada fresca do nosso abraço.

Dead Combo, Esse olhar que era só teu

[Reencontro]
E quando o caminho perder os pés?
Acaso os frutos silvestres chegam
para lhe temperar a latitude, a longitude
e o desejo de ser percorrido
como todos os horizontes maiores que não sabem morrer?


ribeira do porto - 1

ribeira do porto - 2

ribeira do porto - 3


04 de novembro de 2011
Fiz-me à estrada. Não, não foi ontem, mas num dia de setembro, banal por certo, talvez até chuvoso como hoje, mas que adivinhou mais uma vida por detrás dos seus olhos abertos. Sim, foi nesse dia que me fiz à estrada porque fiz toda a estrada. E o alcatrão abriu-se diante dos meus braços, suspirante, tão leve que parecia flutuar, rir, agitar-se por entre as ramagens da timidez e do berço.
Foi num desses atalhos de trilho incerto, bem perto de todos os instantes, que os dedos me levaram para longe, bem longe – um homem perde-se sempre caminhando numa avenida em linha reta. Chovia. Pensei tratar-se de Belo Horizonte, primeiro. Consultei a carta que inventou a geografia e todos os geógrafos que têm nome e o souberam viver e cheguei a Jersey. Ao lado da América, Portugal; daí, num pequeno salto, o mundo, como ele só, imenso, sem metades, antes mão e corpo num abraço só. E o Roberto Lima, na sua máquina de escrever, chegou a todos os lugares e a todos os eus que os habitam. Já lá vão dois anos, mas o que é o tempo senão essa malformação genética que os deuses inventaram para nos humilhar e suster no desejo de voar?
O tempo é o Homem, dizia Borges, de olhos fechados para o mundo mas com a lucidez estendida para o Homem. E a chuva varria a harmonia do esquecimento. No dia em que me consegui ler nas palavras de Borges, despi-me de relógios, parti ponteiros, matei o sol ao mesmo tempo que gritava impropérios a Cronos e às demais divindades que escarnecem da sua criação mais imperfeitamente irresistível – o Homem. Percebi então haver uma luz que segue Borges e que nem eu, com os dois olhos bem abertos, consigo tocar, nas minhas dúvidas, aspirações e demais acordes de um fado sem guitarra, tão somente com alguma voz e frio, como as noites de novembro, chuvosas, numa qualquer cidade portuguesa.
O Porto, por exemplo. Ontem, na tasca da D. Helena, ali no coração da Ribeira, ao som da Polka [o fado, envergonhado e com os pés encharcados, temente da noite e da gripe, recolheu à cama cedo], revisitando a vida tão contrária em tantas palavras, a maioria de um conceito só, enquanto o rio encolhia os ombros, indiferente à indiferença daqueles que o abandonam por recearem que Noé tivesse perdido a arca no dilúvio neobíblico deste novembro português.
O Porto, de novo. Ontem, no Zé de Braga, confundindo a geografia, por esconder na Augusta cidade do Minho que lhe doura o nome tantos rostos e esperanças, desde Viseu a São Paulo, passando por todos os lugares que nos crescem na viagem.
O Porto, ainda. Ontem, com vinho do Porto, de aroma inalterado pela terra, cor rubi, lágrima Christi, o paladar de Adamastores e velas de linho e vento como aquele papel que entregamos secretamente, sem remetente ou destinatário, mas que sorri da tinta vazia, porque inscreve as coordenadas na mão que o riscou.
E o tempo foi nosso, porque o fizemos nosso. E o tempo foi o Porto, foi a Ribeira, foi o lugar e todos os lugares e todos os rostos e todos os nomes e nós. E nós.
Recomeçara a chover.

Já é tarde; daqui a pouco há mais: os Trovante e os seus cabelos brancos, já com 35 anos de carreira. Eles, como o Roberto e todos os meus amigos, tornaram-se aquela marca de pele que resiste ao tempo. Não que o tenham aprendido a matar; antes deram-lhe vida e souberam levá-lo consigo.


05 de novembro de 2011
trovante e o porto: as células de tantos [re]encontros

na biblioteca da música, a gui, o roberto, o zé manel, eu e a manela [a rosa treinava fotografia] 

E os Trovante vieram. E com eles a flor azul que guarda as montanhas onde barricamos todos as alvoradas e quase nenhum crepúsculo. E sorriam, eles; e sorríamos, nós; o sorriso deles dentro do nosso, o nosso equilibrando-nos noutros, uns de pedra, outros de boca mordida, quando não de chão queimado, de estrelas de pó, de pó de estrelas, de estandartes, de rios fulgurantes, de centauros e foz, de todos os cavalos que galopam sem origem, sem destino, mas com memória.
É que nem todas as coisas do mundo se fizeram para murchar.


Trovante, Xácara das bruxas dançando


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

epopeia de pores-do-sol

salvador dali, la esfinge de azúcar


sei-te num retrato
que inaugura pores-do-sol,
pequeno, gasto
como os olhos de um gato adormecido

na moldura chovem refúgios e castigos:
calafrios sustêm o andar
num esquecimento musical,
pedaços de vidro engolem a voz
numa sinfonia despovoada.

sei-te num retrato
que imatura pores-do-sol,
perdido, bardo
como os olhos de um gato amanhecido

na mensura trovem respingos e perigos:
arrepios sorvem o andar
num espaçamento musical,
pedaços de vela encobrem a voz
numa sintonia desnorteada.

e enquanto sorris,
com olhos negros e dentes brancos
e todos os encantos de lume e terra,
roubas-me os passos tortos
com que despia as flores.

algures entre a saudade e o lábio
aprendemos a morrer
na distância um do outro.

e enquanto sentis,
com olhos negros e dentes bastos
e todos os recantos de lira e esfera,
roubas-me os passos tolos
com que desvio as flores.

algures entre a saudade e o astrolábio
aprendemos a morar
na distância um do outro.

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)

smog, rock bottom reiser

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

alvoradas com violinos para trópicos de afonia e voz


Às vezes esqueço-me de que sou um ser intermédio, alguém que pode já estar à frente do homem das cavernas mas ainda estou longe daquilo cuja promessa pressinto dentro de mim.
Alçada Baptista, O Tecido do Outono

bate-me à porta, mas devagar - jorge pimenta

cantaste tão baixo
que os frutos apodreceram
e envenenaram-nos as gargantas
com espinhos vermelhos
de uma flor quase rosa.

e eu que queria cantar mais alto que os deuses
saber-te gruta clara
e madrugada em violino.
disse-te um dia que desejei
beber-te o silêncio
deitar-te nos mapas do corpo
e acender todas as luzes que nos cabiam na algibeira.
disse amo-te,
mesmo que numa boca crepuscular.

de todas as cartas em que me foste
guardo uma, apenas,
sem remetente ou selo.
cheira à tua saliva
preserva a textura do teu sangue
e o calor das palavras frias que menstruam a boca:
nenhum corpo se alimenta apenas de versos
e até a eternidade já sabe o que é morrer.

aprendi a escrever para te aprender a perder.



arctic monkeys, love is a laserquest


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

voo suicida para todos os instantes perfeitos e dois suspiros

fotografia de jorge pimenta 
I

Estou cansado de ser apenas homem.
Antonio Skármeta, O Carteiro de Pablo Neruda

abro-te estas mãos que não acabam no tempo.
serás tu quem me há de sepultar
assim que mirrem os crisântemos
e o homem esqueça toda a linguagem.
não sei quando, na verdade,
não sou deus
e a catequese está já à distância da memória
por isso espero pelo calendário que marca os dias até morrer
e uma cigana que adivinhe quantos soubemos viver
nos silêncios que esquecem todas as palavras
todas as bocas
e quase todos os beijos.
será que permanecerão em mim,
pelo lado de fora,
os ruídos lentos que me abandonaram,
essa máquina que separa os vivos dos vivos
e nos aproxima dos mortos?

jorge pimenta



fotografia de jorge pimenta

II

[…] e ninguém podia imaginar o mundo de palavras que levava comigo.
Morrer é estar absolutamente sozinho.
[…] na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio.
José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos

parece que muros se erguem violando o céu sagrado
deixo que o grito se suma mudo
e a terra cubra quem tomba pelas valetas
se é no horizonte que se desenha o futuro,
ainda que a lápis, ainda que alguém o apague
eterno é tudo aquilo que nunca fui

no vasto rol de deuses que me fitam do alto,
com o dedo acusador
sei que há silêncio e gemidos ocultos na carne cansada
e olhos fechados sobre todos eles

eu sei que vou morrer
eu sei que vou, um dia, morrer
eu sei que as asas que me deram não me deixam voar
e eu sei que sei voar
e eu sei que vou voar, no dia que eu sei que vou morrer.

laura alberto


sigur rós, viorar vel til loftárása

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

alucinações inocentes sobre estações áridas e homens de temperatura extenuada


alexandre parrot

a nossa única defesa contra a morte é o amor
josé saramago


houve um verão em que o calor nos preencheu os silêncios
indiferente ao suor que humedece o fumo de um cigarro
e às ondas que nos rebentavam o peito.
perdemos as horas e o que os homens fazem com elas
e quase nada ganhámos.
um coração bate sempre mais agitado do que o poema – dizias,
espreguiçando os braços na fresca seda da pele
talvez à espera que eu escrevesse de menos
ou amasse de mais.
houve um verão em que fomos amantes em tons de violeta
acorrentámos lugares inquietos
amarrámos o medo ao silêncio
e gritámos impropérios à cegueira dos deuses
enquanto corríamos sem saber da linha de chegada,
sempre com pés de tinta
talvez versos nos dedos.
mas de que serve ter um animal vivo
se está dobrado pelo estremecimento dos dias?

agora é outono.
resta-nos sentir a breve saliva dos fins de tarde
e aprender com os que passam sem o saberem.
afinal, o homem é aquilo que o separa do homem.

kings of convenience, boat behind

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

solilóquio para balas e arremessos no revólver da felicidade e de outras utopias

marcelo tabach

só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; [...] só se deve desejar a alguém que se cumpra: e cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.
agostinho da silva

há dias em que a felicidade se despede
dos compêndios de uma ciência menor
para se refugiar numa chávena de café
entre o calor do desejo e a nuvem de um cigarro
cada vez mais negra
cada vez mais distante
exibindo apenas a borra no fundo da cerâmica
que a sorvos breves
procurei trazer para dentro de mim.
nenhuma mentira muitas vezes pronunciada se torna verdade
e os dentes caem sempre, um a um,
cansados dos golpes que a palavra desfere
súbita, cínica, sodomita.

há dias em que a felicidade me visita no café
ao fim da tarde
na penumbra que aquece as mãos
e acende escombros em cada sorriso de tinta e palavras.
não, não inventei a insónia
nem sei como é o rosto da morte
na arquitetura imperfeita dos sonhos,
cada vez mais burgueses e anafados
em bocas que persistem em perder o marfim.

há dias em que a felicidade me visita…
sim, eu sei,
é ao fim da tarde que se morre de amores
e o paraíso é somente uma insinuação de pele,
bem ali,
na mesa de café de uma qualquer cidade.


rodrigo leão & daniel melingo, no sè nada

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

retrato de homem para equinócios sem voz: segredos e lábios

evan leavitt, no more passengers



“[…] daí é que nos veio a única certeza que temos […]
em uma noite tão profunda como aquela nos perderemos.”
José Saramago, Todos os Nomes

é hoje o dia
equinócio, outono, setembro
e todo o tempo que se desprende do que há de morrer.

o meu espanto é maior do que a boca
porque caibo numa folha seca
e no fruto vermelho que se estende na erva
depois de rejeitado pela mão que o desejou.
é hoje o dia
e as manhãs despedem olhares
sobre um vento a endurecer os rostos
e luzes de cais a anunciar partidas,
apenas o perfume das orquídeas permanece
como derradeira verdade dos sentidos.

e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].

é hoje o dia:
já asfixiei alguns sonhos
e deixei de responder à saudade;
é que o coração não tem estações
e seria criminoso deixá-lo morrer de frio.

radiohead, weired fishes

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

canção fria para estações despovoadas

há momentos em que temos de perder
para sabermos o que não podemos deixar de ganhar.

evan leavitt, packing, up, railroad, suitcase, trees

há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
é este vento, esta corrente de ar
ou todo o oxigénio gasto nas palavras
que idolatram silêncios e angústias?
recordo os corpos exaustos
[não tanto como a culpa que não tínhamos]
e a boca seca do bailado
a que atirávamos as nossas verdades.
e todas as respostas cegas nos pousaram nas mãos
com a violência da lucidez
e a nudez de uvas por fermentar no peito.

contaram-me depois
que guardaste as lágrimas na garganta
e atiraste o coração aos cabos de electricidade
que iluminam os passos e os pés,
mesmo que em estações brancas
a queimar os dedos
e a plagiar imagens à memória.
cicatrizei o tempo
e a cada perdão roubado
contrapunha um verso
cada vez mais sujo,
cada vez mais imperfeito
como os borrões de sangue que ousam escrever
todos os dias e todas as ruas que habitaste.

há uma inquietação a lavar-nos
os pomares do nosso verão.
hoje o dia deitou-se mais cedo
e a morte deu dois passos para diante,
bem ali, diante da cotovia que bebe,
sôfrega,
o suco aquecido das frutas
de toda uma estação.

audiomachine, an unfinished life

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

etiquetas XVI

portel, alentejo



I. a casa


ao roberto de lima
cidadão do imenso mundo,
que é o coração

assim é o tecto
sem telha, vidro ou cal
a aproximar o olhar das estrelas
e do seu rasto prometido.
o chão?
todo o universo,
duro resistente intransponível,
como todas as almas sem metáfora
que se moldam
pelas palavras ditas, lidas, pressentidas.
no interior, seja noite ou dia,
todas as histórias
anunciam direcções e rotas
com que se encantam os incêndios
e se iludem todas as urgências.

é este o enigma da arquitectura:
toda a casa
que pensa e sente
ensina a duvidar.


II. conjuração
a imagem percorre
os labirintos de água
onde mergulhamos os pés.

é chegada a era do gelo:
a plenitude não cabe no verso
e o tempo não é de ninguém.


III. as linhas da fábula
saltito de renascer em renascer
à espera de iludir as mãos
de onde tombam pétalas em chamas
e sonhos oxidados.

só na certeza da morte
compreendemos a vida.

luís represas & pablo milanés, feiticeira

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Intervalo de viagem: entre o princípio e o precipício do mundo


Pontevedra, Galiza [Espanha]

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente,
somos habitados por uma memória."
José Saramago [retirado de uma entrevista]

Caem-me das mãos as asas no que resta do avião com que aprendi a voar. São hoje pedaços de viagens distantes, exalando aromas em tons de laranja-menina e tessitura de primavera.
Olho-lhe as asas à distância do tempo e ainda vislumbro resquícios da cola com que lhe esculpi a ossatura. E a memória regressa aos gestos, aos espantos, aos risos por entre a farda de major alado e a calça coçada pelos pontapés na bola. Sente-se a dor a exalar daquele plástico carcomido pela espera de um regresso aos céus que um dia dele foram, assim ligeiro, quase altivo, fénix de orgulho inteiro bem acima do tempo que nos denuncia mortais. Viveu anos junto do pó, no sótão de tantas primaveras, beijos meios com a boneca preferida da minha irmã e um triciclo que suspirava por explodir desde a primeira vez que sentira os meus pés nos pedais.
Dobro os joelhos e ajusto-lhe os braços sobre aquele corpo em ferida mansa. Parecia sorrir, como todos os aviões que um dia inauguraram o ar. Ele e eu, por detrás dos buracos que prostituem débeis feixes de luz neste silêncio de loucura clara. Desejo, secretamente, que o tempo volte a unir e não a dispersar, por isso peço à mariposa que permanece sobre o orvalho das glicínias para humedecer a infância; será que ainda me cabe na algibeira?
É assim a saudade, uma linha do tamanho do olhar a incendiar todo o corpo, desde a copa até às raízes. Alguma vez o homem foi muito mais do que isso?



dilek kots, allspice, cinnamon and a kiss [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

canção para outonos sem estação e astrolábio

brejão, alentejo

os sonhos fazem-se combinando recordações
jorge luis borges

é sempre assim no outono:
há uma voz que canta
e me toca levemente no corpo
a exigir suspensão.
Nunca sei se planeia roubar a noite, as estrelas
ou mesmo a sombra dos homens
enquanto atravessa zéfiro
e semeia, rebenta, floresce
sobre a terra que me cobre as raízes.

acordo
[alguma vez estive a dormir?].
de repente
tudo se ilumina na lanterna do homem:
a porta
o quarto
a cama
e todos os nomes e rostos que ali respiram,
bem debaixo dos céus, quase acima dos olhos,
na melodia crepitante de uma rima.

espreito para dentro das veias
e para fora da roupa
mas já todo o tempo me habita
e os cavalos rubros anunciam abismos.

quem é que me procura?

a luz incandesce os caminhos
e os pés douram o sangue.
apenas a canção permanece fria.


sokratis sinopoulos, a the universe [from the film politiki kouzina, a touch of spice, o.s.t.]

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ode nocturna aos homens de meteorologia inexorável e previsão silenciosa


bill brandt

debaixo das estrelas
degladiam-se todos os homens
na sua existência de papel:
o cutelo transpira-lhes as mãos
como o sexo insone
a arder em labaredas e sismos,
ameaça a ameaça
espasmo a espasmo
gemido a gemido,
umas vezes com a leveza dos anjos,
outras em estrépito animal;
em ambas a respiração sanguínea a espreitar o ponto de ruptura:
estica range sua rebenta
tingindo de branco as duas pontas da corda,
agora estáticas frouxas vencidas.

mas até a vida acaba em anagrama.
escreve-se já não da esquerda para a direita,
mas com todos os nomes,
em caos e combustão,
aguardando pacatamente a hora
nos arquivos da memória do registo civil.

afinal a morte é o alicerce de todos os rostos.

lhasa de sela, rising




A propósito de livros e leituras, a Andy, amiga do blogue lua [http://andy-luaprateada.blogspot.com/], lançou um desafio a uns quantos bloguers, eu incluído.
Replico aqui com o maior gosto, agradecendo, desde já, a distinção.

1. Existe algum livro que lerias várias vezes?
Os livros são os momentos. Por isso há livros que li três e quatro vezes em momentos diferentes e que não sei se não voltarei a ler: Viagens na Minha Terra, de Garrett; Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano; O Medo, de Al berto; Ofício Cantante, de Herberto Hélder; O Retrato de Dorian Gray, de Óscar Wilde, A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera…
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste mas nunca conseguiste levar até ao fim?
Todos aqueles em que me não perdi…
Mas também há aqueles que, num determinado momento, não me seduziram, tendo-o conseguido mais tarde, o que sugere que o leitor é mesmo uma construção para onde convergem conhecimento, maturidade linguística e cultural, mas, sobretudo, todas as experiências e vivências individuais e interindividuais. É o caso de Ulisses, de James Joyce, por exemplo; só uns anos depois da primeira investida consegui chegar a Ítaca.
3. Se escolhesses um livro para leres no resto da tua vida, qual seria?
Um só livro não vale toda uma vida, mas a vida vale todos os livros que nela caibam.
Pensando num título: O Livro em Branco. Tenho a certeza de que no resto da minha vida ele acabaria por se compor com o essencial: a vida nas palavras.
4. Que livro gostarias de ter lido, mas que por um qualquer motivo nunca leste?
Tudo o que quis ler, li. Até mesmo O Crime do Padre Amaro, do Eça, quando ainda menino, às escondidas ou debaixo dos lençóis, à noite, em absoluta transgressão, “por não ter idade suficiente para as questões nele suscitadas”, na opinião da minha mãe. Agora, tenho a certeza de que há muito que ainda não “quis” ler mas que está na hora de começar a querer… António Lobo Antunes é, talvez, um dos casos mais prementes.
5. Qual o livro lido cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Boa! Só agora percebo que nenhum final me arrebata mais do que a magia com que se constrói o alinhamento narrativo. Um final só é excepcional se for bem preparado, bem alimentado na sua própria antecâmara. Arriscando um livro todo ele surpreendente [sendo o final igualmente irresistível]: A Metamorfose, de Kafka.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual o tipo de leitura?
Cresci em redor de livros. Os meus pais têm uma excelente biblioteca e durante anos leram muitos e bons livros. Recordo-me de, na infância, ter lido aqueles livros que todos os miúdos do meu tempo liam (Os Cinco, Os Sete, ambas as colecções da Enid Blyton, O Diário de Anne Frank, Os Putos, de Altino tojal, muita BD – Astérix, Lucky Luke, Tintim, por exemplo), mas também clássicos, como as obras de Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco ou Soeiro Pereira Gomes.
7. Qual o livro que achaste “chato”, mas que, ainda sim, leste até final?
Todos os livros que li sob as instruções rígidas da escolaridade marcaram-me, num primeiro momento, negativamente. Alguns deles acabaram por ser recuperados, mais tarde, quando na sequência de leituras espontâneas ou de insistência. Presentemente leio/releio apenas aquilo que me agrada.
8.Indica alguns dos teus livros/autores preferidos.
Na poesia, toca-me particularmente a escrita de Al berto, Herberto Hélder, Nuno Júdice, Jorge Sousa Braga, Sophia de Mello Breyner, Rimbaud, T.S. Eliot, Pablo Neruda, Dylan Thomas, Ezra Pound…
Na prosa, sou um leitor indefectível de toda a obra de José Saramago, para além de ter um gosto especial (que me vem da juventude) pela obra dos neo-realistas (sobretudo Fernando Namora e Manuel da Fonseca). Num registo totalmente diferente, mas admirável (porque conhecedor do homem, mas sobretudo da mulher, das relações e dos afectos) é, ainda, a obra de Alçada Baptista (especialmente o Tecido de Outono). José Luís Peixoto é, para mim, hoje, um nome igualmente incontornável. Gabriel Garcia Marquez reveste-me na pele. Depois, ainda há os clássicos, com Eça à cabeça…
9. Que livros estás a ler?
Estou a terminar a segunda leitura [a primeira foi há quase 20 anos] de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Encontro-me na fase em que Ricardo Reis se confronta com todos os seus fantasmas, receios, delírios e até fantasias, projectados na indefinição em torno de questões como “regressar ao Brasil/montar consultório em Lisboa?”; prosseguir com os encontros fortuitos e carnais com Lídia/explorar os afectos quem sabe se com Marcenda?”. A funcionar como entidade sub/sobreconsciente, Fernando Pessoa, seu pai e criador, acabado de morrer, mas que continua a aparecer-lhe em imagem imaterial.
Leio, ainda, a poesia de Daniel Faria, em Os Líquidos, uma pechincha de 3€ numa feira de rua, em Lagos.
Depois, há todos aqueles que leio sempre que posso, nos blogues: Assis, Roberto de Lima, Rejane Martins, Cecília Romeu, Laura Alberto, Andy, Tânia Contreras, Cris de Souza, Outros Encantos, Analuz, Cid@, Ingrid, Dilso, Celso Mendes, Assíria, Lara Amaral, Suzana, Lívia Azzi, André, Priscila, Carla Diacov, Zélia, Sandra, Luíza, Vanessa, Ira Buscacio, Oceano Azul, Vivian, e tantos outros que ajudam a povoar o meu quotidiano leitor. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Festival Sudoeste 2011 – Interpol e The National [dia 07 de Agosto]


Tens menos de 30 anos, gostas de música discoteca e de beber até que a alma doa? Vem ao Festival Sudoeste!!!


Este poderia muito bem ser o slogan do festival de Verão mais conhecido do país, aquele que atrai quase 40.000 pessoas por dia ao imenso recinto da Herdade da Casa Branca, numa das zonas mais bonitas de Portugal: a Zambujeira do Mar.
Não precisei de conferir a minha data de nascimento no Bilhete de Identidade e muito menos de espreitar as faixas que guardo zelosamente no mp3 para ver [não a dobrar] e saber que estava deslocado do maléfico slogan que aqui engendrei.
Mas, o que me arrastou até lá, afinal? Loucura ou masoquismo? Nem uma coisa nem outra.
A verdade é que mesmo com tristes notícias de assaltos em tendas e histórias de violência e drogas, o SW tem algo de muito especial que me atrai desde há alguns anos (ainda que com presenças intermitentes): praia, pé no chinelo, calor, [alguma] boa música, um ambiente que no recinto é descontraído e muito simpático, mas, sobretudo, memórias [muitas, vividas e por viver] justamente tudo o que em cada um de nós permanece para lá da frágil materialidade.


Pode parecer estranho, mas, sem o saber, planeei esta viagem até à 15ª edição do SW em Paredes de Coura, no distante verão de 2008, quando, ao som de Sex Pistols, confidenciei aos camaradas de festival que a banda a que mais queria assistir ao vivo se chamava Interpol. Choque absoluto! Então, e Radiohead? E Pink Floyd? E U2? Por mais argumentativo que tenha sido, a verdade é que não fui capaz de vencer o cepticismo de todos e das minhas palavras certamente sobraram faíscas de provincianismo ou sandice musical.
A resposta encontro-a nas minhas mais fundas raízes musicais, quando, ainda menino, escutava Joy Division, banda do mítico Ian Curtis que compunha sobre a vida como ela é [ou nos parece], sempre num registo sombrio que explora as viagens emocionais do indivíduo, o caos e a ordem, a alienação, a degeneração urbana e demais sensações com que nos degladiamos no dia-a-dia, muito para lá do que o corpo e a mente sabem [podem] suportar.
E porquê Interpol? Porque nenhuma banda desde então, na esteira de Joy Division, foi capaz de me tocar tão intensamente os sentidos, e sobretudo a alma, como esta nova-iorquina.
Imaginá-los ao vivo foi uma verdadeira aventura sensorial, mesmo sabendo que o seu registo se enquadra mais num ambiente intimista, pessoal e fechado de uma qualquer sala de espectáculos do que num cenário de festival. Tê-los no Sudoeste era um risco que eles, eu e todos os que se deslocaram até à Zambujeira propositadamente para assistirem à sua actuação tinham de calcular.


O concerto, inicialmente aprazado para as 22h, começou com um atraso de 45 minutos. Talvez por isso, a que acresce o facto de esta ser a derradeira noite de festival e ainda de haver, a fechar o dia, uma banda com uma fórmula comercial de sucesso que arrasta milhares em qualquer contexto – Os Suedish House Mafia –, os espectadores estavam dispersos ou, se diante do palco, faziam-no com o único intuito de aguardar pelo seu momento musical. Consegui, por isso, arrastar-me com facilidade até à grade diante do palco onde, conjuntamente com uma mole apreciável de dilectos seguidores, pude seguir uma hora exacta de um concerto que, para a crítica, foi “frio, para não dizer decepcionante”. Nada mais enganosa esta apreciação, a provar que a crítica especializada avalia as performances por critérios como os gritos da assistência, as palhaçadas dos músicos em palco ou o número de improvisos nos alinhamentos musicais dos discos gravados. Essa não é a essência de Interpol e a verdade é que quem os conhece delirou com um concerto sério, assertivo, muito próximo das canções originais, sempre de recorte fino e delicado, a dar corpo à máxima “what you see is what you get”. Do alinhamento musical, o álbum Antics foi estrela com uma mão cheia de excelentes canções, bem acompanhadas de outras faixas conhecidas de um público devoto e irredutível. Frios e pouco expressivos? Talvez, mas não serão esses atributos marcas de identidade de uma banda que recusa os formatos que tão subitamente transformam astros em estrelas cadentes? De resto, vi Paul Banks sorrir e Kessler a deslizar pelo palco em souplesse enquanto desferia os acordes de Evil, Slow Hands, Heinrich Maneuver ou da inigualável Not Even Jail, o que é para mim indício de que tocavam com prazer para quem os soubesse escutar.


No final já não tinha voz. Mas ainda faltava The National…
Não sei se por se aproximar a hora mais aguardada da maioria dos festivaleiros, se por terem visto Matt Berninger actuar de copo de vinho na mão, a verdade é que o público apareceu em maior número no concerto de The National, tendo sido também mais participativo.
Mas, de novo, senti o concerto como perfeito no lugar errado. Com uma postura em palco mais interactiva e uma set list cuidada, combinando algumas faixas mais populares com outras que funcionaram como testes ao excelente último álbum [não tendo mesmo faltado melodias que convidam ao relaxamento do batimento cardíaco], os The National mostraram que são mais camaleónicos do que os Interpol. Todavia, que concerto pode resultar em absoluto se diante de um público que os conhece de nome, que aplaude nos hiatos de algumas faixas, que conversa para o lado, ou que clama pela banda que vai actuar no momento seguinte?



No encore (frouxamente clamado pelo público, como o próprio Matt fez notar ao microfone), o tom subiu ao som dos inevitáveis Mr. November e Terrible Love, tendo atingido a sua expressão maior quando o próprio vocalista desapareceu por entre a multidão, deixando os seguranças com os nervos em franja.
O Festival terminava aqui, para mim. Já eram quase 2h da manhã e os festivaleiros ávidos de decibéis descontrolados e luzes de discoteca acotovelavam-se para chegarem até junto do palco para o derradeiro concerto. Voltei as costas ao palco; o meu lugar bem lá à frente ficava para todos aqueles que não distinguem bolotas de pérolas.

interpol, slow hands

the national, sorrow