domingo, 29 de agosto de 2010

anatomia

jorge molder, blau

às vezes regresso com a juventude na algibeira.
é raro iludir esse olhar que vigia cada canto da casa como se a vida estancasse a respiração sob aquelas quatro paredes. o corpo dorme: a cabeça, os pés e os braços (o peito morreu, já, debaixo daquele hálito de loucura que conduziu à aridez das veias). mas, entre a apatia e a rebentação, há mãos que crescem na luz crepuscular, mãos que não sabem ler nem escrever, mas que sabem tocar acima do sorriso e abaixo da pele, como se a existência fosse perfeita apenas por detrás de máscaras.
às vezes regresso com a juventude na algibeira.
mas, no percurso dos gatos, estou só e anoitecido…
olha, por que não despes as ruínas com que ignoras as cidades e apagas os terramotos onde vomitas as lágrimas? é tão simples… basta que procures, nesse corpo sem massa, pelas mãos. se necessário, grita (não são precisos órgãos; há muito que aprendi a amar sem o coração). olha, por que não voltas comigo e me ensinas como se escreve, como se lê, toda a verdade embrionária? (mesmo que isso demore todos os lugares e todo o tempo que ladrilham o chão das estrelas). bastaria isso para amputar o sono milenar da anatomia da espera.


catpower, evolution

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

de amores e desamores: efabulações sobre (e sem) rumo

gustavo fernandes, lowder than words

de amores e desamores quem nada sabe, quem nada diz, apesar de tanto haver para silenciar?… uns e outros, apenas ícones que, desde cedo, projectamos para néons de alfazema que assobiam no dorso de elefantes alados ou de insectos rastejantes desta escalada a que ironicamente chamamos de vida.
os amores são assim como que alimentos que se mastigam até se formar um bolo alimentar que escorrega verticalmente pela escada gástrica mas que acaba por nunca saciar o menos exigente dos comensais. são assim como que uma massa disforme que não se vê, mas que se sente e pressente sob as mãos do artífice (umas vezes hábeis, quase sempre inábeis), mãos que a procuram moldar numa forma que encaixe no peito, mas que invariavelmente termina num bibelô banal, assim uma espécie de chávena de café suja ou um prato de pirex fora de moda. o pior de tudo ainda é o esgar do tempo: solidifica a massa e transforma-a no objecto não que procuramos criar (a eternidade), mas que ele inexoravelmente define (o desamor) – tantas vezes agarrado a incontáveis pedaços de argila residuais, como são os casos da incompreensão, da revolta ou da frustração; tão difíceis de remover do corpo uns como os outros e é por isso que os olhos da rejeição, num assomo desesperado de reversão dos estados, procuram chamar construção de areia ao mais robusto castelo de pedra (desses que resistem às investidas de exércitos, quanto mais à fúria insana de um desamado…).
e a pouco e pouco, no arquejar lento de um realejo que torna irrelevantes todas as voltas do gemido do desamor – lá onde cactos e urzes benzem os jardins outrora tratados e viçosos –, os olhos vencidos voltam-se para deus e para o demónio – os ícones maiores que cada um constrói dentro de si: um que acaba por adormecer quando mais dele precisamos; o outro que não conhece nenhum estado senão a vigília dos abutres sobre a carne em putrefacção... e entre o azul celeste e o azul abissal, os lábios dificilmente reencontrarão os contornos das palavras…



radiohead, knives out

domingo, 22 de agosto de 2010

selinhos e distinções

Não ganhei o Euromilhões e tão pouco a lotaria, mas começo a convencer-me de que devia ter jogado… é que, não obstante a infinitude de blogues de indiscutível qualidade na blogosfera, tive a felicidade de receber uma distinção de duas bloguers que fazem parte do meu universo interactivo nestas lides: a em@ e a jb. A ambas agradeço com um carinho imenso a honraria prometendo que procurarei replicar ao desafio que ambas aqui me lançam.

1. Da em@. Eis o selo e suas regras:


1.º Colocar a imagem do selo no blogue;
2.º Indicar o link do blogue que me indicou (http://emapretoebrancoouacores.blogspot.com/);
3.º Indicar 3 blogues a quem reenviar o selo;
4.º Comentar nos blogues indicados.

Acabo de cumprir o preceituado. Indico, em seguida, os quatro blogues (não eram três? Ups, acho que me enganei :)) a quem reenvio o selo (a ordem é perfeitamente arbitrária):
- Mosaicos, da Cid@;
- Poetar É Preciso, da Márcia;
- Teatro da Vida, da Lara;
- Faces do Poeta, da Ira.


2.
Da jb. Também aqui há um selo e um conjunto de disposições a que procurarei, também, replicar:
1.º Lançar o selo o blogue.


2.º Anunciar nove coisas a meu respeito .
Tarefa difícil, ufa… ainda assim, vou tentar, mesmo sabendo que o mais que se diga seja apenas fragmentos de pequenos nadas. À tarefa dei o nome de versos e reversos. Aqui vai.
sei pouco sobre tudo:
1. verso: sei muito pouco sobre mim.
2. reverso: sei quase nada sobre os outros.

3. verso: sei manifestamente pouco sobre o mundo e os seus enigmas.
4. reverso: sei absolutamente nada sobre o conhecimento.

5. verso: sei alguma coisa sobre sorrisos e lágrimas.
6. reverso: sei rigorosamente nada sobre o que faz sorrir e chorar.

7. verso: sei um pouco sobre como aprender.
8. reverso: sei quase nada sobre o que aprender.

9. verso (sem reverso): sei tudo sobre coisa nenhuma.

3.º Indicar nove outros blogues a quem oferecê-lo (também aqui a ordem é arbitrária e acabo por fazer novamente batota, pois considerei 12 blogues e não apenas o número proposto. É contranatura tanta restrição e, mesmo assim, sei precisaria de para aí uns 50 para nomear todos quantos pretendia…):
- Ad litteram, da Zélia;
- Trem da Lira, da Cris;
- Im.possibilidade, da Laura Alberto;
- Primeira Pessoa, do Roberto;
- Mil e um Poemas, do Assis;
- Canto Geral do Brasil, do Pedro Ramúcio;
- Lua, da Andy;
- Verso Lilás, da Ana;
- Diário Extrovertido, do Marcantónio;
- Olhar de Versos e Inversos, da Andrea;
- Roxo Violeta, da Tânia;
- Domingos Barroso, do Domingos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

a loucura

gustavo fernandes, o mar na cabeça

deixei de acreditar em bosques de primavera.
a terra ensinou-me
que uma só árvore é toda a floresta
sem estação ou meteorologia
porque atravessa o tempo e gasta-o
na insanidade dos simples.

os seus olhos ardem no sonho febril
e as alfazemas campestres
remexem o sexo húmido dos frutos,
enquanto respiram do lado de dentro
como se a loucura
se estendesse sobre o corpo de uma mulher
que soubesse amar em silêncio.

ao longe
um som sibila nos ouvidos.
é a voz?
é a palavra?
é o verso?
(ou apenas o silvo seco
de um deus sandeu e cego
perseguindo o seu altar?)

os ramos continuam a bater no exterior da janela.
as folhas carbonizaram
no derradeiro incêndio.




pink floyd, comfortably numb

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

adeus

alessandro bavari, anacoret

dedicado a todos quantos não sabem morrer...
aos anacoretas da árvore do sangue naquele bosque de silêncios...


talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
ao traço frágil
sobrepõem-se
matizes coloridos
que compelem
o aparo e a memória
para a doçura dos frutos
que mordemos

talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
temo
o sol sem luz
e o luar sem pausa
que se escondem por detrás dos caracteres

talvez não saiba
escrever a palavra adeus...
ainda que seja cedo para o mundo
e talvez tarde para nós...
[01 de Março de 2009]


beth gibbons, mysteries

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

deicídio


fotografia de sebastião salgado

como saber a forma da alma
se o corpo continua a corromper
os altares do teu regaço?

a ciência dos afectos
sustem os mapas da ilusão
onde os sais e demais químicos
ardem num lume verde
não ao ritmo da fórmula
mas do coração

lentamente
assustados
como pássaros loucos
alvejados na obscuridade do voo
pela pólvora líquida dos ossos

é o nosso deus a morrer-nos nas mãos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

[d]ela

Pablo Picasso, Mulher em Frente ao Espelho

perdida a mulher
que desperta a serenidade do dia
perde-se o corpo
na estreiteza filosófica do amor
como se apenas a morte
extinguisse o incêndio do ser.

o sangue acelera a rigidez do órgão
e os mortos tremem com a solidão
de cidades transparentes
onde a temperatura desce à noite
e a poesia gela
abandonada no tapete da entrada.

estendo os braços
rodo a chave
enfio a cabeça
(a porta está já entreaberta)
e espreito:
ninguém do lado esquerdo da treva;
apenas o vazio que o bolor corrompeu.

do poema
versos uivam na superfície da fala
num frémito de lábios e bocas
que se agitam num tango invisível;

do homem
estilhaços de palavras agonizam
sobre o pó da estrofe
com um ritmo lento, cansado

… quase mudo.




lisa germano, the darkest night of all



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

húmus

Fotografia de Jorge Molder

tem a certeza do bolor
naquele rosto helénico
porque leu que a morte acelera a terra
onde lavram o corpo e a imagem
no engenho do espelho lento

sabe que na boca
apenas vive a espuma das palavras
que sustentam as árvores de pé
(mesmo que as raízes sejam apenas andaimes
na verticalidade dos ossos
expostos à lascívia de bordéis sem sexo)

perdeu a voz
e o hálito da ilusão
com que se soletra a felicidade
algures entre a gramática e o erro
como se os afectos que não conhece
se escrevessem com tinta de água
(os sentidos afogaram-se no mar)

apesar das manchas no céu da boca
e da cinza escondida nos lábios
ainda espera pelo dia
em que a língua renasça
do outro lado do poema

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

etiquetas

Fotografia de José Figueira

I. fogo

o poema incendeia
mas o poeta já não sabe arder.

onde te escondes, auto-de-fé?...



II. memória

ouvi dizer
que perder a memória
é morrer duas vezes.

morri-me.
morri-te.



III. colagens

porque o corvo
me ensina o grito da loucura
e me empurra para dentro
dispo os braços secos
e atolo-me na tua imagem muda.



IV. A morte do verbo

gaguejo
balbucio
sussurro
murmuro
falo
grito
brado
vocifero

as palavras gastam-se
em bocas sem saliva
e definham
nos submersos degraus da morte.




red apples, cat power

quinta-feira, 29 de julho de 2010

dobra(dura)

wassily kandinsky

era ali
entre o rosto e o mito
que escrevia as suas cartas
com velas nos pulsos
por onde escorria
a seiva negra da solidão

o amor roubou-lhe o alfabeto
e a mão apodreceu
sobre o tecido por terminar

era ali
entre o posto e o dito
que envelhecia as suas cartas
com celas nos punhos
por onde estarrecia
a soma negra da solidão

o amor roubou-lhe o amuleto
e o chão anoiteceu
sobre o terreno por trovejar

(Cris de Souza & Jorge Pimenta)

terça-feira, 27 de julho de 2010

álcool

duy huynh

volto-me para trás.

o vinho morre brando
na raiz do sol,
apagando copos de cinza
órfãos dos teus lábios.

a colheita de um regresso
estala o vidro,
por onde escorrem coágulos de estrelas
que incendeiam a boca.

gasta-se o palato e a lucidez;
solta-se a raiva
escondida na respiração das marés.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

no quarto IV

Fotografia de Jorge Molder

cambaleio pelo quarto
nauseado de escuridão.

a tua pele de âmbar
e as carícias de violino
agonizam agora pelo chão
como vestuário gasto ou perdido.

atravesso-o
perante a indiferença dos deuses
e o sarcasmo dos homens.

chovo-me persigo-me escrevo-me
mas o vento continua a bater na tinta
antes de secar a mão.

liberto a memória dos dias
como um peixe percorre o corpo menstruado
de vénus sem olimpo.
falhei a previsão na meteorologia do amor
e todavia
foi o tempo
é o vento
(será o momento)
eu sei-o...

resigno-me a acreditar
que as maçãs amadurecem fora da árvore...
ainda assim, inteiras.

terça-feira, 20 de julho de 2010

negativo fotográfico

Fotografia de José Figueira

quieto permaneço
sobre os varandins da memória

o peso dos rostos
verga-se à densidade dos nomes
reacendendo imagens
que ardem no pó da vidraça.

e se um dia eu adormecer
com estrelas na respiração
e as mãos pousadas nas cerejas
que pintaram
em tempos
os teus lábios
ainda te recordarás de mim?

no intervalo da espera
abraço o verso
que ergue as raízes
acima da saudade.




rodrigo leão, this light holds so many colors

sexta-feira, 16 de julho de 2010

mil e um poemas

o poeta e amigo assis que a todos toca com a sua sensibilidade verbal e paraverbal acaba de me deixar sem reacção, com o poema "balada de outros e tantos mares". agradeço-lhe com o que as palavras nunca conseguem (porque imperfeitas e insuficientes), mas que sei que ambos sentimos quando nos cruzamos neste universo a que chamamos poesia.
apenas uma advertência: ele deixou-me despido, absolutamente, naquele texto... ainda procuro as roupas um pouco por todo o lado... felizmente, e como diz jorge sousa braga:
"quanto mais me dispo
menos nu
me sinto"
(streap-tease)

http://mileumpoemas.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

arco-íris

Fotografia de José Figueira

cortei os pulsos para percorrer a estrada do sangue
plantei uma árvore para perder a esperança
inaugurei o sol para dançar na sombra
mordi os frutos para deixar escorrer a noite
esventrei o céu para morrer de espanto.

hoje
o meu arco-íris não é mais
que uma vaga recordação.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

cassandra

as ondas descem sobre o olhar.

se o iodo e o sargaço
se juntarem em redor do teu nome,
alguma vez serei apenas a água
com que inventes novos rios
e correntes sem foz?

e se as veias estremecerem
num bailado sanguíneo
acendendo rostos do passado
(continuo a achar que a morte
é apenas as palavras que não se esquecem)
recordar-te-ás que já fui o fogo
que queimava, lentamente,
o lençol de espinhos onde dormias todas as noites?

entre as dúvidas e as nunca certezas,
o corpo inclina-se para a sombra
perscrutando a profecia órfã:
na vaga do olhar
a vida executada.


air, cherry blossom girl

sexta-feira, 9 de julho de 2010

surrealidades

O fundamento de toda a experiência tem de estar fora da experiência.
E, assim, para a Poesia, o Oásis e o Deserto são as tenazes que a geram, já que a realidade não se baseia só na substância das coisas, mas também no seu caudal e relacionalidade. Tudo se define pelo diferente. E para a Ideia da Totalidade de uma Vida Única nós acreditamos na conjugação futura desses dois estados, na aparência tão contraditórios, que são o sonho e a realidade. Acreditamos numa Realidade Absoluta, numa SURREALIDADE se é lícito dizer-se assim.”
Mário Cesariny, Primavera Autónoma das Estradas


- acabo de perceber como surrealisticamente não sou surrealista: visto-me e disponho-me, todos os dias, com a experiência a servir-me de espelho…
- pois, eu sempre percebi que sou surrealista, visto a roupa que não me serve e passeio nesta fogueira das vaidades.
- não te serve… mas fica-te bem! quanto à fogueira: deixa arder…
- deita-lhe gasóleo! até porque as cruzetas se fizeram para albergar cadáveres esquisitos, queimados…


a verdadeira experiência surrealista (porque não vive apenas de si mesma, mas das intersecções que proporciona) é poder efabular sobre trivialidades absolutas e essencialidades relativas (na verdade, e sem pruridos linguísticos ou conceptuais, sobre tudo e sobre nada) com a amiga e poeta laura alberto do blogue im.possibilidade, seja no cosmopolita e variegado porto, seja numa popularmente pitoresca freamunde…


terça-feira, 6 de julho de 2010

m(ot)im

caros amigos, julgo que o meu blogue se amotinou. tenho recebido comentários que aceito e desaparecem, outros que eu próprio faço e que nunca apareceram... pode haver um qualquer conflito com os mecanismos de funcionamento do próprio blogue. justamente para precaver a situação (e, já agora, para despistar qualquer outra avaria mais séria), republico aqui o texto.
um abraço e um agradecimento a todos quantos por cá passaram e deixaram a sua marca... em tinta transparente, mas com o coração sempre presente.
jorge

vénus de willendorf

a vida abre-se como botões de rosa
em jardins alinhados
em látex e formol.
coxas femininas anunciam o destino
no v desenhado sobre marquesas,
enquanto o deus nomeado pelos homens
converte planos de felicidade
numa criação exclusiva das suas mãos.
tudo é luz, milagre, constelação… à espera da noite.
e o sangue que rega os corpos sem vida
acende também o relâmpago da existência
naquele rectângulo asséptico
de uma ilusão transparente.

os dias correm
sob patas rutilantes
que latejam nas têmporas do quotidiano:
são tentáculos a irromper pelas paredes húmidas
sobre a cal que o artífice da vida
jurou envolver no meu corpo.
do estio prometido
sobra o calor do inferno;
da brisa anunciada
apenas as trevas do inverno.

e no vaivém dos dias
a pele arde na fornalha da locomotiva
que cospe os derradeiros bagos de céu.

pergunto-me por ele,
o guardador de rebanhos
que engana as reses brancas
e abandona as negras
umas e outras antes de saberem morrer.

a resposta?
...

deixei de saber esperar;
inicio a descida
ao lado do pássaro
que me despiu as asas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

m(ot)im

vénus de willenforf

m(ot)im

a vida abre-se como botões de rosa
em jardins alinhados
em látex e formol.
coxas femininas anunciam o destino
no v desenhado sobre marquesas,
enquanto o deus nomeado pelos homens
converte planos de felicidade
numa criação exclusiva das suas mãos.
tudo é luz, milagre, constelação… à espera da noite.
e o sangue que rega os corpos sem vida
acende também o relâmpago da existência
naquele rectângulo asséptico
de uma ilusão transparente.

os dias correm
sob patas rutilantes
que latejam nas têmporas do quotidiano:
são tentáculos a irromper pelas paredes húmidas
sobre a cal que o artífice da vida
jurou envolver no meu corpo.
do estio prometido
sobra o calor do inferno;
da brisa anunciada
apenas as trevas do inverno.

e no vaivém dos dias
a pele arde na fornalha da locomotiva
que cospe os derradeiros bagos de céu.

pergunto-me por ele,
o guardador de rebanhos
que engana as reses brancas
e abandona as negras
umas e outras antes de saberem morrer.

a resposta?
...

deixei de saber esperar;
inicio a descida
ao lado do pássaro
que me despiu as asas.


Alcest, écailles de lune – part 1

sexta-feira, 2 de julho de 2010

dinamite


as mãos dormitam nos bolsos embalando os olhos que incham sob a ameaça de revólveres azuis com aroma a alfazema. pelo sangue, travestis enrolam o sexo e mordem a carne que, espasmo após espasmo, entumece, galga os ossos, arranha a pele e reinventa o silêncio.
ao seu redor, pressente vozes sem boca e ecos sem memória. está só. ele e o gato vadio que esgravata o lixo. depois é o pátio, um insecto ruidoso e o automóvel que chia a alta velocidade. tudo passa… todos fogem… apenas ele permanece e de novo só. outra vez o jogo do silêncio…
nem a noite morna ou a beata esquecida nos lábios lhe estendem a mão e o olhar. só… como o mais vadio dos cães ou dos gatos que embriagam a lucidez dos homens.
boceja… inclina-se sobre o colchão do silêncio. os lençóis são o passado, cada vez mais sujo, cada vez mais roto. adormece no trilho da memória. a esperança há já muito que lhe dinamitou o peito.



cat power, i found a reason